quarta-feira, maio 28, 2008

As minhas lembranças sabem a vício

"E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e das buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais nocturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade.
E já nada disto, juro, era teu.E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas.
Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido.

Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem principio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo.
E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.

Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu pra sempre. "

Miguel Sousa Tavares in "Não te deixarei morrer, David Crocket"

quinta-feira, maio 15, 2008

Minha laranja amarga e doce





Gosto de olhar a chuva pela janela. Ver o desfilar das gotas emparelhadas que escorregam pelo vidro num deslize quase sensual, para cairem aos meus pés num pequeno grito mudo de fim de estação.
Gosto das ideias sossegadas, preguiçosas e compostas deitadas sobre uma cama doce e quente num silêncio de paz, que existe neste corpo desarrumado com gosto.
Gosto de inspirar este aroma que me envolve e se mistura com a chuva no asfalto quente e um suspiro floral das jacarandás que nos garantem a Primavera.
Gosto do som que as memórias frescas repetem em mim até à exaustão confessa de um sorriso cúmplice.
Gosto de olhar o espelho e não ter saudades de mim. De me sentir madura e moldada pelo tempo e saber-me mais bonita no futuro que se aproxima quando se esbate o reflexo cansado do exercício e do esforço de crescer. Gosto de ser crescida.
Gosto do que não sei dizer. Gosto do que ainda não sei mostrar.
Gosto de me descobrir em pequenas surpresas folheadas sem pressas.
Gosto de ser assim. De me viver assim.
De gostar que gostes.

terça-feira, maio 13, 2008

Ces Petits Riens

Um aniversário mais, um diálogo que não se esgota, umas mãos que se embrulham, os sorrisos que se soltam. Os segredos que se contam, as esperanças que se descotam, os motivos que se justificam.
Assentas-me bem.Sem mais, nem porquês.

quarta-feira, maio 07, 2008

Exageros sem mal entendidos...

Mensário


"Disse-lhe hoje sei que não serás mais minha do que já és, porque és tanto, porque se não fosse o teu rosto seria muito mais infeliz, pois seria ignorante, porque se não fosse o teu olhar, não conheceria a beleza e chamaria belo ao que apenas é indiferente. Disse-lhe hoje sei que és absolutamente minha, porque te escrevo, porque te vejo, porque estás dentro de mim, e essa distância insuperável é um passo pequeno que dou sem sentir. Disse-lhe hoje sei que te amo."



José Luís Peixoto, in Uma Casa na Escuridão

quinta-feira, abril 24, 2008

segunda-feira, abril 21, 2008

Deixa Lá

Em maré de reciclagem de estados de espírito...para cotas e sem-cotas...

A idade do suspiro...

A propósito do lançamento do novo CD da Mafalda Veiga, esta noite na FNAC, não pode deixar de pensar no lançamento do CD anterior e da forma como a vida, de forma por vezes quase dolorosa, nos ensina o que é melhor para nós, mesmo que à primeira vista nos pareça uma profunda estupidez.
Por graça ao longo dos anos, os amigos habituaram-se a ouvir-me dizer que “casaria” com o primeiro homem que gostasse de Mafalda Veiga. Como se de alguma forma essa partilha de gostos podesse ser extrapolada numa garantia de felicidade certeira.
Praticamente um ano depois, e muita água passada debaixo destas pontes que se foram construindo percebo o quanto é fácil querer cosntruir alicerces de betão armado feitos de açucar amarelo. Não dá. A paixão tolda raciocínios e embrulha os medos, disfarça as diferenças, mascára os defeitos que não queremos ver, mas quase nunca nos mostra a massa de que as pessoas são feitas.Poder-se-ia gostar de Mafalda Veiga, por uma tarde como ramo de flores entregue á saída do escritório a jeito de querer confessado, mas nunca se seria fã da mesma Mafalda, pelos mesmos motivos, até porque ai não haveria nada a aportar.

Ao mesmo tempo que se discute o amor e se vive a paixão consubstancio esta minha ideia de que o mesmo não é compatível com desculpas esfarrapadas de ausência de tempo, dinheiro ou simples disponibilidade mental O amor, genuino no sentido, não se compraz com pedidos de ausência para arrumar ideias, a casa ou do Impresso do IRS que está a atrasado. Na paixão não se podem mendigar afectos, carinhos, atenções, nem aceitar que nos neguem o direito de os dar, porque é isso que nos apazigua o pequeno coração. Nada é suficientemente rídiculo, patético, impossível, imaturo quando se esta apaixonado. Dizemos as coisas mais adolescentes a propósito de um sorriso que nos faz feliz e mais bonitas.Ainda que agora as circunstâncias da nossa vida não tenham uma dose de imprevisisbilidade tão grande, e por muito que convictamente acreditemos que já não há nada de novo a descobrir, reside na essência da paixão essa capacidade de nos surpreendermos, de nos deixarmos levar, de repetir comportamentos que pensavamos ter deixado para trás.
Antes namoravamos ás escondidas dos pais ...agora namoramos ás escondidas dos filhos e somos capazes de afectos desnorteados que envergonhariam qualquer um deles...e somos felizes.

A propósito da simplicidade e da forma como o amor nos reorganiza a agenda e os hábitos aqui fica um texto do Alvim, que ás vezes até me consegue fazer rir.



Esta coisa de gostar de alguém não é para todos e, por vezes – em mais casos do que se possa imaginar – existem pessoas que pura e simplesmente não conseguem gostar de ninguém. Esperem lá, não é que não queiram – querem! – mas quando gostam – e podem gostar muito – há sempre qualquer coisa que os impede. Ou porque a estrada está cortada para obras de pavimentação. Ou porque sofremos de diabetes e não podemos abusar dos açucares. Ou porque sim e não falamos mais nisto. Há muita gente que não pode comer crustáceos, verdade? E porquê? Não faço ideia, mas o médico diz que não podemos porque nascemos assim e nós, resignados, ao aproximar-se o empregado de mesa com meio quilo de gambas que faz favor, vamos dizendo: “Nem pensar, leve isso daqui que me irrita a pele”.Ora, por vezes, o simples facto de gostarmos de alguém pode provocar-nos uma alergia semelhante. E nós, sabendo-o, mandamos para trás quando estávamos mortinhos por ir em frente. Não vamos.. E muitas das vezes, sabendo deste nosso problema, escolhemos para nós aquilo que sabemos que, invariavelmente, iremos recusar. Daí existirem aquelas pessoas que insistem em afirmar que só se apaixonam pelas pessoas erradas. Mentira. Pensar dessa forma é que é errado, porque o certo é perceber que se nós escolhemos aquela pessoa foi porque já sabíamos que não íamos a lado nenhum e que – aqui entre nós – é até um alívio não dar em nada porque ia ser uma chatice e estava-se mesmo a ver que ia dar nisto. E deu. Do mesmo modo que no final de 10 anos de relacionamento, ou cinco, ou três, há o hábito generalizado de dizermos que aquela pessoa com quem nós nos casámos já não é a mesma pessoa, quando por mais que nos custe, é igualzinha. O que mudou – e o professor Júlio Machado Vaz que se cuide – foram as expectativas que nós criamos em relação a ela. Impressionados?

Pois bem, se me permitem, vou arregaçar as mangas. O que é díficil – dizem – é saber quando gostam de nós. E, quando afirmam isto, bebo logo dois dry martinis para a tosse. Saber quando gostam de nós? Mas com mil raios, isso é o mais fácil porque quando se gosta de alguém não há desculpas nem “ ai que amanhã não dá porque tenho muito trabalho”, nem “ ai que hoje era bom mas tenho outra coisa combinada” nem “ ai que não vi a tua chamada não atendida”.Quando se gosta de alguém – mas a sério, que é disto que falamos – não há nada mais importante do que essa outra pessoa. E sendo assim, não há sms que não se receba porque possivelmente não vimos, porque se calhar estava a passar num sítio sem rede, porque a minha amiga não me deu o recado, porque não percebi que querias estar comigo, porque recebi as flores mas pensava não serem para mim, porque não estava em casa quando tocaste.

Quando se gosta de alguém temos sempre rede, nunca falha a bateria, nunca nada nos impede de nos vermos e nem de nos encontrarmos no meio de uma multidão de gente. Quando se gosta de alguém não respondemos a uma mensagem só no final do dia, não temos acidentes de carro, nem nunca os nossos pais se sentiram mal a ponto de nos impossibilitarem o nosso encontro. Quando se gosta de alguém, ouvimos sempre o telefone, a campaínha da porta, lemos sempre a mensagem que nos deixaram no vidro embaciado do carro desse Inverno rigoroso. Quando se gosta de alguém – e estou a escrever para os que gostam - vamos para o local do acidente com a carta amigável, vamos ter com ela ao corredor do hospital ver como estão os pais, chamamos os bombeiros para abrirem a porta, mas nada, nada nos impede de estar juntos, porque nada nem ninguém é mais importante, do que nós."

Fernando Alvim

quinta-feira, abril 17, 2008

na 3ª Jacarandá á esquerda in stars garden

As costas da nossa pele


“We might live like never before

When there's nothing to give

Well how can we ask for more

We might make love in some sacred place

The look on your face is delicate”


Damien Rice - Delicate

As mãos na pele, a pele á flor da mim. A conversa fácil do toque que se reconhece.

