sexta-feira, março 21, 2008

Quando o amor morrer dentro de ti

"Quando o amor morrer dentro de ti,
caminha para o alto onde haja espaço,
e com o silêncio outrora pressentido
molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
e neles ateia o fogo adormecido
que uma vez,
sonho de amor,
teu peito ferido
espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
e o nocturno calor que se debruça
sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
que mil saudosas lágrimas velaram;
desfralda na tua alma o inventário
do templo onde a vida ora de bruços
a Deus e aos sonhos que gelaram.

(Ruy Cinatti 1915 - 1986, in "Poemas de Amor - antologia de poesia portuguesa", Inês Pedrosa)

A culpa é uma moça

" (...) fazia amor com ele com uma sinceridade que até então desconhecia. Chegava a premiá-lo com a desenvoltura aprendida no corpo de Dinis.
A um olhar masculino, pode ser que estas transposições pareçam insuportáveis da promiscuidade. É que os homens têm geralmente do acto sexual uma ideia estanque, factual, cheia de alíneas, como uma cerimónia de consagração. Ora as mulheres tendem a ver no exercício físico do amor uma das muitas encarnações possíveis da generosidade, que nelas faz as vezes da entrega. Isso habilita-as a distribuir as mesmas palavras de amor e os mesmos gestos a homens diferentes, sem escândalo íntimo nem confusão alguma; o vocabulário do amor é curto para a disponibilidade que as anima. É nas minúncias da pele que as diferenças e as vertigens se lhes cavam; na realidade, é até provável que sejam mais pródigas em juras e carinhos para com o menos amado. Porque a culpa é feminina (...)."


INÊS PEDROSA

quinta-feira, março 20, 2008


Páscoa Feliz!


Risos Patetas

Dúvida colocada no site das Finanças:

"Sou sócio do Benfica e estou a fazer a minha declaração de IRS. Como pago a quota de sócio todos os meses, devo colocar o Benfica como meu dependente? "

Resposta das Finanças:

"Claro que não. Só pode colocar dependentes na Declaração de IRS quem ganhou alguma coisa em 2007. No seu caso, uma simples Declaração de Isento é o suficiente.

quarta-feira, março 19, 2008

By the end of the day...




Custa sempre perder um amigo, seja na sequência das nossas acções ou de reacções a atitudes terceiras. Há qualquer coisa de inconsolável, no acto de vermos aquela pessoa virar as costas e seguir outro caminho que já não acompanharemos.


Quando um amigo morre subitamente e depois de ultrapassado o choque de aceitar os maus figados do destino, sentimo-nos acalentados na ideia de que enquanto ele partilhou o nosso quotidiano, aproveitamos ambos de todo o carinho, a responsabilidade, a alegria, a partilha que o facto de gostarmos um do outro encerra. Pode já não estar entre nós, mas fica sempre presente nas memórias que partilhamos entre outros amigos, nas fotografias, nas frases que passam em flashback com os sorrisos dele.


Perder alguém por desistência não tem nobreza, melancolia ou tempo que console. Desistir de alguém em prol do nosso bem estar, pode ser uma atitude sensata e adulta, mas não é um gesto que acalme o espírito. Mais do que a dor da opção tomada, o que mais marca é a raiva da desilusão. Quando genuinamente gostamos de alguém que guardavamos acima de qualquer mácula e essa pessoa se revela em atitudes tristes, desrespeitosas, cínicas e até cruéis, há uma parte de nós que secumbe de peito aberto ao golpe da espada. Porque não esperavamos, porque não se quer acreditar, porque nunca na vida seriamos assim enganados!

Procuramos justificações, discutimos para nós razões, negamos até á ultima que possa ser verdade, até que exaustos da espera da comprensão ou do esclarecimento apaziaguador, que tentamos encontrar a custo, nos vemos obrigados a aceitar.
É por isso que se perdoa tudo a um amor: a traição, o crime, os maus tratos, a solidão mas é tão dificil esquecer quando se joga fora uma amizade.

Pai


Hoje é dia do pai e por alguma razão triste não tenho que dizer. Não reconheço as palavras que sinto atropelar-me, porque não me reconheço em ti. Sou tua filha, eu sei. A natureza não nos deixa negar.
Sei que brevemente irás partir e eu não chegarei nunca a dizer o quanto gosto de ti e o quanto te admiro, perdida na absoluta incapacidade de um abraço.
Mas hoje, avô, desejo-te um feliz dia do Pai, com um abraço apertado, ainda que virtual mas que condensa todo o amor que tenho mas não consigo mostrar.
Gosto muito de ti pai!

terça-feira, março 18, 2008

Xafarix ás quintas ou os psicadélicos dos 30

Sexo Oral


"Primeiro a tua língua molha o meu coração, num vagar de fera.
Estendo aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre os copos que desaparecem.
Não há mais ninguém no bar cheio de gente.
Abres-me agora os pulmões, um para cada lado, e sopras.
Respiras-me.
O laser das tuas palavras rasga-me o lobo frontal do cérebro.
A tua boca abre-se e fecha-se, fecha-se e abre-se, avançando por dentro da minha cabeça.
As minhas cidades ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo preso das nossas retinas.
O empregado do bar retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrina, ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro, abrindo e fechando as pernas das palavras, estremecendo no suor dos olhos abraçados,
fazendo sexo com a lava incandescente dessa revolução imprevista a que damos o nome de amor."


Inês Pedrosa

Tears Dry on Their Own

"El único amigo que nunca miente es el silencio. "

Jorge Martinez

Ar(dor) do meu amor


“Desvairada, ternamente desvairada no corropio de mim. De mãos que sobem á sucapa pelos caminhos a nú da noite.
Gomos que mastigas no beijo, que se consente,
Repete, repele
Agarra.
Mordo-te a nuca e escalo-te a pele que geme, que soluça que marca a sombra do que não há.
Repito o teu nome, uma e outra vez e tu soluças, e choras em arco-iris.
Quero-te minha
Morta de tudo que não seja eu.
A parede branca e fria
Escorre a humidade de nós,
Grito-te,
Enlaço-te,
Abraço-me a ti,
Mas tu não devolves...

Mordo-te a boca e entrego-me no silêncio da ausência de respiração,
Contenho-te,
Embalo-te,
Como-te sofregamente.

Tu aceitas,
Tu olhas e não falas.
Chamo-te, insulto-te,
Rebento-me em ti
E tu calas.
Choro
Tu sorris.
Aconchego-te.
Embalo-te.

Tu deitas-me.
Tu tapas-me.
Tu beijas-me.
Tu partes.

Vejo-te o corpo nú trémulo
Ás marcas de mim em ti,
O teu ventre cheio,
As costas que não voltas,
Para não voltares em mim.
Tu não és
Tu és Outono quente e doce e morno
Eu sou verão temporal
Tu és verde relva macia e fresca
Eu sou areia áspera e morta,
Tu és dele.
Eu sou teu."

Dou a mão à palmatória...mas não batas muito.

"É meu!


"De entre todos os sentimentos que existem, o pior de todos é – e peço já desculpa aos outros – o sentimento de posse.
As pessoas gostam de ter, de dizer que é meu e de preferência pagarem a pronto. Portugal não gosta de alugar. Se tiver dinheiro, o português compra, mesmo que para isso tenha que fazer mais um esforço para pagar um empréstimo a 30 anos e no fim dizer que: "É meu!".
Recebe-se alguém em casa, vai-se mostrando as divisões e a primeira pergunta que nos fazem é: "Mas isto é teu?" E com a tristeza de um pescador que vem do mar sem nada na rede, encolhemos os ombros e dizemos: "Antes fosse, mas não. É alugada!".

Os portugueses gostam de dizer "É meu!" e quem alugar ou comprar a leasing - um carro por exemplo - é olhado com desconfiança e até, deixem cá ver, menosprezo.
A vizinha do lado comenta com a outra no parapeito da varanda:
"Já viu o carro novo do vizinho da frente que chegou esta semana? e mesmo que não o saiba, esta, de forma viperina vai dizendo: "Pois, pois, deve ter sido comprado a leasing. E assim também eu!" Como se a leasing fosse batota.
De resto, ao mínimo sinal de rápida ascensão financeira, é incontornável que o empresário que teve sorte com o negócio que criou e que à custa disso já comprou uma vivenda e mudou de carro duas vezes este ano, está - pois com certeza! - "Está mas é metido na droga!". A casa dele tem piscina! - Isso é droga! – Comprou agora um barco! – Droga é o que é! – Foi de férias com a família para os Alpes! – Não tenha dúvidas que é droga!

Por isso, se isto neste plano é assim, imaginem quando o sentimento de posse se alastra ao foro sentimental. É pior ainda. Com uma vantagem. Se rapidamente conquistarmos alguém ou dermos mostras de que temos cada vez mais casos bem-sucedidos "aquele ali anda sempre com mulheres bonitas!" serão poucos aqueles que dirão, que "andamos metidos na droga". E isso é bom. Se bem que para mim, se eu andasse metido com a Charlize Theron, bem que me podiam chamar o " Pablo Escobar de Campolide" que eu não me importaria. Mas adiante.

