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quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Poesia

(Não sei se é filho de peixe, mas sem dúvida sabe versar.)

“Poesia é magia.
É o segredo da vida.
Vem comigo,
descobre
O sentido da vida.

Gosto de poesia,
Dá-me alegria.
Sem poesia
O mundo não existia.

Poesia, poesia
Magia, magia.”

João Guilherme , 9 anos

Segundo ele "dedicado aos grandes compositores e poetas, importantes e normais. Aproveitem a vida!"

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Quem tem vergonha passa mal...

"Ser feliz por momentos é algo de que não se deve ter vergonha. Momentos que o fim torna rídiculos. A felicidade, como o amor, é um sentimento ridículo. Mas a felicidade, como o amor, só é ridícula quando vista de fora. A felicidade, como o amor, só é ridícula antes ou depois de si própria.

A felicidade são momentos que, no seu presente fugaz, são mais fortes do que todas as sombras, todos os lugares frios, todos os arrependimentos. Ser feliz em palavras que, durante essa respiração breve, mudam de sentido. E nem a forma do mundo é igual: o sangue tem a forma de luz, as pedras têm a forma de nuvens, os olhos têm a forma de rios, as mãos têm a forma de árvores, os lábios têm a forma de céu, ou de oceano visto da praia, ou de estrela a brilhar com toda a sua força infantil e a iluminar a noite como um coração pequeno de ave ou de criança.

Momentos que o fim torna ridículos. Momentos que fazem viver, esperando por um dia, depois de todas as desilusões, depois de todos os arrependimentos e fracassos, que se possam viver de novo, para de novo chegar ao fim e de novo a esperança e de novo o fim. Não se deve ter vergonha de se ser feliz por momentos. Não se deve ter vergonha da memória de se ter sido feliz por momentos."

José Luís Peixoto, in Uma Casa Na Escuridão

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Na cama não se fala de filosofia

“Na cama não se fala de filosofia.

Peguei na mão dela, coloquei sobre meu coração, disse,meu coração é seu,depois pus sua mão sobre minha cabeça e disse,
meus pensamentos são seus, moléculas do meu corpo estão impregnadas com moléculas do seu. (...)Ela disse,
te amo, vamos viver juntos.

Perguntei, não está tão bom assim?
Cada um no seu canto, nos encontramos para ir ao cinema, passear no Jardim Botânico, comer salada com salmão, ler poesia um para o outro, ver filmes, foder.
Acordar todo dia, todo dia, todo dia juntos na mesma cama é mortal.

Ela respondeu que Nietzsche disse que a mesma palavra amor significa duas coisas diferentes para o homem e para a mulher.
Para a mulher, amor exprime renúncia, dádiva.
Já o homem quer possuir a mulher, tomá-la, a fim de se enriquecer e reforçar seu poder de existir.

Respondi que Nietzsche era um maluco.

Mas aquela conversa foi o início do fim.

Na cama não se fala de filosofia.”

Rubem Fonseca, "Ela e outras mulheres"

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Self-respect sky rocket

- a menina não tem medo de apanhar uma pneumonia com esse decote?Está muito frio!
- e o meu caro amigo não tem nada menos óbvio que fazer que olhar para o meu decote?- minha cara…a graça do seu decote reside na subtileza do mesmo!