O sorrir sem limites de cor. O brilho despejado em pequenos cristais de emoção que escorrem pelo rosto a descoberto de medos e lógicas.
As mãos na terra, a semente na boca.

A pele que desabrocha, em bicos de pés pelos teus caminhos acima.

quarta-feira, abril 16, 2008

But you put the happy in my ness

Os afectos

"Ah, quanta mágoa repetida
Ah, quantos sonos incompletos
Mas oh, quanta palavra tomou vida
Na nascente dos afectos
Desorganizados alfabetos

Não sabe ler neles quem pensa
nem lhe conhece bem as cores
quem por secundários os dispensa
aos afectos medidores do corpo e da alma e seus sabores

Porque o quadrado da hipotenusa
é igual a já não sei quê dos catetos
a traça do passado é tão confusa
mas tão límpida a lembrança dos afectos
são fartos e temíveis
são as cordas sensíveis
quietos irrequietos p´ra sempre politicamente incorrectos
os afectos, os afectos

Era de uma espécie quase extinta
foi encontrada adormecida
a cara talvez em paz, talvez faminta
esperando a investida
de um só beijo que a devolva à vida

Já que se pede ao amor loucura
não se lhe dê veneno à flecha
nem triste pecado à mordedura
abre o pano e até que fecha o amor busca nos afectos a deixa

Porque o quadrado da hipotenusa
é igual a já não sei quê dos catetos
a traça do passado é tão confusa
mas tão límpida e lembrança dos afectos
são fartos e temíveis
são as cordas sensíveis
quietos irrequietos pra sempre politicamente incorrectos
os afectos, os afectos "

Sérgio Godinho

terça-feira, abril 15, 2008

Pai apetitoso

"A Familia

Vamos à pesca disse o pai para os três filhos
vamos à pesca do esturjão
nada melhor do que pescar
para conservar a união familiar
a mãe deu-lhe razão
e preparou sem mais detença
um bom farnel
sopa de couves com feijão
para ir também
à pescaria do esturjão
e a mãe e o pai
e os três filhos
foram à pesca do esturjão
todos atentos
satisfeitíssimos
que bom pescar
o esturjão!

que bom comer
o belo farnel
sopa de couves com feijão!
e foi então
que apanharam
um magnífico esturjão
que logo quiseram
ali fritar
mas enganaram-se na fritada
e zás fritaram o velho pai
apetitoso
muito melhor
mais saboroso
do que o esturjão

vamos para casa
disse o esturjão "

Mário-Henrique Lieira

Goofy smiles

Todo o desejo é miope...ás vezes mesmo cego

Noivado


"Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.

-És tu Ernesto, meu amor?

Não era.

Era o Bernardo.

Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.É o que faz a miopia."

Mário Henrique-Leiria

A luz que o meu querer reflecte é a forma das minhas palavras quando nuas...

"#Ela sabe que não se consegue precisar o momento, a hora, o dia em que uma pessoa fica apaixonada.
Sempre um pouco antes, sempre um pouco depois.
Ela sabe que não se pode revelar definifivamente como, e porquê, uma pessoa ficou apaixonada por esta pessoa, precisamente esta, e não por outra muito parecida com ela. Qualquer razão perde a razão.
O que uma pessoa pode sentir é se está ou não apaixonada.
Que houve um estreito abismo, sem saber quando nem como, sobre o qual sabe que saltou. Sem poder avaliar as consequências. Como uma doença. Não é só isso.
Uma pessoa quando está apaixonada não está continuamente apaixonada, muito menos com a mesma intensidade. Varia muito. Acontece uma pessoa duvidar se está ou não apaixonada. Ficar totalmente baralhada.
É mais fácil uma pessoa sentir a paixão por outra pessoa quando ela não está presente.
Isso parece-lhe um facto. A sua ausência aumenta o poder da sua presença.
A paixão é mais sua, mais inteira, há menos interferências.

Com ela é assim. Sente um vazio que só o outro, único no mundo todo, vai poder preencher, sarar, cuidar. Uma espécie de saudade imperiosa. Uma questão de vida ou de morte."


in Rosa Vermelha em Quarto Escuro, Pedro Paixão

Que se danem os nós...


segunda-feira, abril 14, 2008

Oficialmente não tinha razão...mas algures por ai está uma nêspera em cima da mesa...

Mário Henrique-Leiria


"Uma nêspera

estava na cama

deitada

muito calada

a ver

o que acontecia

chegou a Velha

e disse

olha uma nêspera

e zás comeu-a

é o que acontece

às nêsperas

que ficam deitadas

caladas

a esperar

o que acontece."



Mário Henrique-Leiria

Noite e Luar

Na fase hedonistica do amor...

sexta-feira, abril 11, 2008

Já chegou a Primavera?

"Primeiro Amor

É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo.
Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal só porque acaba. Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo.

(...)

Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado.


É como uma criança que põe os dedos dentro de uma tomada eléctrica. É esse o choque, a surpresa «Meu Deus! Como pode ser!» do primeiro amor. Os outros amores poderão ser mais úteis, até mais bonitos, mas são como ligar electrodomésticos à corrente. Este amor mói-nos o juízo como a Moulinex mói café. Aquele amor deixa-nos cozidos por dentro e com suores frios por fora, tal e qual num micro-ondas. Mas o «Zing!» inicial, o tremor perigoso que se nos enfia por baixo das unhas e dá quatro mil voltas ao corpo, naquele micro-segundo de electricidade que nos calhou, só acontece no primeiro amor.


O primeiro beijo é sempre uma confusão. Está tudo a andar à volta e não se consegue parar. A outra pessoa assalta-nos e deixa-nos tontos, isto apesar de ser tão tímida e inepta como nós. E os nomes dos nossos primeiros amores? Os nomes doem. Parecem minúsculos milagres. Cada vez que se pronunciam, rebenta um pequeno terramoto no equador. E as mãos? Quando a mão entra na mão de quem se ama e se sente aquele exagero de volts e de pele, a única resposta sensata é o assassínio, o exílio, o suicídio. Nada fica de fora. O mundo é uma conspiração cinzenta de amores em segunda mão. Nada é puro fora daquelas mãos. O tesouro está a arder, as pessoas estão a morrer, os olhos cheios de luz estão a cegar, mas o primeiro amor é também, e sem dúvida, o primeiro amor do mundo.


O primeiro amor é aquele que não se limita a esgotar a disposição sentimental para os amores seguintes: quer esgotá-la. Depois dele, ou depois dela, os olhos e os braços e os lábios deixam de ter qualquer utilidade ou interesse. As outras pessoas - por muito bonitas e fascinantes que sejam - metem-nos nojo. Só no primeiro amor.


Não há amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, há o equivalente adulto ao primeiro amor - é o primeiro casamento; mas não é igual. O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de poder-mos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltamos. Saltamos e caímos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer três ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na água ou no chão, como patos disparados de um obus, com penas a esvoaçar por toda a parte.


Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que sabem dizer «Alto-e-pára-o-baile», amores que já dão o desconto, amores que já têm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores - o preto-preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco-branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras.


Podem ficar com a ternura dos 40 e com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 - não outro amor como o doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de coração e não conseguir dizer outra coisa com coisa, nem falar, nem pedir para sair, nem sequer confessar: «Adeus Mariana - desta vez é que me vou mesmo suicidar.» Podem ficar (e que remédio têm) com o savoir-faire e os fait-divers e o «quero com vista pró mar se ainda houver». Não há paz de alma, nem soalheira pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi.


Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: Não pensar, não resistir, não duvidar. Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou mais arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida - e não há milagres em segunda mão. É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor, morre-se. Quando se renasce há uma ressaca. É um misto de «Livra! Ainda bem que já acabou!» e de «Mas o que é isto? Para onde é que foi?».


Os outros amores são maiores, são mais verdadeiros, respeitam mais as personalidades, são mais construtivos - são tudo aquilo que se quiser. Mas formam um conjunto entre eles. O segundo e o terceiro e o quarto, por muito diferentes, são mais parecidos. São amores que se conhecem uns aos outros, bebem copos juntos, telefonam-se, combinam ir à Baixa comprar cortinados. O primeiro amor não forma conjunto nenhum. Nem sequer entre os dois amantes - os primeiros, primeiríssimos amantes. Acabam tão separados os dois como o primeiro amor acaba separado dos demais. O amor foi a única coisa que os prendeu e o amor, como toda a gente sabe, não chega para quase nada. É preciso respeito e bláblá, compreensão mútua e muito bláblá, e até uma certa amizade bláblá. Para se fazer uma vida a dois que seja recompensadora e sobretudo bláblá, o amor não chega. Não se vive só dele. Não se come. Não se deixa mobilar. Bláblá e enfim.


Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro e esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último.

Afinal nem é por ser primeiro, nem é por ser amor. A força do primeiro amor vem de queimar - do incêndio incontrolável - todas aquelas ilusões e esperanças, saudades pequenas e sentimentos, que nascem em nós com uma força exagerada e excessiva. Como se queima um campo para crescer plantas nele. Se fôssemos para todos os outros amores com o coração semelhantemente alucinado e confuso, nunca mais seríamos felizes. É essa a tristeza do primeiro amor. Prepara-nos para sermos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas pulsões, tornando-nos mais «inteligentes».