O sentimento de posse manifesta-se quando acabamos uma relação – reparem que fomos até nós que o fizemos – e passado uns tempos, quando a vemos com outro, não sei porquê, mas ficamos com um formigueiro nos pés que deus me livre. Na verdade, aqui entre nós – e agora baixe o jornal que esse senhor do lado está a ler isto – o que nos agradaria, era ver aquela palerma que nós deixámos – nós, ouviram bem? - aos rebolões pela rua, moribunda, chorando pelos cantos a clamar o nosso regresso. E o que é que acontece? Exactamente o contrário. Está tão melhor do que nunca que até parece que lhe demos saúde. E demos.
E assim, quando alguém nos diz :" olha, ontem encontrei a tua ex-namorada ás compras no chiado?, à nossa imediata pergunta de " Como é que ela está?" nada melhor do que nos responderem:" Tão diferente que não imaginas. Mais gordita, mal tratada, uma sombra daquilo que era no teu tempo! E por mais que nos custe reconhecer – e custa - ficamos contentes ao ouvir isto como se disséssemos "Safei-me de um bom estafermo!".

O sentimento de posse é isto. É mau. Mete vergonha. Devia ser banido, mas existe. Mas ao contrário do que acontecia até aqui – e isto é pior ainda - poucos são aqueles que ao saberem-no, dizem : "É meu!"


Fernando Alvim

segunda-feira, março 17, 2008

Metáforas

"No passado, escrevi um poema que começava assim: "sinto a lamina do teu ciúme no meu peito" - era uma metáfora, claro.E nao suspeitei. Agora, que me espetaste a faca de descascar batatas entre as costelas, único desfecho lógico para o nosso amor; agora, que sinto mesmo a lamina e o sangue morno a alastrar-me na camisa, sei, finalmente e tarde demais, a fraca expressividade das metáforas.Por isso, se ainda gostares um bocado de mim, pede para, na segunda edição, alterarem o verso para: "sinto o teu ciume como uma lamina no meu peito". "

Jose Luis Peixoto

P.S. Quero um velório assim...


Quando se junta um irlandês impetuoso, apaixonado, terno e imprevisivél com uma míuda meia perdida, vulnerável, trapalhona, desastrada e inconstante, e se adiciona a um amor que parece perfeito, uma morte por si só cortante,encontramos os ingredientes para uma história de amor no mínimo divertida e contagiante.

P.S. I love you, não é um filme para se assistir como programa de um date. Se, como eu tem lágrima solta, e não consegue conter o seu impêto romântico e as toneladas de suspiros que incomodam quase tanto como os baldes de pipocas vizinhos, sugiro que guarde este filme para assistir no recato do lar, munida de inúmeros Kleenex, baldes de gelados (se for essa a sua panca), e um edredon de penas.
Caso não siga a minha sugestão e resolva levar companhia até á sala de cinema mais perto de si, assegure-se que leva uma amiga de peito, ou de outro modo poder ter que lidar com um amigo meio baralhado sem saber o que fazer e que passará parte da noite a indagar-se sobre qual foi a parte que ele não percebeu, ou a tentar intuir que raio achamos nós tão comovente.
A verdade é que este filme é giro. Giro sim. Vai da comoção á gargalhada brutal num ápice de segundo e mesmo os momentos tristes são carregados de um humor negro, que a vida encerra em si e que não raras vezes nos faz rir, quando o assunto não é connosco.
Confesso que não consegui reter um sorriso maldoso, quando a meio do filme me lembrei das circunstâncias da morte, do pai de uma ex-fantasma do homem que eu amava, engasgado com um bocado de bife. É cruel, eu sei, mas há momentos em que somos capazes de piores coisas.
PS – I Love you é um filme sobre o luto,ou aquilo que seria, a meu ver, o luto ideal. Nada nos prepara para a perda de quem se ama, seja um marido, uma mãe, um filho, um amigo. Seja à custa da morte, ou da simples despedida circunstâncial. Gerry, assumindo que teria que partir, resolveu fazer uma despedida à sua maneira, passando rasteira ao tempo e à imaterialidade da ausência que leva ao esquecimento e fez-se presente. Nesse percurso tenta preparar a mulher que ama, para viver sem ele, para aceitar a cruel realidade de ter que recomeçar de novo, para lhe mostrar de que forma pode reviver as memórias deles sem que tal seja sinónimo constante de desespero ou infelicidade.

Através de cartas com o Post Scriptum mais perfeito, ele determina passos que Holly deverá seguir, ao jeito dos Jogos de Pista feitos por qualquer escuteiro e com ajuda da mãe de Holly e das suas amigas assegura-se que ela se encontra na sua ausência. (Na minha caracteristica mania de argumentista de trazer por casa, descobri logo a forma de entrega das ditas cartas...risos).

Gostei da ilustração da forma como ela fez gere os primeiros tempos de dor e desepero que a ausência daquele que amamos comporta: uma falta de ar, a sensação de dor obtusa presa ao peito e que o mais pequeno grão de pó de qualquer lembrança rebenta numa enchurrada de loucura e demência que não se compraz com canones comportamentais ou exigências de civilidade. A loucura na dança dela, vestida com a roupa que era dele é uma forma cómica de mostrar como fica um coração partido e até que ponto o amor é mesmo rídiculo.

Para além de Gerry e Holly esta história simples fala-nos também da dificuldade de uma mãe digerir a dor que um filho sente. Da inutilidade dos nossos afectos ou palavras, da raiva que encerra vermos que o nosso filho segue os nossos passos e o único que lhe poderemos garantir é que efectivamente ele vai mesmo ter que sofrer e que na solidão dessa dor ele encontrará a companhia de outros que estão no mesmo barco.

Eu chorei. Comovi-me, revendo-me nas cinzas daquele amor. A verdade é que me ajudou a perceber que o meu luto tinha terminado. Que as memórias estavam arrumadas, que o ponto final colocado permitia um ínicio de parágrafo bem mais bonito e iluminado.

Resumindo: É um belo filme de gaja e eu não me importavava nada de encontrar um Irlandês assim!!! Garanto que não o levava a ver este filme, a menos que seja daqueles que também chora nos filmes e que nos derretem tanto.
Realização: Richard LaGravenese