quinta-feira, maio 29, 2008

Dolce Vita

Dolce vita


Ele já tinha reparado nela.Partilhavam uma zona de alimentação de um centro comercial.Tinha-lhe admirado a escultura perfeita do corpo e o olhar onde cabia o mundo.Estava sempre acompanhada,passando os fins de tarde a estudar e a tomar notas.Um dia,com a colega ausente,por inexplicável magia ficaram de cadeiras coladas.Ela levantou-se,pedindo-lhe com doçura para zelar dos livros e do portátil,enquanto ia á casa de banho,concluindo com um sorriso terno e com a promessa de breve regresso.
Ele esperou,mirando e remirando os livros.Ela voltou com o sorriso a incendiar-lhe a alma,agradeceu e começaram a falar.A propósito de nada,falaram de tudo.
Era estudante de medicina,faltando-lhe dois anos para terminar o curso,sendo natural de uma cidade minhota.
As horas passaram rápido e a esse dia outros se sucederam,com raras intermitências,provocadas pela incomoda,mas involuntária presença da colega.Uma esdrúxula magia instalou-se e sedimentou-se.Trocavam sorrisos e risos,ouviam-se,confidenciavam estados de alma,mergulhavam nos caboucos das suas vidas.
Provaram o fast-food,enquanto ela perorava sobre os malefícios daquele,demonizando-o e tragando-o,misturando sentenças médicas,com nacos de bom humor.E ria,ria muito.
Um dia,quando já tinham partilhado longas horas de conversa e aferido os sentimentos na distancia de um fim de semana,ele convidou-a para um jantar formal,longe do lugar onde tudo desabrochara.Ela desenhou um sorriso atento e pela primeira vez,sem responder ao convite,olhou para o dedo anelar da mão direita dele,onde repousava uma alva aliança,questionando o significado de tudo aquilo.
Ele explicou tudo,com tocante sinceridade e absoluta veracidade.Desnudou a alma,assumindo que não conseguia despir aquele objecto metálico,frio na forma,mas escaldante de conteúdo,porque prenhe de memorias e sentimentos vivos.Falou-lhe do tempo e do que por ela sentia.Ela ouviu e sorrindo sempre,disse que ia pensar em tudo.Despediram-se com um beijo meigo,marcando encontro para o dia seguinte.
Ele esperou.Ela não estava.Ele esperou muito.Ela não veio.
À noite,na hora do lobo,o telemóvel tocou.Era ela.Pediu desculpa pela ausência.Por momentos,aquela voz que ele tanto gostava,voltava a fulgurar a noite,dilacerando-lhe a tristeza.
Disse que tinha reflectido muito e que concluiu ser melhor não se verem mais,porque não queria sofrer,que não gostava de esperar.Ele argumentou,rebateu,propôs um encontro esclarecedor,definindo barreiras e pedindo-lhe tempo.Ela não aceitou a proposta,porque dizia que temia envolver-se mais e mais.Deixou em aberto a questão do tempo.
Ele voltou ao centro comercial,mas ela não mais voltou.O mundo tornou-se mais desinteressante e o colorido do centro comercial tornou-se plumbeo cerrado.
Um dia ele espera chegar e vê-la rodeada de livros,sorrindo para ele,com aquele sorriso que lhe mima a alma,com aqueles olhos onde cabe o mundo,com o langor melifluo do cio.
Ele sente a falta dela.Eu sinto a falta dela.

Superpoderes

terça-feira, abril 15, 2008

Todo o desejo é miope...ás vezes mesmo cego

Noivado


"Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.

-És tu Ernesto, meu amor?

Não era.

Era o Bernardo.

Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.É o que faz a miopia."

Mário Henrique-Leiria

sábado, abril 05, 2008

Fim de tarde elementar

"Apetece-me abrir-te as pernas e lamber-te. Fazer isso durante muito tempo até ouvir a tua voz a perder-se e depois entrar por ti adentro mantendo o ritmo e a distância para te poder ver numa perspectiva de observador imparcial.

Inquietar-te com perguntas violentas fazer-te repetir desejos e segredos, abusar de ti sem remorso nem perdão.
Quero que venhas uma e depois outra vez mais lentamente. Que acabes por chorar baixinho e me peças tudo de novo outra vez.

Esquece-te de mim. Não sou eu. És tu que me vens livrar de mim. Eu por mim repetia já este intervalo elementar fora das garras do tempos.

Começo por aqui. Hei-de ir não sei para onde. Agora do mundo só me interessa esse quente, sombrio e húmido minúsculo pedaço do teu corpo e encher-te de prazer com a minha boca. Não há nada como como isto para me livrar de mim.

Tu que dizes?
Calemo-nos.
- O meu sexo é enorme. O teu pequenino. Belo contraste neste fim de tarde em que tudo sabe a mar profundo e a esquecimento.

- O meu sexo é pequeno. O teu enorme. Engole-me por completo, peço-te, e que não fique nada destas horas em que nos demos.Vem e desfaz-me, querida. Não quero saber de nada. Morde-me a orelha como um furacão. Agarra-te com a tua boca por cima do coração.
Encontra o ponto subtil em que que me fazes vir a ti. Faz-me esquecer de mim, que o meu sexo és tu que o tens em ti."

