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quinta-feira, janeiro 22, 2009

O gosto dos outros

Ás vezes falta o sentido no excesso da palavra. Dizer por dizer o que nos o que nos vai na alma na esperança de encontrar o verdadeiro poder da palavra que seja simultaneamente eficaz e libertador.
Com a idade e a capacidade de manuseamento da linguagem vamos conseguindo criar nos outros expectativas daquilo que temos para dizer. Com as palavras vamos dando a conhecer quem somos, o que queremos, o que pensamos sobre os mais variados assuntos. Quanto maior for a nossa criatividade e capacidade de usar a palavra mais fácil se torna convencer os outros dos nossos objectivos, da nossa força, da nossa sinceridade.
Por isso é tão desarmante a impossibilidade de utilizar essa ferramenta ou essa arma na conquista do nosso espaço social.

Recentemente conheci uma criança surda-muda o que fez com que a minha capacidade de comunicar fosse posta à prova. Apesar das minhas reticências ela tentou da forma que lhe pareceu mais fácil mostrar-se e dar-se, sem que o silêncio se tornasse um muro intransponível. Entre sorrisos e gestos, com muita mão na mão rapidamente chegamos ao sítio onde começam as amizades.

Esta situação fez-me pensar um pouco sobre alguma injustiça praticada por mim face a pessoas que não têm, não porque não sejam capazes, essa apetência para a comunicação, para nos prenderem a atenção com as suas palavras, para nos seduzirem com os seus conhecimentos, para nos encantarem com as suas frases. A verdade é que, dada a minha queda para o excesso de oralidade acabei por pôr de lado gente, que há sua maneira, terá dezenas de coisas belas, inteligentes ou verdadeiras para me ensinar, mas que não sabem embrulhar estas prendas com enfeites mais apelativos para mim.

Percebo o quanto injusta e vítima sou pela prática dessa forma de snobismo intelectual. Sou tão ridícula eu no meu julgamento da intelectualidade quanto patética na prática de descriminação de gentes pela diferença de vocábulos, significados e referências culturais. Aborrece-me ser assim. Não conseguir adequar a minha capacidade de atenção e aprendizagem aos meios que outros, bem mais inteligentes, conhecedores e sabedores se oferecem para partilhar sem que, nesse gesto, se encontre pinga de superioridade.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Heróis

Perante as lágrimas dela, o meu sofrimento egoista virou redundância.
“Tu não és a minha mãe! Tu não és a minha mãe!” gemia a minha filha encolhida sobre si, incapaz de me olhar nos olhos, como se a minha presença a assusta-se ainda mais. Tentava a todo o custo tranquilizá-la, mostrar-lhe o quanto a quero, o quanto são eles a coisa boa da minha vida correndo trilhos na minha cabeça a tentar perceber o porquê daquelas palavras.
Segundo ela, eu não sou a mãe. Sou alguém igual à mãe, mas que não é a mesma mãe. Não é uma mãe que sorri, não sou uma mãe “querida”, não sou uma mãe presente. Mas, apesar deste rol de queixas, ela ainda gosta de mim.

No instante que ouvi essas grito de desespero, e por entre gritos cortados a seco do fundo de mim percebi
É difícil, cansativo e diário o esforço por sermos o herói, o tesouro, o segredo mais belo de alguém, mas basta uma pequena escorregadela sem queda aparatosa, para passarmos a ser a desilusão de alguém.

Nos últimos dias a contagem fez-me perder. Eu perdi dois heróis e ganhei o estatuto de “estranha”.