1st date milestones

"Como é que te chamas?
Começo por pensar que todas as pessoas são iguais. Talvez por comodidade, talvez por segurança, começo por supor que todas as pessoas, na sua infinita variedade de passados, presentes e futuros, são iguais.
É partindo desse pressuposto que digo nós. Não o nós de apenas eu e tu, não o nós de país ou língua, mas o nós meu, teu e deles, de países e línguas, de todos aqueles que não nos estão a ouvir.
E digo: nós temos um mundo no nosso interior.
Digo: é fascinante a história de tudo aquilo que fomos, que passou e que nunca foi esquecido porque nunca foi identificado. Sem que nunca tenha sido arquivado de uma forma consistente, catalogado ou sequer registado, acabamos por chamar caos ou alma a esse mundo.
Na fila do supermercado ou numa esplanada, Junho, acabamos por chamar-lhe pensamento. E mesmo durante o instante em que dizemos essa palavra, pen-sa-men-to, somos assaltados por uma sucessão de frases, sobrepostas às vezes, ou por imagens, ou por melodias, ou por palavras soltas, ou por tudo isto, sobreposto, misturado, em luta ou em harmonia.
Onde é que nos encontrámos antes?
Tiramos fotografias para vermos quando formos mais velhos, para não esquecermos. Nesse mundo que existe por trás dos olhos, é impossível tirar fotografias. É impossível filmá-lo.
As palavras são insuficientes porque variam consoante a voz que as canta. As palavras escritas, a verem-nos desde o papel, são muito diferentes daquelas que, dentro de nós, se desfazem. Às vezes, são como pássaros mortos na palma da mão. Outras vezes, são como a sua sombra. E, no entanto, escrever é falar para esse interior. Coloca uma ponte entre palavras e palavras, irmãos que se encontram. As palavras escritas no papel atravessam a pele e são despejadas directamente, com um ritmo, nesse mundo sem fronteiras que cada um de nós transporta.
São como soldados a saltarem da parte de trás de um camião. Seriam necessárias muitas reticências se conseguíssemos escutar cada pormenor desse interior.
É neste ponto que se coloca o problema da atenção. Temos olhos e, quanto à atenção, acontece o mesmo de quando olhamos para a distância e, a partir de certa altura, os contornos fogem dos objectos. Nesse nosso mundo/caos/alma, suponho que exista também uma distância: imagens que passam lá muito longe, por trás destas que passam logo aqui, palavras que passam onde apenas conseguimos ver vultos.
Gosto da cor dos teus olhos.
Mergulhar no pensamento pode ser como mergulhar em contos infantis, podemos ser uma espécie de Alice deslumbrada. Podemos também encontrar masmorras e prisões perpétuas. Depende daquilo que procurarmos. Mais incrível do que não termos sempre esta consciência de nós próprios é o tão pouco que temos esta mesma consciência em relação aos outros.
Está uma mulher sentada à nossa frente no autocarro, está o nosso pai, estás tu, e não somos sempre capazes de imaginar que, depois do rosto, ou sobre o rosto, invisível, está um choque frontal de palavras, está uma intermitência de frases, está uma imagem fixa, melodia, timbre de voz, etc. Apesar de já ter sido usado neste texto, pensamento parece-me um termo desadequado porque implica atenção. Estas palavras e imagens e melodias organizam-se em enxame. Mesmo quando oferecemos a atenção ao mundo, elas continuam lá, dentro de nós como se estivessem à nossa volta.
Posso tocar-te os lábios?
Cada palavra escrita alimenta-se dessas muitas palavras que a formam, cada palavra escrita é uma condensação. Cada palavra dita é feita da organização dessas palavras, mesmo que. Mesmo que, por vezes, se interrompam.
Posso soprar-te os lábios?
É agora que pergunto: o que é a memória? Um sentido poderia defender que as palavras e as coisas que nos constituem seriam viajantes, seguiriam movimentos – um pouco como os cometas, os astros. Desse modo, talvez fosse possível estabelecer um cálculo que pudesse prever cada ideia, palavra, imagem, etc. Seria assim, fácil, não fosse a circunstância de esse mesmo mundo existir com outro, depender dele – aquele que tem árvores, cidades e lugares concretos, aquele que está à nossa volta. Esse mundo que chamamos quando dizemos mundo e que, no entanto, é o encontro de todas as nossas solidões. Porque, mesmo que não procuremos palavras, acabamos por desconfiar que a incomunicabilidade absoluta existe, até entre nós e nós próprios.
Ainda assim, somos capazes de encontrar muitas justificações para continuar os mesmos equívocos, para sermos incertezas vestidas de fatos, gravatas, ou tailleurs, escolhidos segundo critérios que aprendemos.
Construir sistemas foi a parte mais fácil da nossa tarefa. Encontrar nome para os seus significados será outra das partes. Até lá, essas definições permanecerão enterradas por baixo daquilo que apenas podemos suspeitar quando nos detemos perante um horizonte ou perante uma cena de devastação.
Olhar dessa maneira é um sentido que pertence às crianças, como a reflexão verdadeira é um sentido que pertence aos anciãos. Por isso, somos crianças paradas no extremo de um miradouro, de um cabo sobre o oceano. Tentamos imaginar o universo. Tentamos imaginar o infinito sem conseguirmos perceber que, no infinito do universo, existe um número infinito de mundos, todos eles infinitos em si, comportando mundos infinitamente. Depois, nos intervalos dessa incapacidade, encontramo-nos e somos funcionais. Cumprimentamo-nos à chegada e despedimo-nos à partida.
A civilidade existe para nos guiar mas, ao mesmo tempo, acaba por nos desviar de nós próprios, acaba por dificultar que nos aproximemos de dizer aquilo que é evidente apenas para cada um de nós. Não é difícil concluir que são muito mais as palavras que não podemos dizer do que aquelas que conhecemos. Há fronteiras que ainda não sabemos ultrapassar, que estão connosco, que são nós.
Posso beijar-te?"

José Luís Peixoto

domingo, março 16, 2008

V. em sonho

“O corpo frágil e redondo. O sorriso marmóreo e angelical. O púbis desnudo indicando nossos desejos, satisfeitos no seio da onírica intimidade. Falamo-nos incansavelmente, e por fim, sem dramas acabo por admitir que havia ficado ainda mais amargo e calado depois da brusca partida. (…) Reinventar-te foi reviver novamente aquela paixão perdida. Tantas pessoas são o que gostaríamos apenas no mundo dos sonhos e tantas outras nunca existiram doutro modo. Pouco importava. Foi o nosso encontro mais doce. Sei que continuas existindo. “

Orfeu B

Efeitos secundários...

...a emoção pode causar reacções alérgicas e os espirros podem ser contagiosos...

sexta-feira, março 14, 2008


quinta-feira, março 13, 2008

[NOVO SINGLE 2008] Chão - Mafalda Veiga - Estrada

Acabei de descobrir esta nova música da minha quase homónima.
Há dias assim...

Driving you slow - The Gift

Surprise...surprise!!!

quarta-feira, março 12, 2008

Diana Krall - A Case of You

Bebo eu por ti...enquanto ouço o original daquela senhora que nos faz mexer por dentro.

terça-feira, março 11, 2008

Um lençol é só um lençol

"Todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve de nada.
Ficaram só os papéis e a tristeza, ficou só a amargura e a cinza dos cigarros e da morte.
Os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram suficientes e foram demasiados porque hoje são como sangue no teu rosto, são como lágrimas.
Sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em cada instante, em cada hora,não irei negar isso.
Não irei negar nunca que te amei.
Nem mesmo quando estiver deitado,nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo antes de a foder."

José Luís Peixoto

segunda-feira, março 10, 2008

Let me tell you a secret

Nos últimos dias tenho acompanhado com algum interesse o blog das confissões e segredos Shiuuuuuuuuu. Confesso que me tem surpreendido, quer pela forma, quer pelo conteúdo. O autor/autora do blog agarrou num conceito que reconheço como similar ao Grouphug, mas ao contrário deste, o gosto com que escolhe as imagens com que ilustra os segredos mais íntimos de cada um, revela uma personalidade observadora e uma capacidade inata de contar histórias. Mas, para além da beleza das imagens e da boa música que acompanha a nossa curiosidade de vizinhos, aquilo que mais me espanta é mesmo o conteúdo do que os leitores têm para si como segredos ou confissões.
Esperava encontrar ali infidelidades confessadas, taras, fetiches, coisas ao jeito de “odeio a minha melhor amiga “ (mais comum do que possam imaginar), mas na realidade uma percentagem significativa de segredos ( quando terminar o meu estudo revelo os valores) diz respeito a afectos, amores,paixões e desejos, por confessar.
Confesso, agora eu, que isso é algo que me custa a entender. Tenho alguma dificuldade em conceber que não se confesse o amor ao objecto da nossa afeição, excepto em casos em que isso possa trazer sérios problemas a terceiros. Na minha opinião, não há nada mais bonito do que dizer que se ama, se quer alguém. Mesmo que não se seja correspondido, é a quem ama que entrega desse segredo liberta. Os amores inconfessados são como ferrugem no coração que vai criando camadas sobre camadas e nos impede de ser completamente honestos quando outro objecto de afecto surge. Além disso, o peso da dúvida, daquilo que se guarda é mais danoso do que levar um redondo não ou mesmo uma valente estalada (acreditem que eu sei!). As energias do amor, quando este não é solto, tornam-se tão negativas como o rancor, a raiva, a tristeza.
Concluo que o mundo está mais cheio de paixões inconfessadas que de amores declarados e eu se fosse a vocês, aproveitava o facto de ainda não se pagar imposto sobre esse rendimento, que tanto pode ser a paz de espírito de cada um como a alegria da surpresa.
E para aqueles que consideram ridículo a confissão desmedida de um amor, ainda que indesejado, só relembro que os papeis se invertem com facilidade. O mundo é mesmo muito redondinho e eu ainda tenho esperança de lhe dar volta. Até lá ,solto as minhas bolinhas de sabão de ternura, amor e desejo ao vento, mesmo que o destinatário esteja longe de as poder sentir. Porque sei e essa certeza não me arrancam, me faz melhor a mim do que a ele. Porque o amor se renova e não tem limites mas o ego sim.

Work in progress

Faz hoje 45 dias que decidi abandonar um vicio. Tenho conseguido, ainda que com alguns momentos de ansiedade. Ainda conto os dias, as horas por isso sei que estou longe de estar curada. Mas continuarei a tentar.

sábado, março 08, 2008

Feliz dia da mãe

Logo quando achava que o dia internacional da mulher não podia ser grande espingarda, depois de ter perdido o concerto que mais ambicionava assitir, devido a escolhas inerentes á maternidade eis senão quando a mesma maternidade me faz perceber porque faço eu parte da outra costela com direito a dia festivo.
O meu príncipe perfeito, o meu filho lindo de 8 anos, vindo da festa de anos do seu avô, me oferece uma garrafa de vinho que com o seu jeitinho sonhador e atento cravou ao aniversariante para me oferecer a mim.
Não devo estar a fazer um mau trabalho, concluo de sorriso babado enquanto provo esta prova de amor.

My funny valentine

"Maria...sabes...

O que direi quando a cidade nos cruzar na esquina? Estaremos sós? Será que os olhos se encherão de lágrimas ou brilhos? Será que as palavras serão cuspidas, ou embrulhadas a jeito de significar mais do que realmente significam?