Pedro Paixão,in "Vida de Adulto"

domingo, março 23, 2008

Adeus (as palavras estão gastas)

Já gastámos as palavras pela rua,
meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes

E eu acreditava.
Acreditava.
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É
pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus."


Eugénio de Andrade

Caderno de encargos...

“A human being should be able to change a diaper, plan an invasion, butcher a hog, conn a ship, design a building, write a sonnet, balance accounts, build a wall, set a bone, comfort the dying, take orders, give orders, cooperate, act alone, solve equations, analyze a new problem, pitch manure, program a computer, cook a tasty meal, fight efficiently, die gallantly. Specialization is for insects.”

Jonh Steinbeck

* apenas para quem cumpra todos os requisitos

Sem prazo de entrega...

"Soneto de amor

Não me peças palavras,nem baladas,
Nem expressões, nem alma...~
Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce! "

José Régio

sexta-feira, março 21, 2008

Quando o amor morrer dentro de ti

"Quando o amor morrer dentro de ti,
caminha para o alto onde haja espaço,
e com o silêncio outrora pressentido
molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
e neles ateia o fogo adormecido
que uma vez,
sonho de amor,
teu peito ferido
espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
e o nocturno calor que se debruça
sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
que mil saudosas lágrimas velaram;
desfralda na tua alma o inventário
do templo onde a vida ora de bruços
a Deus e aos sonhos que gelaram.

(Ruy Cinatti 1915 - 1986, in "Poemas de Amor - antologia de poesia portuguesa", Inês Pedrosa)

A culpa é uma moça

" (...) fazia amor com ele com uma sinceridade que até então desconhecia. Chegava a premiá-lo com a desenvoltura aprendida no corpo de Dinis.
A um olhar masculino, pode ser que estas transposições pareçam insuportáveis da promiscuidade. É que os homens têm geralmente do acto sexual uma ideia estanque, factual, cheia de alíneas, como uma cerimónia de consagração. Ora as mulheres tendem a ver no exercício físico do amor uma das muitas encarnações possíveis da generosidade, que nelas faz as vezes da entrega. Isso habilita-as a distribuir as mesmas palavras de amor e os mesmos gestos a homens diferentes, sem escândalo íntimo nem confusão alguma; o vocabulário do amor é curto para a disponibilidade que as anima. É nas minúncias da pele que as diferenças e as vertigens se lhes cavam; na realidade, é até provável que sejam mais pródigas em juras e carinhos para com o menos amado. Porque a culpa é feminina (...)."


INÊS PEDROSA

terça-feira, março 18, 2008

Sexo Oral


"Primeiro a tua língua molha o meu coração, num vagar de fera.
Estendo aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre os copos que desaparecem.
Não há mais ninguém no bar cheio de gente.
Abres-me agora os pulmões, um para cada lado, e sopras.
Respiras-me.
O laser das tuas palavras rasga-me o lobo frontal do cérebro.
A tua boca abre-se e fecha-se, fecha-se e abre-se, avançando por dentro da minha cabeça.
As minhas cidades ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo preso das nossas retinas.
O empregado do bar retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrina, ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro, abrindo e fechando as pernas das palavras, estremecendo no suor dos olhos abraçados,
fazendo sexo com a lava incandescente dessa revolução imprevista a que damos o nome de amor."