É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é o único? Que lindo seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro.
Miguel Esteves Cardoso - Os Meus Problemas (1988)

quinta-feira, abril 10, 2008

The Best Is Yet To Come

In between Conferências de Imprensa e Fachos Olimpícos

terça-feira, abril 08, 2008

Saudades há muitas seu palerma...

"O coração português vive mal. Toda a gente faz falta... A saudade é geral. É um fenómeno de massas. Toda a gente faz falta a toda a gente. Olhe à sua volta . Há uma probalidade 90 por cento de estar com a pessoa errada. É um genocídio sentimental. Assistimos impassivos, de mala na mão e caneta na boca, ao massacre. Só que não podemos protestar.
Aprendemos desde pequenos que saudades são coisas boas. Vem nos livros. Conhecemos os poemas de cor. Se a alma dói, dizem-nos que é sinal que se tem qualquer coisa no peito com que doer. Se nos lembramos sem nos querermos lembrar de uma mão que não podemos agarrar, a deixar cair um cigarro, dum cais, dum riso, dizem-nos que isso é bom, que é uma prova de amor. É como dizer que deitar sangue da cabeça quando se bate com a cabeça no chão é bom, porque é sinal que se está vivo.
A ausência, estão sempre a ensinar-nos, é quase melhor do que a presença. A saudade embeleza os sentimentos. A memória melhora. As lágrimas lavam a vista. A saudade dói, mas é doce. É o que nos dizem. Balelas!
Podemos protestar, sim senhor! A saudade não é maravilha nenhuma: é apenas sinal de que há alguma coisa que não está bem. Há alguém que não está onde devia estar. O país é errado. A pessoa com quem jantamos é um engano. Saímos à rua e somos rodeados por sobrinhos de outras pessoas. Apanhamos um autocarro cheio de raparigas e nenhuma delas é seguramente a rapariga em que estamos a pensar.

Chove. Anda tudo trocado. Onde estão os meus amigos? E os seus? Passamos a vida a apanhar aviões mentais uns para os outros. Caímos no oceano. Morremos de saudades. Isto não pode estar certo. Se estiver certo, nós não estamos bons da cabeça.
Os Portugueses gerem a saudade como um tesouro. Fazem-na render. Gostarão de sofrer? Claro que gostam. Se estão a penar por saudade de alguém vão buscar fotografias, reler cartas, ouvir discos antigos. Passa-lhes pela cabeça ir ter com essa pessoa? Não. Matar uma saudade é quase um crime. A saudade é uma extravagância. É amor que se gasta sem proveito. "

As Minhas Aventuras da República Portuguesa, Miguel Esteves Cardoso

Bliss - Kissing

Soudtrack da manhã...uma descoberta cheia de sorrisos...

segunda-feira, abril 07, 2008

One More Night

sábado, abril 05, 2008

Your Ex-Lover Is Dead

Fim de tarde elementar

"Apetece-me abrir-te as pernas e lamber-te. Fazer isso durante muito tempo até ouvir a tua voz a perder-se e depois entrar por ti adentro mantendo o ritmo e a distância para te poder ver numa perspectiva de observador imparcial.

Inquietar-te com perguntas violentas fazer-te repetir desejos e segredos, abusar de ti sem remorso nem perdão.
Quero que venhas uma e depois outra vez mais lentamente. Que acabes por chorar baixinho e me peças tudo de novo outra vez.

Esquece-te de mim. Não sou eu. És tu que me vens livrar de mim. Eu por mim repetia já este intervalo elementar fora das garras do tempos.

Começo por aqui. Hei-de ir não sei para onde. Agora do mundo só me interessa esse quente, sombrio e húmido minúsculo pedaço do teu corpo e encher-te de prazer com a minha boca. Não há nada como como isto para me livrar de mim.

Tu que dizes?
Calemo-nos.
- O meu sexo é enorme. O teu pequenino. Belo contraste neste fim de tarde em que tudo sabe a mar profundo e a esquecimento.

- O meu sexo é pequeno. O teu enorme. Engole-me por completo, peço-te, e que não fique nada destas horas em que nos demos.Vem e desfaz-me, querida. Não quero saber de nada. Morde-me a orelha como um furacão. Agarra-te com a tua boca por cima do coração.
Encontra o ponto subtil em que que me fazes vir a ti. Faz-me esquecer de mim, que o meu sexo és tu que o tens em ti."

Pedro Paixão,in "Vida de Adulto"
"You come for the week to love me then you up and leave next day .
So don't walk away then turn and say "I love you anyway.

Before I give you the ring there's one thing you should know: you have 7 seconds before it's too late to go.
So... Don't walk away then turn and say "I love you anyway"
I never ever want to see you 'til our wedding day.

sexta-feira, abril 04, 2008

Classificado

Isn't it perfect today...quando o futuro é apenas uma hipótese?


"Doing The Unstuck"


"it's a perfect day for letting go

for setting fire to bridges

boats

and other dreary worlds you know

let's get happy


!it's a perfect day for making out

to wake up with a smile without a doubt

to burst grin giggle bliss skip

jump and sing and shout

let's get happy!


but it's much to late you say

for doing this now

we should have done it then

well it just goes to show

how wrong you can be

and how you really should know

that it's never too late

to get up and go


it's a perfect day for kiss and swell

for rip-zipping button-popping kiss and well...

there's loads of other stuff can make you yell

let's get happy!

it's a perfect day for doing the unstuck

for dancing like you can't hear the beat

and you don't give a further thought

to things like feet

let's get happy!


but it's much too late you say

for doing this now

we should have done it then

well it just goes to show

how wrong you can be

and how you really should know

that it's never to late

to get up and go


kick out the gloom

kick out the blues

tear out the pages with all the bad news

pull down the mirrors and pull down the walls

tear up the stairs and tear up the floors


oh just burn down the house!

burn down the street!

turn everything red and the beat is complete

with the sound of your world

going up in fire


it's a perfect day to throw back your head

and kiss it all goodbye

it's a perfect day for getting old

forgetting all your worries

life

and everything that makes you cry

let's get happy!

it's a perfect day for dreams come true

for thinking big

and doing anything you want to do

let's get happy!"


quinta-feira, abril 03, 2008

The last lecture of Randy Pausch 1

Uma lição que daria aos meus filhos

As amantes da vida ou o Regresso da Amante

Nota Introdutória: é verdade. Confesso. Ando mesmo muito nostálgica. Principalmente de uma série de coisas boas que faziam parte do nosso quatidiano e que justificavam tantas vezes longos serões á mesa, com um belo vinho e muita cigarrada. Hoje, depois de me terem tirado os vinhos e me obrigarem a abandonar o fumo dos meus cigarrinhos, que tanto prazer me dava, não sei se me continuaria a saber tão bem a leitura desta revista.
Hoje tenho saudades ( sim...estas permitidas e não completamente tontas) da pessoa que me impedem de ser. Daqui a uns tempos, quando não for mais do que uma especialista em verduras e tofus, talvez apenas digam a meu respeito...ela não bebe, não fuma,não fo.......... (ge) ás responsabilidades! Que gira que era no tempo da Kapa.

Roubado de : http://kapa.blogspot.com/


"Estávamos todos sossegados a usufruir os direitos da liberdade sexual quando apareceu a SIDA para pôr termo à nossa condição. Reagimos mal e não ligámos nenhuma. Agora, que nos apercebemos de que o caso é sério e grave, demos a volta ao contrário e recuperamos um hábito ancestral: a amante. Ter uma amante. Que prazer renovado, esse…
"Il y a des femmes qui que leur bon naturel et la sincérité de leur cœur empêchent d'avoir deux amants à la fois. "
Alfred de Musset, La Confession d'un enfant du siècle