Perco tempo, que não tenho, a pensar em detalhes de conversa como se de deixas importantes se tratasse para dar sentido à peça que já saiu de cena. O último actor continua sentado no palco a interpretar as palmas do público, absorvendo o calor efémero que o aquece na casa vazia e fria, onde o papel de galã se deixa do lado de fora da porta.
Não entendo o silêncio construído ao contrário de ti. A cidade não te esconde por muito que te escondas dela, aprendi com o tempo. Não adianta adiar os regressos aos sítios onde se foi feliz, porque mais cedo ou mais tarde essa mesma memória estará num qualquer beco onde nem te lembras de ter passado.
Por muito politicamente correcto que seja por obrigatoriedade das circunstâncias não entendo, não quero entender.
Talvez ainda te ame.
Talvez.
Mas tenho para mim que este amor não tem destinatário, porque se encontra em parte incerta, no país feito a lápis de cera, de onde nunca saiu.
Do outro lado de mim ris, menino que de rosto afrontado te atira á cara um amor que sufoca, desleixado e desastrado que tenta rotular de meia dúzia de sentimentos escondidos. Fica-se pelo plano dos segredos mal passados de ouvido em ouvido, sussurrados a troco de promessas quase verdadeiras.Afinal de contas o amor é um jogo de probabilidades onde aquilo que mais nos atrai é quase sempre aquilo que nos faz mal.
Não é bonito o espectáculo do amor que não se quer, mas gostamos de o ver para sentir que ainda que o mundo se desmorone alguém nos quer. É uma forma de morbidez similar á que nos faz abrandar quando passamos por um acidente, só para respirar fundo e pensar com os botões “ainda bem que não fui eu ou alguém que amo”!
Convencemo-nos que se trata de uma curisidade altrúista, de quem se preocupa mas no fundo sabemos que não passa de um capricho do ego. Por isso não partes totalmente. Todos os dias te surpreendo atrás da cortina daquela janela que não dá para a rua, á espera de me veres passar e assim perceberes se continuas lá comigo.

As palmadinhas nas costas guarda-as para os amigos cuja amizade não necessitas, mas tens. A pena usa-a para escreveres o que do outro lado de ti luta para equilibrar os dois pés no corpo de gente crescida que se quer sempre funcional. Engana-os a todos com o teu jeito sonhador e o sorriso desenhado a custo de muitas palavras bonitas e versos de outros cantados baixinho. Veste o teu melhor vestido de cerimónia e encanta-os a todos com os teus conhecimentos de lombada e secretária, torna-te a mulher perfeita, a amante disponível, a amiga que leva todos os embates, a falta de respeito, a contenção do abraço mas mesmo assim está lá.

Eu? Esperarei como sempre que o tempo te leve de mim. Que as tuas palavras se percam na renovação dos neurónios até que não sejas mais do que a miúda que adora chapéus. Que a luz se apague por despeito do teu rosto. Que as horas corrompam tudo o que de bom me deste. Que os presentes se percam por mãos alheias. Que outros presentes cheguem. Que outros sorrisos me abracem. Que outros recados povoem as minhas manhãs ao acordar. Que boas noites mais quentes me dispam. Que mãos mais ágeis me guiem.
E, se ainda assim o meu amor por ti permanecer inventarei um final trágico e solitário que combine o teu ar de filme noir, com as lantejoulas de um cabaret e se um dia a cidade insistir, fecharei os olhos e passarei por ti do mesmo modo que passaste pela minha vida…sem tempo."

sexta-feira, março 07, 2008

Rostos no Trânsito

É à luz do final do dia que se começa a despir, por entre corropios do trâsito ou na calmaria das últimas gotas de sol a cair sobre a mesa e a perderem-se no liquido cru do copo, que me assalta essa nostálgia, esse desassossego de alma, que assume por vezes um nome e me acompanha. É no último dia da semana de trabalho que se descansa, onde surge essa vontade louca, irresponsável, insensata, adolescente de mandar para trás das costas as minhas razões e as dos outros, e correr em direcção ao desejo, ao impulso animal que me condena.
Há um momento em que páro e leio o mundo e percebo que ele nem sempre é assim tão linear.
Regresso a casa para o mundo como ele pode ser.

«Às vezes, como náufragos, precisamos de nos agarrar a uma reminiscência banal, para evitarmos que tudo se dissolva na falsa enunciação da memória, na sua trágica encenação de efeitos sem correspondência com a realidade».

António Mega Ferreira, Amor, Lisboa, 2002.

quinta-feira, março 06, 2008

O amor é um burro teimoso!

Uma boa descoberta

Adriana Calcanhotto de regresso aos coliseus
Adriana Calcanhotto vai actuar a 19 e 20 de Maio no Coliseu dos Recreios e a 29 e 30 do mesmo mês no Coliseu do Porto.
A cantora vem apresentar o novo espectáculo «Maré». Para Lisboa, o preço dos bilhetes varia entre os 25 e os 50 euros.
No Porto, entre os 20 e os 50.

quarta-feira, março 05, 2008

Sopros

E então sopro-te ao ouvido “está tudo bem”.
Aperto-te com força e abraço-te inteira, e por segundos tu acreditas.

E todos os momentos em que me entrego ao vicio, lanço no ar recados poetas que me exprimem, que me libertam. E aos poucos vou ficando mais leve, ou mais habituada, talvez. A ausência como qualquer outra circunstância na nossa vida vai-se tornando familiar, vai-se repetindo dia após dia, até se tornar a velha pantufa que parece fazer parte de nós, que nos desconstrói e conforta. Conforta porque sabemos que passou, que ficam apenas memórias simpáticas, lições, sermões e muitas gargalhadas.
Na ausência aprende-se muito. Acima de tudo a nosso respeito. Chocada e tantas vezes, boas, surprendida descubro em mim um outro que me agrada, me desperta e me completa na consciência de mim.

O tempo que vai passando, seguindo em frente é o mesmo que se vai descontando do final. E isso é algo que não me posso permitir esquecer.

terça-feira, março 04, 2008


Schiuuuuuuuu...porque há silêncios que não se podem guardar.
" A vida é uma combinação de coisas que se repetem e de coisas que só acontecem uma vez. O curioso é poderem ser as mesmas. "

desconhecido

sábado, março 01, 2008

Perfect Day




O dia hoje foi um bolo de camadas. Cada uma com o seu cheiro próprio, a sua temperatura, o seu sol, a saborosa calmaria e o pequeno stress controlado. Teve um despertar atribulado mas seguido de um belo pequeno almoço retemperador, com o sol pela cara, a melhor vista que se ambiciona: o sorriso e a alegria da minha filha. As canções na sua boca irrequieta, as suas perguntas inquietantes, as suas ideias tão próprias.

Dançou-se muito. Houve direito a baloiço partilhado e abraços apertados. Tão apertados que se mantêm.

Terminou com uma belissima aula de culinária, dada por uma menina, que mais parecida comigo do que alguma vez imaginei, é pelo menos, mais destemida na cozinha.

Aqui fica o projecto "Biscoito", com um atraso de dias.


Alguém sabe como se alimentam as Joaninhas?

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

February

Para terminar em grande

Prefácio de "O Retrato de Dorian Gray"

"O artista é o criador de coisas belas.
Revelar a arte e ocultar o artista é o objectivo da arte.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outra maneira ou com material diferente a sua impressão das coisas belas.
A mais alta, assim como a mais baixa, forma de crítica é uma autobiografia.
Aqueles que encontram feias significações nas coisas belas são corruptos sem serem encantadores. É um defeito.Aqueles que encontram belas significações nas coisas belas são cultos. Para esses há esperança.
São os eleitos aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Não há livros morais nem imorais. Os livros são bem ou mal escritos. Nada mais.
A antipatia do século XIX pelo Realismo é a raiva de Caliban ao ver a sua cara no espelho.
A antipatia do século XIX pelo Romantismo é a raiva de Caliban por não ver a sua cara no espelho.
A vida moral do homem faz parte do assunto do artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito dum meio imperfeito.
Nenhum artista deseja provar o que quer que seja. Até as coisas verdadeiras se podem provar.Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um imperdoável maneirismo de estilo.
O artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.O pensamento e a linguagem são para o artista instrumento de arte.O vício e a virtude são para o artista materiais de arte.
Sob o ponto de vista da forma, o tipo de todas as artes é a arte do músico.
Sob o ponto de vista do sentimento, o tipo é a profissão do actor.Toda a arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo.Aqueles que descem além da superfície fazem-no com risco seu.O mesmo sucede àqueles que lêem o símbolo.
É o espectador, e não a vida, que a arte realmente reflecte.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte mostra que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo.

Pode-se perdoar a um homem o fazer uma coisa útil, enquanto ele a não admira. A única desculpa que merece quem faz uma coisa inútil é admirá-la intensamente.Toda a arte é absolutamente inútil."