Inês Pedrosa

segunda-feira, março 17, 2008

1st date milestones

"Como é que te chamas?
Começo por pensar que todas as pessoas são iguais. Talvez por comodidade, talvez por segurança, começo por supor que todas as pessoas, na sua infinita variedade de passados, presentes e futuros, são iguais.
É partindo desse pressuposto que digo nós. Não o nós de apenas eu e tu, não o nós de país ou língua, mas o nós meu, teu e deles, de países e línguas, de todos aqueles que não nos estão a ouvir.
E digo: nós temos um mundo no nosso interior.
Digo: é fascinante a história de tudo aquilo que fomos, que passou e que nunca foi esquecido porque nunca foi identificado. Sem que nunca tenha sido arquivado de uma forma consistente, catalogado ou sequer registado, acabamos por chamar caos ou alma a esse mundo.
Na fila do supermercado ou numa esplanada, Junho, acabamos por chamar-lhe pensamento. E mesmo durante o instante em que dizemos essa palavra, pen-sa-men-to, somos assaltados por uma sucessão de frases, sobrepostas às vezes, ou por imagens, ou por melodias, ou por palavras soltas, ou por tudo isto, sobreposto, misturado, em luta ou em harmonia.
Onde é que nos encontrámos antes?
Tiramos fotografias para vermos quando formos mais velhos, para não esquecermos. Nesse mundo que existe por trás dos olhos, é impossível tirar fotografias. É impossível filmá-lo.
As palavras são insuficientes porque variam consoante a voz que as canta. As palavras escritas, a verem-nos desde o papel, são muito diferentes daquelas que, dentro de nós, se desfazem. Às vezes, são como pássaros mortos na palma da mão. Outras vezes, são como a sua sombra. E, no entanto, escrever é falar para esse interior. Coloca uma ponte entre palavras e palavras, irmãos que se encontram. As palavras escritas no papel atravessam a pele e são despejadas directamente, com um ritmo, nesse mundo sem fronteiras que cada um de nós transporta.
São como soldados a saltarem da parte de trás de um camião. Seriam necessárias muitas reticências se conseguíssemos escutar cada pormenor desse interior.
É neste ponto que se coloca o problema da atenção. Temos olhos e, quanto à atenção, acontece o mesmo de quando olhamos para a distância e, a partir de certa altura, os contornos fogem dos objectos. Nesse nosso mundo/caos/alma, suponho que exista também uma distância: imagens que passam lá muito longe, por trás destas que passam logo aqui, palavras que passam onde apenas conseguimos ver vultos.
Gosto da cor dos teus olhos.
Mergulhar no pensamento pode ser como mergulhar em contos infantis, podemos ser uma espécie de Alice deslumbrada. Podemos também encontrar masmorras e prisões perpétuas. Depende daquilo que procurarmos. Mais incrível do que não termos sempre esta consciência de nós próprios é o tão pouco que temos esta mesma consciência em relação aos outros.
Está uma mulher sentada à nossa frente no autocarro, está o nosso pai, estás tu, e não somos sempre capazes de imaginar que, depois do rosto, ou sobre o rosto, invisível, está um choque frontal de palavras, está uma intermitência de frases, está uma imagem fixa, melodia, timbre de voz, etc. Apesar de já ter sido usado neste texto, pensamento parece-me um termo desadequado porque implica atenção. Estas palavras e imagens e melodias organizam-se em enxame. Mesmo quando oferecemos a atenção ao mundo, elas continuam lá, dentro de nós como se estivessem à nossa volta.
Posso tocar-te os lábios?
Cada palavra escrita alimenta-se dessas muitas palavras que a formam, cada palavra escrita é uma condensação. Cada palavra dita é feita da organização dessas palavras, mesmo que. Mesmo que, por vezes, se interrompam.
Posso soprar-te os lábios?
É agora que pergunto: o que é a memória? Um sentido poderia defender que as palavras e as coisas que nos constituem seriam viajantes, seguiriam movimentos – um pouco como os cometas, os astros. Desse modo, talvez fosse possível estabelecer um cálculo que pudesse prever cada ideia, palavra, imagem, etc. Seria assim, fácil, não fosse a circunstância de esse mesmo mundo existir com outro, depender dele – aquele que tem árvores, cidades e lugares concretos, aquele que está à nossa volta. Esse mundo que chamamos quando dizemos mundo e que, no entanto, é o encontro de todas as nossas solidões. Porque, mesmo que não procuremos palavras, acabamos por desconfiar que a incomunicabilidade absoluta existe, até entre nós e nós próprios.
Ainda assim, somos capazes de encontrar muitas justificações para continuar os mesmos equívocos, para sermos incertezas vestidas de fatos, gravatas, ou tailleurs, escolhidos segundo critérios que aprendemos.
Construir sistemas foi a parte mais fácil da nossa tarefa. Encontrar nome para os seus significados será outra das partes. Até lá, essas definições permanecerão enterradas por baixo daquilo que apenas podemos suspeitar quando nos detemos perante um horizonte ou perante uma cena de devastação.
Olhar dessa maneira é um sentido que pertence às crianças, como a reflexão verdadeira é um sentido que pertence aos anciãos. Por isso, somos crianças paradas no extremo de um miradouro, de um cabo sobre o oceano. Tentamos imaginar o universo. Tentamos imaginar o infinito sem conseguirmos perceber que, no infinito do universo, existe um número infinito de mundos, todos eles infinitos em si, comportando mundos infinitamente. Depois, nos intervalos dessa incapacidade, encontramo-nos e somos funcionais. Cumprimentamo-nos à chegada e despedimo-nos à partida.
A civilidade existe para nos guiar mas, ao mesmo tempo, acaba por nos desviar de nós próprios, acaba por dificultar que nos aproximemos de dizer aquilo que é evidente apenas para cada um de nós. Não é difícil concluir que são muito mais as palavras que não podemos dizer do que aquelas que conhecemos. Há fronteiras que ainda não sabemos ultrapassar, que estão connosco, que são nós.
Posso beijar-te?"