O pânico causado pelo aparecimento da SIDA inflacionou os salários dos afortunados investigadores, dignificou o preservativo e fez renascer das cinzas dos promíscuos anos sessenta os prazeres da conjugalidade. Não há nada como o medo para pôr as pessoas no seu lugar.
Contudo, poucos são os matrimónios em que, com o passar dos anos, um ou dois cônjuges não tenham dado pelo menos uma escapadela, vivido um caso, arranjado um caldinho, dado uma voltinha e até - aqui chegamos ao que interessa - tido uma amante à moda clássica. A SIDA terá assustado muitos, mas felizmente ainda há mulheres e homens que não arredam pé dos seus desejos.
Ter uma amante é não só manter o respeito pelos laços matrimoniais como também a maneira de não se deixar a si próprio na prateleira. Dito de outro modo, não é o pecado da infidelidade que predomina, mas a renarcisação, na forma mais completa, que é voltar a começar com alguém o que ainda não se acabou com quem tudo tinha começado.
Só quem não quer perder quem tem é que vive com naturalidade a vida dupla que ter uma amante requer. Conservar quem se ame sem abdicar de poder amar mais.
Sem fazer pouco das juras de fidelidade, acontece que as razões que nos levam a desejar, gostar ou amar alguém além daquela a quem jurámos amor eterno, não são as mesmas que nos levam a mentir ou trair.
Esconder uma relação da outra não é o que dá prazer. É o preço para poder tudo guardar.
Desejar, querer ou amar outra não significa necessariamente deixar de desejar, querer ou amar a nossa. Esta espécie de «quero tudo» (difícil de explicar e de ser compreendido pelas mulheres) é que provoca a perversão do engano. Infelizmente, para nós parece que não tem solução.
Há sempre alguém que nos pede uma mentira para a sua felicidade e a nossa culpabilidade.
Esconder um caso ou o facto de ter dado uma voltinha não é tarefa particularmente difícil. Só é preciso ser rápido na sedução e não se deixar afeiçoar ao novo conhecimento. Qualquer libertino sabe isso.
Manter uma relação paralela é uma coisa completamente distinta. São necessárias algumas qualidades (ou defeitos, depende do ponto de vista), além de um sentido de responsabilidade particular.
Não achamos, como muita gente acha, que a qualidade principal seja a capacidade de mentir. Ter sinceramente duas mulheres que amamos e dividirmo-nos com dedicação não é coisa que se faça com base na mentira, é necessário carinho, dedicação e muitíssima atenção. Ser capaz de mentir só é útil nos casos, cada vez menos frequentes, em que ninguém sabe nada de nada. Aliás, sempre foram poucas as situações em que ninguém sabe nada de nada. Difícil em Portugal, impossível em Lisboa ou Porto, impensável em Braga ou Cascais.
É possível que a mulher legítima - por interesses pessoais, compreensão ou simplesmente amor - aceite a situação triangular sem levantar a perdiz e que apenas peça discrição. Mas é raro.
O lado maçador da infidelidade é a importância que a enganada (deixemos pelo momento a tradicional pouca capacidade de encaixe masculina, e continuemos a falar de um só ponto de vista) pode dar a esse facto.
Mas aqui tocamos o centro do problema.
Poder-se-á amar duas mulheres simultaneamente ou, mesmo sem querer, estaremos a ser uns grandes filhos das nossas santas mãezinhas?
Isto é um falso problema, quando pelo menos uma sabe a verdade. Normalmente estamos obrigados a contar a verdade à mulher que menos amamos ou que chega em último lugar.
Diga-se de passagem que nunca se conta toda a verdade a ninguém. (Este conselho vale mais que os 400 escudos que pagaram pela revista). Às vezes, nem a nós próprios. Raros são os casos onde a cumplicidade marital não é abalada por um ataque de sinceridade estupidamente confiante.
Se não dizemos a nenhuma das duas a pouca verdade contável, muito provavelmente estamos um pouco apaixonados e muito indecisos. Também existe, dentro desta alternativa, a variante de ser um grandessíssimo sacana, mas isso é mais natural em relacionamentos do tipo «escapadelas» ou «dar voltinhas». Raras vezes isso acontece dentro do sério vínculo que se estabelece com uma amante.
Se contamos alguma coisinha à nossa legítima, por mais inofensiva que possa parecer, estamos claramente a pedir-lhe por linhas tortas uma grande barraca direita.
Se informamos as duas da situação, é porque queremos que elas escolham. Prova irrefutável de cobardia ou de se querer ver livre das duas.
Ficou claro, portanto, que o controlo da informação defende o verdadeiro objectivo. Ou seja: um esquecimento, um bufo, ou um estúpido podem estragar coisas que tinham dimensões inofensivas ou, pior ainda, fazer com que alguém fique magoado. Mas esse é o pesadelo típico dos homens que tentam ter o que não lhes deixam que tenham.
Temos a certeza que uma mulher nunca poderá compreender a psicologia sexual masculina. Aliás, é sabido que o homem também não percebe lá muito bem a da mulher. Mas sabemos que a uma mulher apaixonada não lhe interessa especialmente envolver-se com um outro homem. E sabemos que curiosamente um homem pode, apesar de apaixonado, ter um desejo doido por uma segunda, terceira, quarta, etc., sem pôr em causa o amor pela primeira. Se por algum azar há uma mulher horrorizada com este conceito, pedimos desculpa, mas as coisas são como são. Voltemos ao tema.
As amantes, graças a Deus, voltaram a ser uma alternativa. Terminaram as orgias, a promiscuidade do engate indiscriminado. Agora podemos amar a nossa mulher e ter outro amor. Não maior, que isso é difícil - mas talvez, com um pouco de sorte, não muito menor.
Caro leitor, sabemos que se pergunta: «E uma vida desse tipo é coisa para quanto mais ou menos?". Caro amigo, há uma variedade quase ilimitada de modalidades. Se o seu sonho é «protegê-la» totalmente, é claro que isso lhe pode custar caro. Mas também existe o estilo independente, semi-dependente, antes pelo contrário, etc.
É evidente que o desafogo financeiro ajuda muito. Mas o que é que não se pode fazer quando se tem cacau? Algumas coisas, claro, mas nada que seja grave se se tiver um pouco de saúde e imaginação.
O que de facto acontece é que as amantes existem novamente e em força, seja qual for a classe social. Aliás, dentro das classes mais conservadoras, a alta e a baixa, nunca deixaram de existir. Só a classe média perde o prazer do clássico na sua procura de parecer alta ou ao tentar snobar as baixas. Sem esquecer o facto de que uma grande forretice abortará com certeza mais de uma potencial história de amor. Ficam na alegria efémera e auto-suficiente da escapadela ou da voltinha. Dificilmente encontraremos neles a intuição da amante, a vida paralela democraticamente partilhada, responsavelmente devota e regularmente erótica.
Aceitamos que o ponto fraco deste raciocínio é o que acontece se for ao contrário. Por exemplo: ela, a nossa, tem um amante mas continua a amar-nos apaixonadamente. Ele, o outro, é um bom amigo dela, um companheiro desinteressado e bem intencionado. Que é que se faz? Tentar perceber a relação? Ver se essa situação nos favorece? Pedir um certificado médico ao novo? '
Não. Eu mato-o e a ela dou-lhe uma sova que nunca mais se irá esquecer na vida. Estão a brincar comigo ou quê? Foda-se!
A AMANTE NA INFÂNCIA
(Dos 0 aos 10 anos)
É A MELHOR amante, a mais segura, a menos comprometida e exigente, e anima qualquer família moderna. Acima de tudo, porque ninguém acredita que uma criança com 6 anos tenha já a sua namorada de pleno direito e uma amante com quem brinca aos pais e às mães.
No entanto, sabe-se - e em alguns países, nomeadamente nos EUA, há estudos sobre a matéria - que é entre os O e os 10 anos que o conceito de «segunda mulher» se adquire se interioriza. Nessa altura, a criança não tem necessidade de mentir, uma vez que a legítima não percebe o que se passa e «a outra» ainda menos. Ele, o pequeno macho, aproveita a confusão e diverte-se.
LOCAIS DE ENCONTRO: Creches, autocarros do colégio, pátio da escola, festas de anos dos amigos.
O QUE FAZEM: Brincam.
POSSIBILIDADE DE DAR BRONCA (0/10): 1
A AMANTE COM BORBULHAS
(Dos 10 aos 20 anos)
ESTA é a fase crítica: em princípio, são dez anos de fidelidade canina e total ausência de imaginação (atenção, referimo-nos aos homens. Quanto a elas, esta fase etária é das mais perigosas...). Os problemas do jovem - seja a borbulha, a fase, dos poemas e diários, ou a mania do desporto - impedem-no de se dedicar a mais do que uma namorada de cada vez. Geralmente, a partir dos 15 anos começam a conversar, nos cafés e no Loucuras, sobre a matéria, mas sem consequências. É só garganta.
Têm-se verificado casos raros de contra-indicações, normalmente associadas ao uso concomitante de drogas, baldas às aulas e interesses de carácter menos ortodoxo (do ponto de vista sexual, claro).
LOCAIS DE ENCONTRO: Pátios dos Liceus, PGA, Zona Mais, Sudoeste, Indústria (Braga).
O QUE FAZEM: Nada. Dançam e bebem.
PROBABILIDADE DE DAR BRONCA (0/10): 9. Dá sempre. Causa directa: inexperiência.
O PRINCÍPIO DA AMANTE
(Dos 20 aos 30 anos)
ATÉ aos 30 anos, ter uma amante é não só uma excepção como uma grande aventura, rodeada de todos os perigos. É como fugir de casa aos 15 anos, tem o sabor de um fruto proibido (esta podia vir na Grande Reportagem…), e por isso mesmo tem um valor, numa escala de zero a dez, praticamente dez. A amante antes dos 30 é aquela com quem, na maioria dos casos, se chega à cama só no momento em que já se viu que está a acabar a história - ou, nos casos mais precoces, quando se descobre a tempo e horas que o primeiro casamento não é, geralmente, o último.
O resultado, na maioria dos casos estudados, é trágico: uma vez confundidos os cérebros e os corações com a chegada da nova aquisição, diz-se à legítima o que se devia dizer à amante e vice-versa, trocam-se os nomes nos mais românticos jantares e chega-se mesmo ao ponto de convidar a amante a ser amiga da amada. Catástrofe à vista.
LOCAIS DE ENCONTRO: Plateau, Kremlin, Swing, emprego de um ou de outro, bares indiscretos (Lisboa: Frágil, 3 Pastorinhos, Targus, enfim, os melhores).
O QUE FAZEM: bebem sem moderação. Pontualmente têm-se registado casos de sexo. É frequente discutirem toda a noite.
PROBABILIDADE DE DAR BRONCA (0/10): 8.
A AMANTE ADULTA
(Dos 30 aos 40)
Aqui é que a coisa começa a dar certa: crescidos, já com um ou dois casamentos em cima, os homens aperfeiçoam uma técnica perfeita de acompanhamento de amantes e amadas. O processo mais escrupuloso - e aquele que aconselhamos - é esclarecer de imediato tudo com a amante: explicar que somos casados, que gostamos da nossa mulher, que não desejamos deixá-la, mas que temos um coração do tamanho do Empire State Building, onde cabem mais moças interessantes e bonitas. Se ela quer, óptimo. Se não quer, há mais quem queira.
Nesta idade, ter uma amante já não é uma aventura mas um dos primeiros sinais de maturidade, imediatamente a seguir à barriga (nessa altura ainda chamada de barriguinha), ao automóvel de cilindrada superior a 1400 C.C., e ao cartão de crédito cheio de contas de restaurante.
LOCAIS DE ENCONTRO: dentro do carro, hotéis discretos, bares que abrem muito cedo (por exemplo, O Pavilhão Chinês).
O QUE FAZEM: almoçam e jantam, sexo.
PROBABILIDADE DE DAR BRONCA (0/10): 4.
A AMANTE MADURA
(Dos 40 aos 50)
É a idade de ouro da amante 'agora recuperada para a moda sexual do universo pós-SIDA. Momento de profissionalismo de fino recorte, a amante depois dos 40 tem a serenidade e a maturidade que falta às restantes faixas etárias. É geralmente uma mulher feliz com a sua vida dupla, que cultiva com prazer as virtudes do seu segundo homem. Ele, pelo seu lado, tem na amante a última prova de uma virilidade que a barriga, já proeminente, põe em causa. É o casal feliz. Ninguém tem já paciência, nesta idade, para chatear o outro.
No fundo, os amantes desta era são bons amigos que se entendem para lá do relacionamento profissional ou, muitas vezes, de amizade entre casais. A amante perfeita chega aos 40, não tenham dúvidas.
LOCAIS DE ENCONTRO: em todo o lado.
O QUE FAZEM: o que têm a fazer.
PROBABILIDADE DE DAR BROCNA (0/10): O.
AMANTE ATÉ À MORTE
(Dos 50 para a frente)
São mais frequentes os deslizes, as faltas de memória, a factura do hotel que vai no bolso da camisa para casa e a legítima amada descobre. Mesmo assim, é uma idade de bronze dos amantes: sem a preocupação fundamental do sexo, esta fase permite--nos recuperar o gosto pela conversa, pelo presente de charme, até pela surpresa de uma virilidade masculina que tem o seu encanto.
Depois dos 50, ter uma amante é como ter um carro de corrida: convém pôr o motor a trabalhar de vez em quando, é preciso cuidar deste valor, mas pelo prazer de o manter, jamais pela vontade de acelerar. Esta é a idade do luxo e do prazer, na vida como no sexo.
LOCAIS DE ENCONTRO: Restaurantes de luxo, bares de hotel.
O QUE FAZEM: recordam, conversam e surpreendem--se mutuamente.
PROBABILIDADE DE DAR BRONCA: (0/10): 3 (às vezes, a memória falha...)."