PS: Obrigada.

Lugar reservado no Funicular

Sempre gostei da Bica. Tem uma vista simpática, uma quotidiano rico, caras sorridentes, boa música e gente bonita. Há já algum tempo que escolhi a Rua da Bica de Duarte Belo, como a minha soleira da porta, quando decido que é tempo de sair e ver mundos, rir e beber um copo de vinho.
De início parava pela Bicaense, um lugar sempre bem composto, com boa música e pessoas que, na sua maioria conseguiam ter conversas interessantes, comuns, cheias.
Ultimamente, contudo, descobri que o Funicular me assenta melhor. É mais neglige, mais desprendido, mais sólido e reúne algumas coisas que me fazem escolhe-lo como o meu bar de eleição para carregar baterias antes de descer a rua e regressar ao Jamaica ou ao Tóquio, que para mim, são depósitos de memórias, caras e costumes, feitos em compotas de boa música. A música, a par com as pessoas, são o que me faz escolher um bom sitio. Claro que, o facto de se poder fumar também me faz por de lado qualquer consideração mais tonta a respeito do facto de o espaço ser pequeno, ou a rua demasiado larga para tanta gente.
Ontem, de volta ao Funicular para ouvir um amigo DJ, a colocar música, deparei-me com as Tertúlias Informais. Um espaço, onde amigos, estranhos, figurinhas de passagem e cromos colados á mobília partilham o gosto pelas palavras, na forma de poemas, de textos, de conversas, de debate, de exibição, de exibicionismo ou simplesmente de desabafo.
Tive sorte…a escolha da noite caia me bem. Depois do “Cântico Negro” de José Régio declamado por João Villaret, (o primeiro poema que decorei na minha vida, numa noite de Verão de 1990, e com o qual arrecadei um beijo cinéfilo só possível por um adolescente profundamente enamorado), seguiu-se a leitura do Prefácio do Retrato de Dorian Grey de Óscar Wild, brilhantemente lido, em versão original por um rapaz simpático a quem gosto de chamar Tejo. Apareceu Alberto Caeiro, de novo José Régio, á discussão com Adolfo Luxúria Canibal, a cuscar sobre Sidharta e tantos outros.
Quem entrava acabava por ficar e aprender um pouco mais a troco de nada, e todos se enchiam (alguns a custo de muitos copos) de uma leveza e do ar contente de quem descobre uma pequenina coisa nova que nos surpreende.
No Funicular é assim ás Quintas-feiras.
Numa altura em que começava a pensar que as pessoas interessantes ou melhor pondo, que a mim me interessam, tinham desertado para algum canto recôndito da Ex-URSS, ou para o paraíso ficcional do Alasca, onde os homens crescem em árvores, fico contente de lhes ter apanhado o rasto.
Ás quintas, trazem os amigos, as entoações, as canções, as opiniões e a menos que o piso esteja demasiado molhado, há muitos ainda-desconhecidos-candidatos-a-amigos-ou-a-biblioteca-itenerante, para descer aquela rua com o apelo dos segredos, aos trambolhões.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Certezas sobre mim...

Um indivíduo que se quer coerente e equilibrado deve ter meia dúzia de certezas na vida e algumas manias muito próprias. Pensando, em conjunto com uns amigos sobre quais seriam aquelas que me identificam, chegamos às seguintes conclusões temporárias:

Escrevo como sinto, raramento edito e nunca releio nada que se destine a enviar/entregar alguém (exames, p.ex)
Ainda que saiba o nome correcto digo sempre “tosta mística” e raramente “tosta mista”
Tenho a mania de alterar ditados e provérbios, p.ex: “Chapa feita, chapa gasta” ou “presunção e água benta cada um toma a que pode”
Gosto de vespas coloridas
Não me sento nunca de costas para as portas;
Gosto de andar pela rua a cantar
Gosto de andar à chuva;
Tenho o hábito de colocar alcunhas a todos os amigos e colegas;
De inverno ...uso o cachecol até à hora de ir dormir;
Não Tenho cócegas
Adoro ténis All Star coloridos
Gosto tanto de comer caracóis como em miúda gostava de os colecionar;
Gosto de comer os caroços das cerejas;
Nunca termino completamente uma refeição...deixo sempre uma amostra no prato;
Gosto de Apanhar pirilampos
Adoro apanhar trevos de 4 folhas;
O meu gelado favorito é o Epá;
Adoro Chupa-Chups

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Transvision Vamp - Born To Be Sold

Saudades do Carnaval mais sexy de sempre. Claro que esta não era tão gira!!!
FMH Chicks!

domingo, fevereiro 24, 2008

Non, Je N'ai Rien Oublié - Charles Aznavour

O verdadeiro artista

Hier Encore

Ver esta noite o espectáculo de Charles Aznavour foi sem dúvida o melhor final para o triste, decrépito e patético filme dos últimos dois dias. O amor é aquela fórmula química que salva vidas, cria sonhos, vence batalhas e faz cada um de nós estar aqui, esta noite. Mas quanto mal cozinhado transforma-nos em seres feios, amargos, capazes das maiores maldades que nem o mais profundo desamor justifica.

No entanto, ás vezes o destino dá-nos pequenos bálsamos para reciprocar a alma, e mesmo a maior dor turva e suja, não resiste quando a arte nos cresce diante dos olhos.
Charles Aznavour é o perfeito exemplo dessa forma de arte. Num espectáculo que deixou o pavilhão atlântico de pé e suspenso á sua voz, mostrou que a idade, a velhice é um pormenor sem a mais pequena importância quando o que se faz, é acima de tudo aquilo que se é.
Dono de uma voz bonita e marcada, é acima de tudo um homem de palavras, um actor num roteiro de viagens que transportava todos a momentos únicos de vida. Estava ali como se se tratasse de um velho amigo á mesa de jantar, partilhando histórias, piadas. Ás lágrimas nostálgicas que corriam pela face de quase todos os que me rodeavam, grandes e pequenos, eram poeticamente limpas não por kleenex a jeito no bolso, mas pelo seu humor, a sua dança. Um homem capaz de compor e cantar uma canção com as mãos, é digno de uma profunda admiração.
A energia deste homem de 80 anos, bonito, elegante, leve e cheio de graça fazia qualquer D’zrt morrer de vergonha. Durante 2 horas fez-nos rir, cantar, lembrar e conquistou muitos jovens acompanhantes de senhoras de idade avançada que suspiravam em meteorito.

Eu, que tive a sorte de ficar na fila da frente, fiquei encantada com o seu sorriso e com a forma como junta as palavras, naturais, simples, e nos conduzia a todos com jeitinho. De vez em quando confesso que senti o sorriso dele em mim, que retribuí com as covas do meu queixo bailarino e aspirante a cantor.

Ainda que muito se perca quando não se entende o francês, a beleza da sua melodia e aquilo que transmite com a forma intensa com que se canta, traduz da melhor maneira, o porque de ter sido considerado uma das maiores figuras do século.

sábado, fevereiro 23, 2008

Se fosse assim tão simples...

A prova - parte 3


A Prova- Parte 2


sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Just a girl standing in front of ...a bottle of wine

Queria escrever-te assim...não sei o que te diria. As palavras não parecem suficientes para dar forma a um sentimento que entre o vazio, a saudade, a raiva, o orgulho ferido, o amor, a tristeza, a alegre memória, a dor, o amor…os sentires que se acotevelam em mim. Hoje a tua ausência é a senhora do dia. Manda, desmanda, põe a mesa e parte a loiça.
Não tenho para te amar mais do que breves lembranças espelhadas acima de tudo em palavras escritas na vertigem de um novo sentimento a amanhecer. Não é o teu corpo que me falta, talvez apenas os teus olhos abertos em sorrisos, que de quando em quando espreitam por entre as portas que me obrigo a fechar. Hoje desisti de te esquecer. Baixei os braços, sentei-me no sofá vermelho, debaixo do candeeiro que era teu, escolhi um vinho, abri uma caixa e deixei a saudade soltar-se por entre as palavras que escrevias nuns dias menos chuvosos que hoje.
É a tua voz que me pesa, ou melhor, o vazio que ela deixou. Fecho os olhos por segundos e quase sinto a minha pele arder dos beijos á mistura com a barba por fazer. O teu gosto colou na minha boca no teu nome que prenuncio baixinho, para que não me ouças.
Leio as tuas cartas que ainda hoje me arrancam gargalhadas, agora á mistura com lágrimas. Peço a um Deus no qual não acredito que te leve de mim de uma vez por todas. Que te arranque a ferros deste sonho quebrado que no fundo de um querer bravio, valente e teimoso te prendeu a mim.
Queria-te para mim num quarto da medida que me tens.

One fine day


Enquanto o Diabo esfrega um olho...

