"Viver é um treino e uma aprendizagem. É um exercício de meter no possível os nossos sonhos, os nossos desejos e as nossas ambições mas sem abdicar deles. Quando fazemos esta descoberta ainda vamos mais longe; fazemos por tornar os sonhos possíveis. E o que é possível, sempre, é o afecto que damos aos outros."
António Alçada Batista,
29/01/1927 - 07/12/2008
in "O riso de Deus
Mostrar mensagens com a etiqueta Despedidas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Despedidas. Mostrar todas as mensagens
domingo, dezembro 07, 2008
terça-feira, setembro 30, 2008
Um gajo normal
sexta-feira, setembro 12, 2008
segunda-feira, julho 28, 2008
domingo, março 23, 2008
Adeus (as palavras estão gastas)
Já gastámos as palavras pela rua,
meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes
E eu acreditava.
Acreditava.
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É
pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus."
Eugénio de Andrade
meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes
E eu acreditava.
Acreditava.
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É
pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus."
Eugénio de Andrade
quarta-feira, março 19, 2008
By the end of the day...

Custa sempre perder um amigo, seja na sequência das nossas acções ou de reacções a atitudes terceiras. Há qualquer coisa de inconsolável, no acto de vermos aquela pessoa virar as costas e seguir outro caminho que já não acompanharemos.
Quando um amigo morre subitamente e depois de ultrapassado o choque de aceitar os maus figados do destino, sentimo-nos acalentados na ideia de que enquanto ele partilhou o nosso quotidiano, aproveitamos ambos de todo o carinho, a responsabilidade, a alegria, a partilha que o facto de gostarmos um do outro encerra. Pode já não estar entre nós, mas fica sempre presente nas memórias que partilhamos entre outros amigos, nas fotografias, nas frases que passam em flashback com os sorrisos dele.
Perder alguém por desistência não tem nobreza, melancolia ou tempo que console. Desistir de alguém em prol do nosso bem estar, pode ser uma atitude sensata e adulta, mas não é um gesto que acalme o espírito. Mais do que a dor da opção tomada, o que mais marca é a raiva da desilusão. Quando genuinamente gostamos de alguém que guardavamos acima de qualquer mácula e essa pessoa se revela em atitudes tristes, desrespeitosas, cínicas e até cruéis, há uma parte de nós que secumbe de peito aberto ao golpe da espada. Porque não esperavamos, porque não se quer acreditar, porque nunca na vida seriamos assim enganados!
Procuramos justificações, discutimos para nós razões, negamos até á ultima que possa ser verdade, até que exaustos da espera da comprensão ou do esclarecimento apaziaguador, que tentamos encontrar a custo, nos vemos obrigados a aceitar.
É por isso que se perdoa tudo a um amor: a traição, o crime, os maus tratos, a solidão mas é tão dificil esquecer quando se joga fora uma amizade.
É por isso que se perdoa tudo a um amor: a traição, o crime, os maus tratos, a solidão mas é tão dificil esquecer quando se joga fora uma amizade.
quarta-feira, janeiro 09, 2008
A morte saiu á rua num dia assim....
No início de um ano que que trouxe tantas mortes e perdas para tantos nós, que se ressente injusto pela natureza da vida e nos deixa quase sem folêgo para inspirar tudo o que ainda há para vir, deixo aqui umas palavras de conforto, escritas pela Luisa Castel-Branco e que encontrei, por puro acaso (ou talvez não) num banco de Jardim onde sentei a alma para deixar a dor descansar.
"Dizer adeus"
Dizer adeus naquele momento parece ser o mais doloroso. A missa, as pessoas em lágrimas, nós em lágrimas, os rituais, os abraços e uma vez mais as lágrimas. Mas afinal, a morte não é isso, nem a partida do corpo nem as despedidas sentidas é tudo o resto, todos os dias que sobram.
Segue-se um vazio tremendo, de vez em quando até esquecemos que a pessoa já cá não está, entre nós, e introduzimo-la na conversa, nos momentos do dia-a-dia. Até que nos damos conta que não é assim. Resta então essa imensa capacidade que temos de sobreviver, de tomar fôlego e andar em frente, mas não estamos sós, porque ao nosso lado, bem ao nosso lado, vai uma sombra a par.
A morte nunca é justa, tal como a vida não o é. E é nessa depuração das tristezas e dos ressentimentos, que vamos fazendo o caminho. Mas amar, das mais diferentes formas que o amor toma, é sempre um bálsamo para a alma. Mesmo que naquele momento só signifique mais dor, a verdade é que ninguém morre enquanto houver uma única pessoa que o relembro com saudade. A memória é uma bênção dos deuses. É aí que vamos buscar o alimento para a vida, e é aí que guardamos o que foi e já não é.
A amizade é a outra forma do amor, e dá-la e recebê-la torna-nos seres humanos muito melhores. É isso que significa envelhecer. É ver partir, chorar e depois sorrir com as lembranças e sempre que possível, dizer a alguém o quanto gostamos, o quanto essa pessoa é importante para nós. O que podemos ambicionar é que a idade nos leve o pudor das palavras e nos dê maior dimensão à alma."
in Destak 4.12.07
"Dizer adeus"
Dizer adeus naquele momento parece ser o mais doloroso. A missa, as pessoas em lágrimas, nós em lágrimas, os rituais, os abraços e uma vez mais as lágrimas. Mas afinal, a morte não é isso, nem a partida do corpo nem as despedidas sentidas é tudo o resto, todos os dias que sobram.
Segue-se um vazio tremendo, de vez em quando até esquecemos que a pessoa já cá não está, entre nós, e introduzimo-la na conversa, nos momentos do dia-a-dia. Até que nos damos conta que não é assim. Resta então essa imensa capacidade que temos de sobreviver, de tomar fôlego e andar em frente, mas não estamos sós, porque ao nosso lado, bem ao nosso lado, vai uma sombra a par.
A morte nunca é justa, tal como a vida não o é. E é nessa depuração das tristezas e dos ressentimentos, que vamos fazendo o caminho. Mas amar, das mais diferentes formas que o amor toma, é sempre um bálsamo para a alma. Mesmo que naquele momento só signifique mais dor, a verdade é que ninguém morre enquanto houver uma única pessoa que o relembro com saudade. A memória é uma bênção dos deuses. É aí que vamos buscar o alimento para a vida, e é aí que guardamos o que foi e já não é.
A amizade é a outra forma do amor, e dá-la e recebê-la torna-nos seres humanos muito melhores. É isso que significa envelhecer. É ver partir, chorar e depois sorrir com as lembranças e sempre que possível, dizer a alguém o quanto gostamos, o quanto essa pessoa é importante para nós. O que podemos ambicionar é que a idade nos leve o pudor das palavras e nos dê maior dimensão à alma."
in Destak 4.12.07
quinta-feira, dezembro 06, 2007
Subscrever:
Comentários (Atom)