in K, nº17, Fevereiro de 1992

Funeral Blues




By W.H. Auden




"Stop all the clocks, cut off the telephone,


Prevent the dog from barking with a juicy bone,


Silence the pianos and with muffled drum


Bring out the coffin, let the mourners come.~




Let aeroplanes circle moaning overhead


Scribbling on the sky the message He is Dead.


Put crepe bows round the white necks of the public doves,


Let the traffic policemen wear black cotton gloves.




He was my North, my South, my East and West,


My working week and my Sunday rest,


My noon, my midnight, my talk, my song;


I thought that love would last forever: I was wrong.




The stars are not wanted now; put out every one,


Pack up the moon and dismantle the sun,


Pour away the ocean and sweep up the woods;


For nothing now can ever come to any good"

Reflexo no Espelho convexo

“ Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma;
mas que não deixa,por isso, de deixar alguns sinais
- um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos.
Como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto.
São estas as formas do amor, podia dizer-te;
e acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém,é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa, e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,quando a tua voz me chama de dentro de mim - e me faz responder-te uma coisa simples,como dizer que a tua ausência me dói."

Nuno Júdice

quarta-feira, abril 02, 2008

Contribuição do 1º Bloguista convidado

"Pour Inês


Quero sentir-te!
Na mudez da noite,em silêncio de faca,num beijo de lâmina.
Quero ter-te!
Navegar no teu corpo,sem bússola,sem sextante,sem astrolábio,sem quadrante,sem balestilha.Na loucura do cio,com vontade rapace,o teu corpo é um dédalo,que só eu conheço,em que nunca me perco e onde sempre me encontro.
Fundo-me em ti no sorriso da noite,esquadrinhando cada milimetro do teu corpo com o G.P.S. da paixão.
Sussurro-te incontidas vezes o que a minha alma grita,incessante e desesperadamente,o meu amor torrencial,imenso e imorredouro.
Abraço-te como um naufrago agarra a vida,acaricio-te com a terna blandicia do meu profundo amor.Mergulho na tua divina cratera,para sentir o teu magma,contagio os meus ferventes sentidos com o telúrico pulsar,imparavelmente meigo,do teu vulcão.
Sinto a tua seiva,agarro-te com volúpia,com a intensidade do furacão lambendo a árvore.
Acaricio-te!Mimo-te!Beijo-te!Abraço-te!Agarro-te!Fecundo-te!
Gloso cada sentimento que por ti sinto,evoco todos os momentos que vivemos,prometo a eternidade dos afectos,declino adjectivos,pronuncio substantivos sobre a tua extraordinaria beleza,enuncio a vontade infinita de te ter,juro eternidades para o
nosso amor.
Adormeces.Extasio-me contigo.Adormeço dentro de ti.Sonho contigo.estás dentro de mim para sempre.
Amo-te até ao fim dos dias,até ao fim do mundo."

SUPERPODERES

sexta-feira, março 28, 2008

195.23.23.187


Preludio de Sexta


Eu sei que disse que sim mas, lamento...não tenho tempo para sofrer!

quinta-feira, março 27, 2008

No one ever expects the Spanish Inquisition...

Conversa da minha filhota de 5 anos para evitar ter que ir para a cama, passada em frente do computador, enquanto me ria no MSN com um amigo.

- Mãe...com quem estás a falar?
- Com um amigo.
- E como se chama o amigo?
- Chama-se X.
- E quantos anos tem?
- Tem Y.
- E porque te ris tanto sozinha?
- Porque o meu amigo está a dizer umas patetices...
- Mas ele é tolo?
- Não. É Divertido.
- E ele não tem nada melhor para fazer?

....calei-me. Pensei um pouco e respondi.
- Não. Acho que não!
- AHHHHHH. Então é porque não presta...deve ser mesmo feio!

Ainda estou para descobrir de quem herdou esta criança as capacidades dedutivas e o seu lado pragmático!!!!

Pastora

Yo tambien...

quarta-feira, março 26, 2008

cuecas, pelos e putos estragados

Há dias em que a nossa boca tem vontade própria. Na maior parte do tempo lá a vamos conseguindo controlar, mas se ao de leve alguém se chega demasiado ou tem o azar de pronunciar alguma ideia que me incomóda, está o caldo entornado, porque da bela boquinha sossegada podem saltar chizpas de fogo. Foi o que se passou hoje e os pobres destinos da minha loucura contida foram dois jovens adolescentes que, neste momento devem estar a ponderar nunca se envolverem com uma Balzaquiana sem antes ultrapassarem as considerações que os tornaram um alvo tão apetecível para o meu mau feitio.
Pois bem...lá estavam os putos, na esplanada do café sentados a beber uma cervejola traquila, quando começam a comentar a noite da próxima sexta-feira, quando um deles iria "finalmente" levar a água ao seu moinho, com a miúda com quem anda a curtir. O amigo levado na desenfreada fantasia da dita noite, pergunta:

- Então e já a viste nua?
- Não...mas já a vi de roupa interior. Na semana passada quando nos enrolamos em casa da Rita.
- E que tal...boazuda?
- Não está mal, mas é bom que na sexta já esteja depiladinha. Até me passei com os pelos. Acho horrivel uma mulher não ter sempre a depilação feita. Parece um macaquinho. Deviam estar sempre arranjadas. Nunca se sabe quando a sorte toca!E eu gosto delas lisinhas.

Não pude deixar de ouvir a conversa e não me contive. Perguntei:

- Algum de vocês já se depilou alguma vez?

Atónitos olharam para mim e meio envergonhados disseram:

- Não se passe. Isso é para os Gays.