Enquanto o Diabo esfrega um olho vai apresentado à discussão os argumentos que o defendem da condenação perpétua a que o vivemos, sem nunca nos termos dado ao trabalho de o ouvir.
Atitude essa praticada por quase todos nós, que julgamos qualquer coisa só porque temos o livre arbítrio que, alguns iluminados, nos garantiram ser obra Dele.
Confesso, contudo, que este é bem mais o meu género: é divertido, mordaz e escreve lindamente.
Uma lufada de ar fresco.
Ainda bem que nem sempre o Diabo é cego, surdo e mudo!

O mundo é uma bola de ping-pong

Pelo facto de ter uma memória considerável para registos de datas e pormenores completamente inúteis e desnecessários, espreitam-me à ideia, situações, momentos, estórias que se conseguem cristalizar numa pequenina dimensão de minutos.
Há 364 dias entrou-me um cisco no olho. O cisco cresceu, a piscadela inevitável surtiu efeito e daí à visão turva foi um saltinho.
Este detalhe puramente insignificante não me teria ocorrido á memória, não fora ontem e também 300 e muitos dias depois, ter regressado à minhã mão, um par de óculos de afeição que eu julgava terem fugido com outro par de óculos entretanto desaparecidos lá para os ares do Bica.
Afinal, os meus amarelinhos estavam aqui mesmo ao meu lado, todos estes dias, nas mãos de alguém que nunca perdeu a ideia de encontrar a dona.
Foi preciso que o governo proibisse o fumo nos locais de trabalho, no dia 1 de Janeiro, para que a troca de bafos ao relento nos aproximasse de rostos que não passavam de números no peso do elevador e estes me tivessem permitido rever os meus óculos de estimação, braço dado com uma companhia para troca de intervalos.

Segredos mal amanhados

A vida continua após cruzar a esquina do teu esquecimento.

Taninos 1 - Espanhol 0

"Como gasto papeles recordandote
como me haces hablar en el silencio,
como no te me quitas de las ganas
aunque nadie me vea nunca contigo.

Y como pasa el tiempo que,
de pronto, son años
sin pasar tú por mí,
detenida.

Te doy una canción si abro una puerta
y de la sombra sales tú.
Te doy una canción de madrugada,
cuando más quiero tú luz.
Te doy una canción cuándo apareces
el misterio del amor,
y si no lo apareces,
no me importa:
yo te doy una canción.

Si miro un poco afuera,
me detengo:
la ciudad se derrumba y yo cantando.
La gente que me odia y que me quiere
no me va a perdonar que me distraiga.
Creen que lo digo todo,
que me juego la vida,
porque no te conocen ni te sienten.

Te doy una canción y hago un discurso
sobre mi derecho a hablar
te doy una canción con mis dos manos
con las mismas de matar.
Te doy una canción y digo patria
y sigo hablando para ti.
Te doy una canción como un disparo
como un libro,
una palabra,
una guerrilla
como doy el amor"

Sílvio Rodrigues

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Pensamento alternativo

"Talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele;talvez a gente veja as coisas ao contrário e a Terra seja como o céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu."

José Luis Peixoto, in 'Nenhum Olhar"

Sometimes You Can't Make It On Your Own

Para ti...it takes one to know one.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

A minha vida dava uma novela Mexicana...

Hoje descobri que a minha vida dava uma novela Mexicana de má qualidade.
Senão vejam:

- O ex-marido sem nada para fazer, marca encontros com o ex-namorado para troca de literatura!
- O ex-namorado vai jantar com a futura mulher do ex-marido para troca de lições.
...e eu ainda tenho que saber?

Mas alguma alma caridosa me diz onde é que eu tenho cola?

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Já não há palavras, já não há amores perfeitos secos em páginas de livros por ler. Gastaste os trevos de 4 folhas, e eu gastei-te a ti…

CHARLES AZNAVOUR - SHE

Antecipando o meu serão de sábado...

Curso de Introdução à Prova de Vinhos

A todos os que por aqui vão passando e principalmente para os que como eu se interessaam pelos vinhos e principalmente para os que querem aprender um pouco mais sobre este tema fascinante, sugiro a participação num evento construtivo, descontraído, divertido, bem vivido e bebido, mas, também barato, porque isto da educação regra geral, fica caro.

No próximo dia 22 de Fevereiro na Fábula Urbis, em Lisboa, irá realizar-se um Curso de Introdução á Prova de Vinhos, leccionado pelo meu bom amigo Miguel Bucellato, qualificado pela 'Wine and Spirits Education Trust', tendo leccionado cursos em Inglaterra (Londres) e Portugal.


Programa:

- Breve introdução sobre o fabrico do vinho.
- Raízes históricas dos vinhos portugueses
- Como provar um vinho.
- Os cinco sentidos utilizados na prova.
- Como se escreve uma nota de prova.
- Prova cega de 8 vinhos representativos das melhores regiões portuguesas.
- Questionário e eleição da nota de prova mais criativa (prémio de uma garrafa para o vencedor).

- Duração: 2 horas. 

- As marcações deverão ser efectuadas até à véspera da realização da sessão.

Preço: € 15,00 por pessoa
Marcações pelo telefone 21 888 50 39
ou
http://fabula-urbis.pt/

A chuva nas pregas do meu lençol

Hoje sonhei-te
deitado sobre o meu regaço no sofã apertado.
As mãos distraidas sobre o teu cabelo grande e despenteado,
como o velho gato que se confunde na almofada.
Lia-te poemas que não querias saber,
contava-te histórias que não querias ouvir,
só para sentir o teu sorriso no colo do meu pescoço,
que levanto displicentemente para te ver desejar,
como ao gosto da ameixa fresca do verão.
Sonhei-te de olhos postos do meu ombro,
brincando com o meu prazer,
ás escondidas pelas minhas costas.
Senti o teu sopro na minha nuca feito maré,
espuma fresca que vai e vem no fundo de mim.
Sonhei-me acordar para te beijar a face e ver-te dormir.
Ouvi-te múrmurar o meu nome, suavemente como quem conta um segredo.
Ardente.
Procurei a tua voz pelas cantos da minha cama.

Não te encontrei.
Encontrei as chuvas ,
miúdas pelas pregas do meu lençol.

Hoje, sonhei que era hoje.

sábado, fevereiro 16, 2008

Uma boca desarmada



Não é todos os dias que se tem a oportunidade de cometer o atrevimento de abrir uma garrafa com um vinho de 137 anos, sem se saber ao que se vai. Ao longo dos vários anos em que me dedico a este bichinho dos vinhos já tive ocasião de provar grandes vinhos que fariam a loucura de outros apredizes de feiticeiro como eu. Já passei os lábios por alguns Barcas Velhas, pelos Perâ Mancas quase todos, por um Vega Secilia, pelo Opus One, mas de todas essas vezes o fiz pelas mãos de alguns mestres que, pelo seu temperamento me prepararam para o que deveria estar á espera.
Os vinhos do Porto e os Licorosos em geral são matéria que por muito que goste, ainda estou a anos luz de poder apreciar e entender de forma consistente.
Tudo isto serve para explicar a nota de prova que escreverei de seguida, dividida em duas partes, com uma decalage de 24 horas.
Esperei muitos meses para abrir esta garrafa que me fora oferecida, na expectativa de encontrar o momento ideal, a circunstância, a companhia para celebrar este momento tão único. Contudo a verdade é que os momentos ideais são apenas um capricho de uma mente ociosa e assim, a decisão de ir em frente surgiu por ela própria. A companhia essa sim, não poderia ser mais ideal, quando as pessoas partilham as mesmas paixões.
Parecíamos dois putos a tentar vestir de responsabilidade de gente crescida todo o processo de abrir a garrafa e degustar o néctar aprisionado por tantos anos.
O lacre da garrafa já estava partido e a rolha aparentava não ter solidez suficiente para aguentar o ScrewPull, mas a necessidade faz o engenho e com muita persistência e cuidado lá conseguimos retirá-la, ainda que bastante danificada. A cortiça era de boa qualidade o que era por si só um bom augúrio.
Não fazia ideia do que esperar de um vinho que apesar de ser da colheita de 1871, poderá ter sido engarrafado anos mais tarde.
O Vinho em questão era uma produção particular de Joaquim Francisco dos Santos, com a designação autorizada de Vinho Velho do Douro.
O primeiro embate de nariz deixou-nos estarrecidos. Em vez do avinagrado que no fundo esperávamos encontramos um perfume marcado de frutos secos, com bastantes notas de nozes e alguns aromas a marmelo assado. O álcool quase não se sentia e á medida que foi abrindo o vinho foi libertando aromas mais subtis, limpos e bastante atraentes.
Na cor encontramos uma paleta a meio termo entre um o bronze e notas de cor de barro, numa limpidez e brilho surpreendentes para a idade e o estado de conservação da garrafa.
O primeiro gole desfez qualquer dúvida. Tratava-se de um excelente porto, com uma elegância do compromisso entre o álcool e a fruta. Um corpo elegante, ainda que com uma lágrima pouco marcada. Foi uma aposta ganha.

