sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Lugar reservado no Funicular

Sempre gostei da Bica. Tem uma vista simpática, uma quotidiano rico, caras sorridentes, boa música e gente bonita. Há já algum tempo que escolhi a Rua da Bica de Duarte Belo, como a minha soleira da porta, quando decido que é tempo de sair e ver mundos, rir e beber um copo de vinho.
De início parava pela Bicaense, um lugar sempre bem composto, com boa música e pessoas que, na sua maioria conseguiam ter conversas interessantes, comuns, cheias.
Ultimamente, contudo, descobri que o Funicular me assenta melhor. É mais neglige, mais desprendido, mais sólido e reúne algumas coisas que me fazem escolhe-lo como o meu bar de eleição para carregar baterias antes de descer a rua e regressar ao Jamaica ou ao Tóquio, que para mim, são depósitos de memórias, caras e costumes, feitos em compotas de boa música. A música, a par com as pessoas, são o que me faz escolher um bom sitio. Claro que, o facto de se poder fumar também me faz por de lado qualquer consideração mais tonta a respeito do facto de o espaço ser pequeno, ou a rua demasiado larga para tanta gente.
Ontem, de volta ao Funicular para ouvir um amigo DJ, a colocar música, deparei-me com as Tertúlias Informais. Um espaço, onde amigos, estranhos, figurinhas de passagem e cromos colados á mobília partilham o gosto pelas palavras, na forma de poemas, de textos, de conversas, de debate, de exibição, de exibicionismo ou simplesmente de desabafo.
Tive sorte…a escolha da noite caia me bem. Depois do “Cântico Negro” de José Régio declamado por João Villaret, (o primeiro poema que decorei na minha vida, numa noite de Verão de 1990, e com o qual arrecadei um beijo cinéfilo só possível por um adolescente profundamente enamorado), seguiu-se a leitura do Prefácio do Retrato de Dorian Grey de Óscar Wild, brilhantemente lido, em versão original por um rapaz simpático a quem gosto de chamar Tejo. Apareceu Alberto Caeiro, de novo José Régio, á discussão com Adolfo Luxúria Canibal, a cuscar sobre Sidharta e tantos outros.
Quem entrava acabava por ficar e aprender um pouco mais a troco de nada, e todos se enchiam (alguns a custo de muitos copos) de uma leveza e do ar contente de quem descobre uma pequenina coisa nova que nos surpreende.
No Funicular é assim ás Quintas-feiras.
Numa altura em que começava a pensar que as pessoas interessantes ou melhor pondo, que a mim me interessam, tinham desertado para algum canto recôndito da Ex-URSS, ou para o paraíso ficcional do Alasca, onde os homens crescem em árvores, fico contente de lhes ter apanhado o rasto.
Ás quintas, trazem os amigos, as entoações, as canções, as opiniões e a menos que o piso esteja demasiado molhado, há muitos ainda-desconhecidos-candidatos-a-amigos-ou-a-biblioteca-itenerante, para descer aquela rua com o apelo dos segredos, aos trambolhões.

4 comentários:

Anónimo disse...

Amiga Tejo sempre foi sinónimo de bom gosto e de vistas magnificas e mais uma vez não nos deixou ficar mal.Parabéns, o teu gosto está mais apurado que nos ultimos tempos, realmente a vista é bela.....

Camaleão Vaidoso disse...

Cara gira...

Veremos como se navega, mesmo que se mantenha fundeada ao longe..

Beijos

riacho disse...

Numa dessas quintas, lá serei um desses seres desconhecidos, sentada numa folha de árvore prestes a aterrar.

Gostei bastante deste Funicular a subir a encosta.

:-)

Camaleão Vaidoso disse...

Espero-te numa quinta destas para trocarmos palavras, abraços e um belo copo de vinho...convido eu. Houvesse muitos Funiculares destes para nos ajudar a subir as encostas da vida...

Beijos