Resultado...lá acabei por lhes explicar que estar sempre, permanentemente depilada, é algo que é dificil, doí ou fica caro. E há coisas bem mais giras do que estar constantemente a pensar no pelo.
Além disso, não esperem que um dia quando tiverem uma relação a sério ela esteja sempre perfeitinha, bonitinha, cheirosinha. Para isso arranjem uma insuflável.

A verdade é que me irrita profundamente essa mania que os homens tem de nos querer sempre perfeitas, mas de nunca pensar nas coisas que neles nos irritam, sem que tenham o cuidado de as mudar, ou controlar e esperando que nós, como boas samaritanas e meninas mais ligadas ao afecto, as coloquemos de lado. Pois bem, enganam-se!

-Nós também não gostamos dos vossos monte de pelos, que, por vezes nos faz parecer que dormimos com um urso de peluche. Faz cocégas, por vezes não cheira bem e em dia de calor fica empestado. Na parte que me toca, e ainda que os prefira com um pouco de penugem, admito que só muito amor nos faz aceitar isso como algo....quasi, quasi, quasi sexy...mas pouco!

- Adoram que usemos roupa interior sexy, lavadinha, cheia de rendas, justinha e que nos faça parecer uma louca na cama. Mas, nós, temos que levar com a cuequinha de gola alta, anti-tusica e na pior das hipótese escolhida pela mãezinha. Graças a Deus e à Intimissimi já vão aparecendo alguns com bom gosto.Também não gostamos de vos ver nús, de meia preta, a mostrar o dedão do pé. Não há amor que resista a essa imagem.

Pois é amigos...nós, fazemos menos barulho, mas comemos muito mais com os olhos!
"Uma Rapariga começa a ter uma vida difícil muito cedo. Sobretudo quando tudo dura pouco tempo. Sem protecção do pai, dos anjos ou de Deus, ninguém sabe o que se pode, não se pode nada. Por isso com a alma aflita, uma rapariga procura sentimentos recíprocos em muitos sítios onde não devia, em que já sabe que não vai encontrar nada de jeito, porque os vícios colam-se às pessoas quaisquer que elas sejam, más ou boas. E depois é tarde e uma rapariga é um ser volátil que se queima.(...)
Isso faz sofrer muito. E nem todas as maneiras são boas para esquecer o que faz sofrer. Por isso ria muito e saía muito e deitava-se muito tarde. Às vezes quase com quem calhava, porque também não importava muito. Mas quase sempre sozinha com um urso de peluche.
É horrível saber que se pode ter este rapaz e aquele e todos este senhores tão ricos e bem vestidos e perfumados e não haver nada que se queira fazer com eles a não ser matar o tempo.
(...)Quando ainda se acredita que no mundo há coisas preciosas, cada vez mais preciosas porque cada vez mais raras e difíceis de encontrar quanto mais de viver.
(....)Eu dizia-lhe que gostava muito dela. Ela dizia que me adorava. Nenhum de nós acreditava. Queríamos muito acreditar e não conseguíamos. Fazia doer."


"Desejei-te ontem, de mais, e hoje também. Todos os dias são o mesmo dia quando te desejo assim. Só penso em ti. És inigualável. De olhos fechados consigo encontrar-te noutros corpos, mas só o teu amo de olhos abertos. Amo-te de mais. Dormi agarrada à camisola de que te esqueceste. Ela ainda tem o teu cheiro. Vou guardá-la numa caixa para continuar perfumada. Não te a darei de volta. Não peço o teu amor. De ti não exijo nada. Mas nunca me digas que o amor é impossível. Tu fazes-me viver, sonhar, acordar com pesadelos. Tu és o meu diamante solítário e entre nós não há qualquer contrato.
Quando te escrevo tu não foges das minhas páginas. Quando te escrevo tu ressuscitas a minha alma. Acompanho o teu sorriso de longe e de perto(...). Guardo comigo o teu olhar e sei que te recordas do meu corpo a tentar convencer-te que o meu amor é inteiro, embora nunca o seja o bastante.
É bom desconfiar do amor porque ele às vezes é traiçoeiro, metamorfoseia-se em reles sentimentos, eras tu que mo dizias. Eu não concordo."

Pedro Paixão

domingo, março 23, 2008

verso em branco à espera de futuro

"No teu poema
existe um verso em branco e sem medida,
um corpo que respira,
um céu aberto,
janela debruçada para a vida.
No teu poema existe a dor calada lá no fundo,
o passo da coragem em casa escura
e, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite,
o riso e a voz refeita à luz do dia,
a festa da Senhora da Agonia
e o cansaço
do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco,
a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe o grito e o eco da metralha,
dor que sei de cor mas não recito
e os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
existe um canto
chão alentejano,
a rua e o pregão de uma varina
e um barco assoprado a todo o pano.
Existe um rio
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco,
a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe a esperança acesa atrás do muro,
existe tudo o mais que ainda escapa
e um verso em branco à espera de futuro."

José Luis Tinoco

*obrigada pelo teu "canto chão Alentejano"

Adeus (as palavras estão gastas)

Já gastámos as palavras pela rua,
meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes

E eu acreditava.
Acreditava.
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É
pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus."


Eugénio de Andrade

Caderno de encargos...

“A human being should be able to change a diaper, plan an invasion, butcher a hog, conn a ship, design a building, write a sonnet, balance accounts, build a wall, set a bone, comfort the dying, take orders, give orders, cooperate, act alone, solve equations, analyze a new problem, pitch manure, program a computer, cook a tasty meal, fight efficiently, die gallantly. Specialization is for insects.”

Jonh Steinbeck

* apenas para quem cumpra todos os requisitos

Sem prazo de entrega...

"Soneto de amor

Não me peças palavras,nem baladas,
Nem expressões, nem alma...~
Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce! "

José Régio

sexta-feira, março 21, 2008

Quando o amor morrer dentro de ti

"Quando o amor morrer dentro de ti,
caminha para o alto onde haja espaço,
e com o silêncio outrora pressentido
molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
e neles ateia o fogo adormecido
que uma vez,
sonho de amor,
teu peito ferido
espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
e o nocturno calor que se debruça
sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
que mil saudosas lágrimas velaram;
desfralda na tua alma o inventário
do templo onde a vida ora de bruços
a Deus e aos sonhos que gelaram.

(Ruy Cinatti 1915 - 1986, in "Poemas de Amor - antologia de poesia portuguesa", Inês Pedrosa)

A culpa é uma moça

" (...) fazia amor com ele com uma sinceridade que até então desconhecia. Chegava a premiá-lo com a desenvoltura aprendida no corpo de Dinis.
A um olhar masculino, pode ser que estas transposições pareçam insuportáveis da promiscuidade. É que os homens têm geralmente do acto sexual uma ideia estanque, factual, cheia de alíneas, como uma cerimónia de consagração. Ora as mulheres tendem a ver no exercício físico do amor uma das muitas encarnações possíveis da generosidade, que nelas faz as vezes da entrega. Isso habilita-as a distribuir as mesmas palavras de amor e os mesmos gestos a homens diferentes, sem escândalo íntimo nem confusão alguma; o vocabulário do amor é curto para a disponibilidade que as anima. É nas minúncias da pele que as diferenças e as vertigens se lhes cavam; na realidade, é até provável que sejam mais pródigas em juras e carinhos para com o menos amado. Porque a culpa é feminina (...)."


INÊS PEDROSA

quinta-feira, março 20, 2008


Páscoa Feliz!


Risos Patetas

Dúvida colocada no site das Finanças:

"Sou sócio do Benfica e estou a fazer a minha declaração de IRS. Como pago a quota de sócio todos os meses, devo colocar o Benfica como meu dependente? "

Resposta das Finanças:

"Claro que não. Só pode colocar dependentes na Declaração de IRS quem ganhou alguma coisa em 2007. No seu caso, uma simples Declaração de Isento é o suficiente.

quarta-feira, março 19, 2008

By the end of the day...




Custa sempre perder um amigo, seja na sequência das nossas acções ou de reacções a atitudes terceiras. Há qualquer coisa de inconsolável, no acto de vermos aquela pessoa virar as costas e seguir outro caminho que já não acompanharemos.


Quando um amigo morre subitamente e depois de ultrapassado o choque de aceitar os maus figados do destino, sentimo-nos acalentados na ideia de que enquanto ele partilhou o nosso quotidiano, aproveitamos ambos de todo o carinho, a responsabilidade, a alegria, a partilha que o facto de gostarmos um do outro encerra. Pode já não estar entre nós, mas fica sempre presente nas memórias que partilhamos entre outros amigos, nas fotografias, nas frases que passam em flashback com os sorrisos dele.


Perder alguém por desistência não tem nobreza, melancolia ou tempo que console. Desistir de alguém em prol do nosso bem estar, pode ser uma atitude sensata e adulta, mas não é um gesto que acalme o espírito. Mais do que a dor da opção tomada, o que mais marca é a raiva da desilusão. Quando genuinamente gostamos de alguém que guardavamos acima de qualquer mácula e essa pessoa se revela em atitudes tristes, desrespeitosas, cínicas e até cruéis, há uma parte de nós que secumbe de peito aberto ao golpe da espada. Porque não esperavamos, porque não se quer acreditar, porque nunca na vida seriamos assim enganados!