Romantically holpless como sou não consigo deixar de pensar na vida que este vinho viveu, nas mãos por que passou, das viagens que fez ao longo destes 137 anos. Gosto de pensar que foi feito com amor, porque foi assim que foi bebido, por quem ama o vinho e o próximo com a mesma lata, paixão e ingenuidade de criança. Sobreviveu á monarquia, á Instauração da Republica, á ditadura, a duas guerras mundiais, ao 25 de Abril, ao meu nascimento…para acabar aqui descansado ao meu lado enquanto escrevo estas pequeninas notas.
Assim vale a pena viver.

Um brinde a todos.

Esta é só uma noite para...


....provar um grande vinho com 137 anos!!!!

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

John Mayer: Say (music video from

Te desejo

DESEJOS

Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humo
rSábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

Carlos Drummond de Andrade

Definitivamente

"O álcool não faz as pessoas fazerem melhores as coisas; ele faz com que elas fiquem menos envergonhadas de fazê-las mal."


William Osler

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Quem sabe ...sabe!

"O Conhecimento e a educação sensorial apurada podem obter do vinho prazeres infinitos."

(Death in the Afternoon)


"O vinho é uma das substâncias mais civilizadas do mundo, uma das coisas materiais que foram levadas ao mais alto grau de perfeição e que oferece a maior variedade de prazeres e de satisfações que qualquer outra que se possa comprar com intenções puramente sensoriais."

Ernest Hemingway

Para que não restem dúvidas

"O enólogo é aquele que, diante do vinho, toma decisões e o enófilo é o homem que, diante das decisões, toma vinho!".

GROFF, LUIZ

No avesso das palavras

Confissões atrasadas são como aromas de um vinho envelhecido em garrafa por muitos anos estático na prateleira. Quando lhe abres a boca é cheirá-las rápido porque depressa se vão.
Mas apesar de tudo, o contéudo justifica a paciência do decantar dos silêncios que se abrem.
Obrigada taralhoco por esta carta.

Yes We Can - Barack Obama Music Video

Mas será que nunca teremos um destes?

Cuidado com os pedidos ao Valentim..

....talvez os velhinhos frigoríficos tenham mais utilidade.


DEFINIÇÕES DE MARIDO!...


Sabe o que é um marido DVD?> É aquele que se Deita, Vira e Dorme.

E um marido DVD + R?> - É aquele que se Deita, Vira, Dorme e Ressona.

E um marido CD?> - É aquele que só Come e Dorme.

Moral da história...

NÃO HÁ COMO OS ANTIGOS VHS...- Várias Horas de Sexo.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

E porque aprender ás vezes não custa nada...

Ultimamente tenho voltado ás origens e graças ao regresso do meu partner,aprendiz de feitiçeiro como eu, os vinhos têm sido o o grande despertar.(Não pensem já que é vê-la a cair grossa pelos cantos, porque infelizmente como sabem os meus amigos, não consigo chegar a esse brilhante estado de assimilação, embora de vez em quando tente!).
Depois de por circunstãncias várias ter deixado a um canto esquecida esta paixão da prova dos vinhos, outrora meio de sustento, constatei que isto de conhecer/reconhecer o fruto do suor dos outros em dias de inspiração, se complica com os períodos de longas ausências.
Olhando para a prateleira da garrafeira, percebo que me passaram a perna e agora há que desatar a correr para conseguir chegar ás novidades do momento, que vão muito além, graças a Deus e a uma boa memória e boca simpática, que os Pintas, os Chriseias ou Preta que desfilam por aí á boca cheia.

Munida de termômetro, disponibilidade mental, Moleskine e uma boa dose de água fresca é vê-la armada ao pingarelho a abanar copos a bocejar de cara á banda, pelas várias provas a que gentilmente me convidam.

E porque não sou uma miúda egoísta (nem sequer miúda, hoje em dia), e acho, convictamente que isto do vinho é para todos os que tenham uma mente aberta e não se importam, muito, de andar de transportes públicos, alerto os estimados eleitores e enófilos compulsivos para mais uma prova de vinhos promovida pela ViniPortugal, próximo fim de semana, nas Amoreiras, durante todo o horário de funcionamento do Centro.

Lá encontrarão, este fim-de-semana, os vinhos da Bairrada. Não são uma aposta fácil para iniciantes, mas para quem quiser aprender mais sobre a temàtica terei todo o gosto em dar uma mãozinha e partilhar os meus, ainda incipientes, conhecimentos.

Brevemente apresentarei aqui um pequeno programa dos cursos de Introdução à Prova de Vinhos, direcionados para iniciados e que são sempre uma maneira simpática e barata de animar um jantar de amigos em vossa casa, ao mesmo tempo que se descobrem uns títulos interessantes para impressionar qualquer belo jantar de familia.

Até lá...bebam um copito. A terra agradece e eu também.

P.s...meninas não se acanhem!

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

O amor num calendário

A propósito do Valentim tenho pensado muito no amor. O amor está na moda, definitivamente. Todos querem amar e ser retribuidos na medida que sonharam, ou então contentarem-se, em tempo de saldos, com a medida do possível.
Á laia de "As good as it gets", tive recentemente e por mais do que uma vez, ocasião de debater com alguns dos protagonistas das falhadas histórias de amor que vivi, umas longas e vividas em extremos outras que não passaram de simples enfatuations, as razões do fracasso de tais projectos. De onde menos esperava ouvi a melhor resposta, ou pelo menos aquela que me coube na carapuça, entre o espanto das suas palavras e o incrédulo do meu coração que ali a um canto ainda está a digerir.
Perguntei-lhe se alguma vez me amara.Riu-se alto e chamou-me tonta. Claro que sim. Primeiro apaixonara-se sem razão nenhuma, para além do facto de eu lhe assentar bem. Não eram preciso justificações para se estar bem. Estavamos ali, eramos jovens e fazia sentido. Bastava.
Meia envergonhada perguntei-lhe porque se afastára. Olhou-me com cara de poucos amigos e acusou-me de ser esquecida. Eu é que o mandára embora.Não uma, não duas, nem sequer três vezes. A partir de algum tempo cansara-se de me tentar mostrar que me queria. Eu não queria ver.
Ainda que as palavras dele me tivessem adulado o ego, anos depois de tantas outras palavras terem ficado por estas páginas penduradas á espera que ele as visse, a verdade é que fizeram mossa.
Pouco convencida procurei outra outra vítima do meu afecto, para fazer as mesmas perguntas. Nem precisei de muitas perguntas dissimuladas para que me atirasse á cara um chorrilho de ideias fundamentadas por quem passou muito tempo a pensar no assunto. Acusou-me de não querer ser feliz e boicotar constantemente qualque tentativa de me deixar amar. Que não sei confiar, que não acredito, que nada para mim é sagrado e essa é a verdadeira causa do meu desamor.Mas deu-me os parabéns, por tantos homens bons que tentaram.

Numa altura em que a vida me dá a maior lição que se pode receber, questiono o meu passado e estas outras relações de forma quase obsessiva para confirmar uma teoria que há muito se vinha elaborando nos intervalos da dor. É doloroso perceber que em verdade eu fui e sou até, uma mulher muito amada. Talvez nem sempre da melhor maneira ou pelos melhores motivos, mas, de facto bastante querida por homens, que hoje me parecem realmente Principes Encantados.
Afinal,não sou apenas uma miúda com olhos "inclinados á remela", que sempre se apaixonou por homens inacessíveis ou de fracas convicções. Os homens eram bons, o amor é que tinha defeito, mas vinha de origem.
Aqui sentada enquanto escrevo um pouco mais de mim, nestas memórias virtuais que servirão brevemente de testemunho para os meus filhos, confesso:
- Eu não sei amar, pelo simples facto de que não sei, não consigo sentir-me amada. Mesmo em momentos em que o bem- estar era supremo, em que a plenitude me inundava, encontrei sempre um motivo para não acreditar na longevidade do afecto. Curiosamente retrospectivando, percebi que a todos os homens que amei acabei por lhes dar guia de marcha. Todos excepto o primeiro, aos meus treze anos. Creio, se as minhas básicas capacidades de psicalistas me permitem,a presunção, que o fiz pela antecipação da perda. Nunca os amei menos por os ter deixado. Antes pelo contrário. Insisti com cada um deles o tempo que me foi possível e a todos amei com a maior convicção do momento. Para todos quis ser a primeira e a última.
Estranhamente senti a dor da ausência, do frio cortante da saudade que embarga a voz e rebenta na alma. De todos fiz um luto longo e contagiante.

A triste verdade é que o amor não me convence. Não chega cá ao fundo. Acredito nele enquanto os olhos se enchem de cor e da ilusão da sedução, ou os ouvidos se derretem com palavras bonitas mais distantes da prática do que a terra do sol. Mas quando os olhos já se habituaram ao excesso de luzes e o silêncio se impõe, o amor choca com a barreira e vai, a cada investida perdendo as forças.
Nessa altura eu, convencida que o que se avizinha pode ser cruel, apanho os cacos, limpo-os e devolvo o amor á proveniência para que o ofereça a outra.
Vou para casa remendar o muro que aos poucos vai parecendo um mural retalhado de rostos e memórias de um amor que nunca chegou a ser.