José Luís Peixoto

domingo, março 16, 2008

V. em sonho

“O corpo frágil e redondo. O sorriso marmóreo e angelical. O púbis desnudo indicando nossos desejos, satisfeitos no seio da onírica intimidade. Falamo-nos incansavelmente, e por fim, sem dramas acabo por admitir que havia ficado ainda mais amargo e calado depois da brusca partida. (…) Reinventar-te foi reviver novamente aquela paixão perdida. Tantas pessoas são o que gostaríamos apenas no mundo dos sonhos e tantas outras nunca existiram doutro modo. Pouco importava. Foi o nosso encontro mais doce. Sei que continuas existindo. “

Orfeu B

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Lugar reservado no Funicular

Sempre gostei da Bica. Tem uma vista simpática, uma quotidiano rico, caras sorridentes, boa música e gente bonita. Há já algum tempo que escolhi a Rua da Bica de Duarte Belo, como a minha soleira da porta, quando decido que é tempo de sair e ver mundos, rir e beber um copo de vinho.
De início parava pela Bicaense, um lugar sempre bem composto, com boa música e pessoas que, na sua maioria conseguiam ter conversas interessantes, comuns, cheias.
Ultimamente, contudo, descobri que o Funicular me assenta melhor. É mais neglige, mais desprendido, mais sólido e reúne algumas coisas que me fazem escolhe-lo como o meu bar de eleição para carregar baterias antes de descer a rua e regressar ao Jamaica ou ao Tóquio, que para mim, são depósitos de memórias, caras e costumes, feitos em compotas de boa música. A música, a par com as pessoas, são o que me faz escolher um bom sitio. Claro que, o facto de se poder fumar também me faz por de lado qualquer consideração mais tonta a respeito do facto de o espaço ser pequeno, ou a rua demasiado larga para tanta gente.
Ontem, de volta ao Funicular para ouvir um amigo DJ, a colocar música, deparei-me com as Tertúlias Informais. Um espaço, onde amigos, estranhos, figurinhas de passagem e cromos colados á mobília partilham o gosto pelas palavras, na forma de poemas, de textos, de conversas, de debate, de exibição, de exibicionismo ou simplesmente de desabafo.
Tive sorte…a escolha da noite caia me bem. Depois do “Cântico Negro” de José Régio declamado por João Villaret, (o primeiro poema que decorei na minha vida, numa noite de Verão de 1990, e com o qual arrecadei um beijo cinéfilo só possível por um adolescente profundamente enamorado), seguiu-se a leitura do Prefácio do Retrato de Dorian Grey de Óscar Wild, brilhantemente lido, em versão original por um rapaz simpático a quem gosto de chamar Tejo. Apareceu Alberto Caeiro, de novo José Régio, á discussão com Adolfo Luxúria Canibal, a cuscar sobre Sidharta e tantos outros.
Quem entrava acabava por ficar e aprender um pouco mais a troco de nada, e todos se enchiam (alguns a custo de muitos copos) de uma leveza e do ar contente de quem descobre uma pequenina coisa nova que nos surpreende.
No Funicular é assim ás Quintas-feiras.
Numa altura em que começava a pensar que as pessoas interessantes ou melhor pondo, que a mim me interessam, tinham desertado para algum canto recôndito da Ex-URSS, ou para o paraíso ficcional do Alasca, onde os homens crescem em árvores, fico contente de lhes ter apanhado o rasto.
Ás quintas, trazem os amigos, as entoações, as canções, as opiniões e a menos que o piso esteja demasiado molhado, há muitos ainda-desconhecidos-candidatos-a-amigos-ou-a-biblioteca-itenerante, para descer aquela rua com o apelo dos segredos, aos trambolhões.