Procuramos justificações, discutimos para nós razões, negamos até á ultima que possa ser verdade, até que exaustos da espera da comprensão ou do esclarecimento apaziaguador, que tentamos encontrar a custo, nos vemos obrigados a aceitar.
É por isso que se perdoa tudo a um amor: a traição, o crime, os maus tratos, a solidão mas é tão dificil esquecer quando se joga fora uma amizade.

Pai


Hoje é dia do pai e por alguma razão triste não tenho que dizer. Não reconheço as palavras que sinto atropelar-me, porque não me reconheço em ti. Sou tua filha, eu sei. A natureza não nos deixa negar.
Sei que brevemente irás partir e eu não chegarei nunca a dizer o quanto gosto de ti e o quanto te admiro, perdida na absoluta incapacidade de um abraço.
Mas hoje, avô, desejo-te um feliz dia do Pai, com um abraço apertado, ainda que virtual mas que condensa todo o amor que tenho mas não consigo mostrar.
Gosto muito de ti pai!

terça-feira, março 18, 2008

Xafarix ás quintas ou os psicadélicos dos 30

Sexo Oral


"Primeiro a tua língua molha o meu coração, num vagar de fera.
Estendo aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre os copos que desaparecem.
Não há mais ninguém no bar cheio de gente.
Abres-me agora os pulmões, um para cada lado, e sopras.
Respiras-me.
O laser das tuas palavras rasga-me o lobo frontal do cérebro.
A tua boca abre-se e fecha-se, fecha-se e abre-se, avançando por dentro da minha cabeça.
As minhas cidades ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo preso das nossas retinas.
O empregado do bar retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrina, ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro, abrindo e fechando as pernas das palavras, estremecendo no suor dos olhos abraçados,
fazendo sexo com a lava incandescente dessa revolução imprevista a que damos o nome de amor."


Inês Pedrosa

Tears Dry on Their Own

"El único amigo que nunca miente es el silencio. "

Jorge Martinez

Ar(dor) do meu amor


“Desvairada, ternamente desvairada no corropio de mim. De mãos que sobem á sucapa pelos caminhos a nú da noite.
Gomos que mastigas no beijo, que se consente,
Repete, repele
Agarra.
Mordo-te a nuca e escalo-te a pele que geme, que soluça que marca a sombra do que não há.
Repito o teu nome, uma e outra vez e tu soluças, e choras em arco-iris.
Quero-te minha
Morta de tudo que não seja eu.
A parede branca e fria
Escorre a humidade de nós,
Grito-te,
Enlaço-te,
Abraço-me a ti,
Mas tu não devolves...

Mordo-te a boca e entrego-me no silêncio da ausência de respiração,
Contenho-te,
Embalo-te,
Como-te sofregamente.

Tu aceitas,
Tu olhas e não falas.
Chamo-te, insulto-te,
Rebento-me em ti
E tu calas.
Choro
Tu sorris.
Aconchego-te.
Embalo-te.

Tu deitas-me.
Tu tapas-me.
Tu beijas-me.
Tu partes.

Vejo-te o corpo nú trémulo
Ás marcas de mim em ti,
O teu ventre cheio,
As costas que não voltas,
Para não voltares em mim.
Tu não és
Tu és Outono quente e doce e morno
Eu sou verão temporal
Tu és verde relva macia e fresca
Eu sou areia áspera e morta,
Tu és dele.
Eu sou teu."

Dou a mão à palmatória...mas não batas muito.

"É meu!


"De entre todos os sentimentos que existem, o pior de todos é – e peço já desculpa aos outros – o sentimento de posse.
As pessoas gostam de ter, de dizer que é meu e de preferência pagarem a pronto. Portugal não gosta de alugar. Se tiver dinheiro, o português compra, mesmo que para isso tenha que fazer mais um esforço para pagar um empréstimo a 30 anos e no fim dizer que: "É meu!".
Recebe-se alguém em casa, vai-se mostrando as divisões e a primeira pergunta que nos fazem é: "Mas isto é teu?" E com a tristeza de um pescador que vem do mar sem nada na rede, encolhemos os ombros e dizemos: "Antes fosse, mas não. É alugada!".

Os portugueses gostam de dizer "É meu!" e quem alugar ou comprar a leasing - um carro por exemplo - é olhado com desconfiança e até, deixem cá ver, menosprezo.
A vizinha do lado comenta com a outra no parapeito da varanda:
"Já viu o carro novo do vizinho da frente que chegou esta semana? e mesmo que não o saiba, esta, de forma viperina vai dizendo: "Pois, pois, deve ter sido comprado a leasing. E assim também eu!" Como se a leasing fosse batota.
De resto, ao mínimo sinal de rápida ascensão financeira, é incontornável que o empresário que teve sorte com o negócio que criou e que à custa disso já comprou uma vivenda e mudou de carro duas vezes este ano, está - pois com certeza! - "Está mas é metido na droga!". A casa dele tem piscina! - Isso é droga! – Comprou agora um barco! – Droga é o que é! – Foi de férias com a família para os Alpes! – Não tenha dúvidas que é droga!

Por isso, se isto neste plano é assim, imaginem quando o sentimento de posse se alastra ao foro sentimental. É pior ainda. Com uma vantagem. Se rapidamente conquistarmos alguém ou dermos mostras de que temos cada vez mais casos bem-sucedidos "aquele ali anda sempre com mulheres bonitas!" serão poucos aqueles que dirão, que "andamos metidos na droga". E isso é bom. Se bem que para mim, se eu andasse metido com a Charlize Theron, bem que me podiam chamar o " Pablo Escobar de Campolide" que eu não me importaria. Mas adiante.

O sentimento de posse manifesta-se quando acabamos uma relação – reparem que fomos até nós que o fizemos – e passado uns tempos, quando a vemos com outro, não sei porquê, mas ficamos com um formigueiro nos pés que deus me livre. Na verdade, aqui entre nós – e agora baixe o jornal que esse senhor do lado está a ler isto – o que nos agradaria, era ver aquela palerma que nós deixámos – nós, ouviram bem? - aos rebolões pela rua, moribunda, chorando pelos cantos a clamar o nosso regresso. E o que é que acontece? Exactamente o contrário. Está tão melhor do que nunca que até parece que lhe demos saúde. E demos.
E assim, quando alguém nos diz :" olha, ontem encontrei a tua ex-namorada ás compras no chiado?, à nossa imediata pergunta de " Como é que ela está?" nada melhor do que nos responderem:" Tão diferente que não imaginas. Mais gordita, mal tratada, uma sombra daquilo que era no teu tempo! E por mais que nos custe reconhecer – e custa - ficamos contentes ao ouvir isto como se disséssemos "Safei-me de um bom estafermo!".

O sentimento de posse é isto. É mau. Mete vergonha. Devia ser banido, mas existe. Mas ao contrário do que acontecia até aqui – e isto é pior ainda - poucos são aqueles que ao saberem-no, dizem : "É meu!"


Fernando Alvim

segunda-feira, março 17, 2008

Metáforas

"No passado, escrevi um poema que começava assim: "sinto a lamina do teu ciúme no meu peito" - era uma metáfora, claro.E nao suspeitei. Agora, que me espetaste a faca de descascar batatas entre as costelas, único desfecho lógico para o nosso amor; agora, que sinto mesmo a lamina e o sangue morno a alastrar-me na camisa, sei, finalmente e tarde demais, a fraca expressividade das metáforas.Por isso, se ainda gostares um bocado de mim, pede para, na segunda edição, alterarem o verso para: "sinto o teu ciume como uma lamina no meu peito". "

Jose Luis Peixoto

P.S. Quero um velório assim...


Quando se junta um irlandês impetuoso, apaixonado, terno e imprevisivél com uma míuda meia perdida, vulnerável, trapalhona, desastrada e inconstante, e se adiciona a um amor que parece perfeito, uma morte por si só cortante,encontramos os ingredientes para uma história de amor no mínimo divertida e contagiante.

P.S. I love you, não é um filme para se assistir como programa de um date. Se, como eu tem lágrima solta, e não consegue conter o seu impêto romântico e as toneladas de suspiros que incomodam quase tanto como os baldes de pipocas vizinhos, sugiro que guarde este filme para assistir no recato do lar, munida de inúmeros Kleenex, baldes de gelados (se for essa a sua panca), e um edredon de penas.
Caso não siga a minha sugestão e resolva levar companhia até á sala de cinema mais perto de si, assegure-se que leva uma amiga de peito, ou de outro modo poder ter que lidar com um amigo meio baralhado sem saber o que fazer e que passará parte da noite a indagar-se sobre qual foi a parte que ele não percebeu, ou a tentar intuir que raio achamos nós tão comovente.
A verdade é que este filme é giro. Giro sim. Vai da comoção á gargalhada brutal num ápice de segundo e mesmo os momentos tristes são carregados de um humor negro, que a vida encerra em si e que não raras vezes nos faz rir, quando o assunto não é connosco.
Confesso que não consegui reter um sorriso maldoso, quando a meio do filme me lembrei das circunstâncias da morte, do pai de uma ex-fantasma do homem que eu amava, engasgado com um bocado de bife. É cruel, eu sei, mas há momentos em que somos capazes de piores coisas.
PS – I Love you é um filme sobre o luto,ou aquilo que seria, a meu ver, o luto ideal. Nada nos prepara para a perda de quem se ama, seja um marido, uma mãe, um filho, um amigo. Seja à custa da morte, ou da simples despedida circunstâncial. Gerry, assumindo que teria que partir, resolveu fazer uma despedida à sua maneira, passando rasteira ao tempo e à imaterialidade da ausência que leva ao esquecimento e fez-se presente. Nesse percurso tenta preparar a mulher que ama, para viver sem ele, para aceitar a cruel realidade de ter que recomeçar de novo, para lhe mostrar de que forma pode reviver as memórias deles sem que tal seja sinónimo constante de desespero ou infelicidade.

Através de cartas com o Post Scriptum mais perfeito, ele determina passos que Holly deverá seguir, ao jeito dos Jogos de Pista feitos por qualquer escuteiro e com ajuda da mãe de Holly e das suas amigas assegura-se que ela se encontra na sua ausência. (Na minha caracteristica mania de argumentista de trazer por casa, descobri logo a forma de entrega das ditas cartas...risos).

Gostei da ilustração da forma como ela fez gere os primeiros tempos de dor e desepero que a ausência daquele que amamos comporta: uma falta de ar, a sensação de dor obtusa presa ao peito e que o mais pequeno grão de pó de qualquer lembrança rebenta numa enchurrada de loucura e demência que não se compraz com canones comportamentais ou exigências de civilidade. A loucura na dança dela, vestida com a roupa que era dele é uma forma cómica de mostrar como fica um coração partido e até que ponto o amor é mesmo rídiculo.

Para além de Gerry e Holly esta história simples fala-nos também da dificuldade de uma mãe digerir a dor que um filho sente. Da inutilidade dos nossos afectos ou palavras, da raiva que encerra vermos que o nosso filho segue os nossos passos e o único que lhe poderemos garantir é que efectivamente ele vai mesmo ter que sofrer e que na solidão dessa dor ele encontrará a companhia de outros que estão no mesmo barco.

Eu chorei. Comovi-me, revendo-me nas cinzas daquele amor. A verdade é que me ajudou a perceber que o meu luto tinha terminado. Que as memórias estavam arrumadas, que o ponto final colocado permitia um ínicio de parágrafo bem mais bonito e iluminado.

Resumindo: É um belo filme de gaja e eu não me importavava nada de encontrar um Irlandês assim!!! Garanto que não o levava a ver este filme, a menos que seja daqueles que também chora nos filmes e que nos derretem tanto.
Realização: Richard LaGravenese

1st date milestones

"Como é que te chamas?
Começo por pensar que todas as pessoas são iguais. Talvez por comodidade, talvez por segurança, começo por supor que todas as pessoas, na sua infinita variedade de passados, presentes e futuros, são iguais.
É partindo desse pressuposto que digo nós. Não o nós de apenas eu e tu, não o nós de país ou língua, mas o nós meu, teu e deles, de países e línguas, de todos aqueles que não nos estão a ouvir.
E digo: nós temos um mundo no nosso interior.
Digo: é fascinante a história de tudo aquilo que fomos, que passou e que nunca foi esquecido porque nunca foi identificado. Sem que nunca tenha sido arquivado de uma forma consistente, catalogado ou sequer registado, acabamos por chamar caos ou alma a esse mundo.
Na fila do supermercado ou numa esplanada, Junho, acabamos por chamar-lhe pensamento. E mesmo durante o instante em que dizemos essa palavra, pen-sa-men-to, somos assaltados por uma sucessão de frases, sobrepostas às vezes, ou por imagens, ou por melodias, ou por palavras soltas, ou por tudo isto, sobreposto, misturado, em luta ou em harmonia.
Onde é que nos encontrámos antes?
Tiramos fotografias para vermos quando formos mais velhos, para não esquecermos. Nesse mundo que existe por trás dos olhos, é impossível tirar fotografias. É impossível filmá-lo.
As palavras são insuficientes porque variam consoante a voz que as canta. As palavras escritas, a verem-nos desde o papel, são muito diferentes daquelas que, dentro de nós, se desfazem. Às vezes, são como pássaros mortos na palma da mão. Outras vezes, são como a sua sombra. E, no entanto, escrever é falar para esse interior. Coloca uma ponte entre palavras e palavras, irmãos que se encontram. As palavras escritas no papel atravessam a pele e são despejadas directamente, com um ritmo, nesse mundo sem fronteiras que cada um de nós transporta.
São como soldados a saltarem da parte de trás de um camião. Seriam necessárias muitas reticências se conseguíssemos escutar cada pormenor desse interior.
É neste ponto que se coloca o problema da atenção. Temos olhos e, quanto à atenção, acontece o mesmo de quando olhamos para a distância e, a partir de certa altura, os contornos fogem dos objectos. Nesse nosso mundo/caos/alma, suponho que exista também uma distância: imagens que passam lá muito longe, por trás destas que passam logo aqui, palavras que passam onde apenas conseguimos ver vultos.
Gosto da cor dos teus olhos.
Mergulhar no pensamento pode ser como mergulhar em contos infantis, podemos ser uma espécie de Alice deslumbrada. Podemos também encontrar masmorras e prisões perpétuas. Depende daquilo que procurarmos. Mais incrível do que não termos sempre esta consciência de nós próprios é o tão pouco que temos esta mesma consciência em relação aos outros.
Está uma mulher sentada à nossa frente no autocarro, está o nosso pai, estás tu, e não somos sempre capazes de imaginar que, depois do rosto, ou sobre o rosto, invisível, está um choque frontal de palavras, está uma intermitência de frases, está uma imagem fixa, melodia, timbre de voz, etc. Apesar de já ter sido usado neste texto, pensamento parece-me um termo desadequado porque implica atenção. Estas palavras e imagens e melodias organizam-se em enxame. Mesmo quando oferecemos a atenção ao mundo, elas continuam lá, dentro de nós como se estivessem à nossa volta.
Posso tocar-te os lábios?
Cada palavra escrita alimenta-se dessas muitas palavras que a formam, cada palavra escrita é uma condensação. Cada palavra dita é feita da organização dessas palavras, mesmo que. Mesmo que, por vezes, se interrompam.
Posso soprar-te os lábios?
É agora que pergunto: o que é a memória? Um sentido poderia defender que as palavras e as coisas que nos constituem seriam viajantes, seguiriam movimentos – um pouco como os cometas, os astros. Desse modo, talvez fosse possível estabelecer um cálculo que pudesse prever cada ideia, palavra, imagem, etc. Seria assim, fácil, não fosse a circunstância de esse mesmo mundo existir com outro, depender dele – aquele que tem árvores, cidades e lugares concretos, aquele que está à nossa volta. Esse mundo que chamamos quando dizemos mundo e que, no entanto, é o encontro de todas as nossas solidões. Porque, mesmo que não procuremos palavras, acabamos por desconfiar que a incomunicabilidade absoluta existe, até entre nós e nós próprios.
Ainda assim, somos capazes de encontrar muitas justificações para continuar os mesmos equívocos, para sermos incertezas vestidas de fatos, gravatas, ou tailleurs, escolhidos segundo critérios que aprendemos.
Construir sistemas foi a parte mais fácil da nossa tarefa. Encontrar nome para os seus significados será outra das partes. Até lá, essas definições permanecerão enterradas por baixo daquilo que apenas podemos suspeitar quando nos detemos perante um horizonte ou perante uma cena de devastação.
Olhar dessa maneira é um sentido que pertence às crianças, como a reflexão verdadeira é um sentido que pertence aos anciãos. Por isso, somos crianças paradas no extremo de um miradouro, de um cabo sobre o oceano. Tentamos imaginar o universo. Tentamos imaginar o infinito sem conseguirmos perceber que, no infinito do universo, existe um número infinito de mundos, todos eles infinitos em si, comportando mundos infinitamente. Depois, nos intervalos dessa incapacidade, encontramo-nos e somos funcionais. Cumprimentamo-nos à chegada e despedimo-nos à partida.
A civilidade existe para nos guiar mas, ao mesmo tempo, acaba por nos desviar de nós próprios, acaba por dificultar que nos aproximemos de dizer aquilo que é evidente apenas para cada um de nós. Não é difícil concluir que são muito mais as palavras que não podemos dizer do que aquelas que conhecemos. Há fronteiras que ainda não sabemos ultrapassar, que estão connosco, que são nós.
Posso beijar-te?"

José Luís Peixoto

domingo, março 16, 2008

V. em sonho

“O corpo frágil e redondo. O sorriso marmóreo e angelical. O púbis desnudo indicando nossos desejos, satisfeitos no seio da onírica intimidade. Falamo-nos incansavelmente, e por fim, sem dramas acabo por admitir que havia ficado ainda mais amargo e calado depois da brusca partida. (…) Reinventar-te foi reviver novamente aquela paixão perdida. Tantas pessoas são o que gostaríamos apenas no mundo dos sonhos e tantas outras nunca existiram doutro modo. Pouco importava. Foi o nosso encontro mais doce. Sei que continuas existindo. “

Orfeu B

Efeitos secundários...

...a emoção pode causar reacções alérgicas e os espirros podem ser contagiosos...