Por isso Valentim não insistas por favor, que do meu lado ainda se empacota, por entre cartas perfumadas, e imagens coloridas, os restos do último amor.


"Para quem se vai embora é sempre mais fácil. Pelo menos, muda de ares. Quem fica tem de respirar os restos de epiderme polvilhados sobre os móveis da casa."

José Luís Peixoto

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Um beijo encharcado em gewurtztraminer!

Sonhando debaixo de Nuvens verdes

As coisas que imaginamos


"Quando nos deitamos no sofá, o peso precioso da tua cabeça
sobre o meu colo, não há limite para as coisas que imaginamos.
Imaginamos que atravessamos uma ponte sobre o rio.
Imaginamos que somos a chuva a cair sobre o jardim.
Imaginamos o tempo onde está o nosso filho.
Imaginamos o lugar onde adormece.
Deitados no sofá, sabemos que anoiteceu lá fora, e
sabemos que a pele do nosso filho nasce sob a tua pele.
Imaginamos cada pormenor do seu rosto.
Imaginamos os seus olhos grandes.
Imaginamos que somos três a imaginar.

José Luís Peixoto (poema inédito), emprestado por http://quintasdeleitura.blogspot.com/

Diz que sim...uma única vez

"Gosto de dizer que sim. Dizer que sim é querer resolver problemas, é seguir em frente, é lançar-se sem medo, rejeitar as amarras da auto-preservação. Sim, gosto de fazer planos e projectos, gosto de imaginá-los concretizados. Não gosto de dizer que não. As pessoas que dizem que não desagradam-me desde os primeiros instintos.
(...) Eu digo sempre que sim. E em cada uma dessas vezes, quero ser surpreendido. É isso que espero."
- Hoje Não (José Luís Peixoto)

sábado, janeiro 26, 2008

E em resposta...não. Não tenho nada melhor para fazer.

Avisos á navegação

1-Se procuram críticas de bons filmes...posso sugerir algum outro blog e desejar boas sessões.

2-Se procuram critícas literárias, bem fundamentadas por leitores compulsivos e cheios de frases espirituosas...a resposta é idêntica á primeira.

3-Se procuram informações sobre gatos persas...lamento, mas aqui para além de uma foto não existe mais nada. Eu até nem simpatizo com gatos.

4-Se procuram contos eróticos ou descrições de encontros clandestinos ao melhor estilo da porno-chachada-intelectual, sugiro que procurem blogs que comecem por pusssy ou trintona sexy ou algo do género. Eu até sou daquelas que acha que o sexo é sobrevalorizado.

5-Se procuram informações sobre o programa de filosofia do 11º ano, lamento mas trata-se apenas de uma coincidência de estilo, já que apesar de lá ter passado continuo a não entender nada da mesma.

6-Se procuram mensagens ou massagens ao ego, desculpem-me mas para esse peditório já dei o suficiente.

Então... e para que serve este blog? Para mim, para arrumar ideias, para me descobrir ao longo dos anos. Por isso e para os visitantes de passagem, não percam tempo e vão ler um livro que sempre aprendem um pouco mais. E leiam tudo...até a Margarida Rebelo Pinto, aqui não se tecem considerações sobre gostos alheios. E se depois quiserem opinar ou discutir o assunto, ai sim podem voltar.

A Closer Tribute

Finally Closer...

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Nem sempre é bom ter o que se deseja

"Querer alguém, ou alguma coisa, é muito fácil. Mesmo assim, olhar e sentirmo-nos querer, sem pensar no que estamos a fazer, é uma coisa mais bonita do que se diz.
Antes de vermos a pessoa, ou a coisa, não sabíamos que estávamos tão insatisfeitos. Porque não estávamos. Mas, de repente, vemo-la e assalta-nos a falta enorme que ela nos faz. Para não falar naquela que nos fez e para sempre há-de fazer. Como foi possível viver sem ela? Foi uma obscenidade.
Querer é descobrir faltas secretas, ou inventá-las na magia do momento. Não há surpresa maior.O que é bonito no querer é sentirmo-nos subitamente incompletos sem a coisa que queremos. Quanto mais bela ela nos parece, mais feios nos sentimos. Parte da força da nossa vontade vem da força com que se sente que ela nunca poderia querer-nos como nós a queremos. Querer é sempre a humilhação sublime de quem quer.
Por que razão não nos sentimos inteiros quando queremos? É porque a outra pessoa, sem querer, levou a parte melhor que havia em nós, aquela que nos faz mais falta. É a parte de nós que olha por nós e nos reconcilia connosco. Quanto mais queremos outra pessoa, menos nos queremos a nós...
Querer é mais forte que desejar, pelo menos na nossa língua. Querer é querer ter, é ter de ter. Querer tem mesmo de ser. Na frase felicíssima que os Portugueses usam, "o que tem de ser tem muita força". Desejar tem menos. É condicional. Quem deseja, desejaria. Quem deseja, gostaria.
Seria bom poder ter o que se deseja, mas o que se deseja não dá vontade de reter, se calhar porque são muitas as coisas que se desejam e não se pode ter todas ao mesmo tempo.Querer é querer ter e guardar, é uma vontade de propriedade; enquanto desejar é querer conhecer e gozar, é uma vontade de posse. O querer diminui-nos, mas o desejar não.
Sabemos que somos completos quando desejamos - desejamos alguém de igual para igual. Quando queremos é diferente - queremos alguém com a inferioridade de quem se sente incapacitado diante de quem parece omnipotente. O desejo é democrático, mas o querer é fascista.O que desejamos, dava-nos jeito; o que queremos fez-nos mesmo falta.
Mas tanto desejar como querer são muito fáceis. Ter, isto é, conseguir mesmo o que se quer é mais difícil. E reter o que se tem, guardando-o e continuando a querê-lo, tanto como se quis antes de se ter, é quase impossível.
Há qualquer coisa que se passa entre o momento em que se quer e o momento em que se tem. O que é?"Cada pessoa, - dizia Oscar Wilde, - acaba por matar a coisa que ama". Mata-a, se calhar, quando sente que a tem completamente. (...)
A verdade, triste, é que uma pessoa completa, a quem não falta nada, não é capaz de querer outra pessoa como deve ser. No momento em que se sente que tem o que quer, foi-lhe devolvida a parte que lhe fazia falta e passou a ter tudo em casa outra vez. Fica peneirenta, sente-se gente outra vez. É feliz, está satisfeita e deixou de ser inferior à sua maior necessidade. O ter destrói aquilo que o querer tinha de bonito. Uma necessidade ocupa mais o coração, durante mais tempo, que uma satisfação.
Querer concentra a alma no que se quer, mas ter distrai-a. Nomeadamente, para outras coisas e outras pessoas que não se têm. (...)É bom que se continue a julgar que aquilo de que se precisa é exterior a nós. Só quem está voltado sobre si, piscando o olho ao umbigo, pode achar que tem tudo o que precisa. (...)
Quando se quer realmente, dar-se-ia tudo por ter. A coisa ou a pessoa que se quer têm o valor imediato igual a todas as coisas e pessoas que já se têm. Trocavam-se todas as namoradas, ou todos os namorados, que já se namoraram, pelo namoro de uma única pessoa que se quer namorar. É esta a violência. É esta a injustiça. Mas é esta também a beleza.
Quem aceitaria que um novo amor significasse apenas parte de uma vida? Não sendo a vida inteira, não sendo tudo o que importa, numa dada altura, num dado estado do coração, porque nos havíamos de ralar? (...)
O querer é bonito porque, concentrando-se na coisa ou na pessoa que se quer, elimina o resto do mundo. O resto do mundo é uma entidade muito grande que tem graça e tem valor eliminar.Querer um homem em vez de todos os outros homens, uma mulher em vez de todas as outras mulheres é fazer a escolha mais impossível e bela. Acho que se pode ter tudo o que se quer de muitas pessoas ao mesmo tempo, mas que não se pode querer senão uma pessoa.Ter todas as pessoas não chega para nos satisfazer, mas basta querer só uma, e não a ter, para nos insatisfazer.
É por isso que se tem de dar valor à vontade. Poder-se-á querer ter alguém, sem querer também ser querido por essa pessoa? Eu não sei.Como raramente temos o que queremos ter ou queremos bem ao que temos, é boa ideia dar uma ideia da atitude que se pretende. Em primeiro lugar, convém mentalizarmo-nos que querer é desejável só por si, pelo que querer significa. Quem tem tudo e não quer nada é como quem é amado por todos sem ser capaz de amar ninguém. Dizer e sentir "eu quero" é reconhecer, da maneira mais forte que pode haver, a existência de outra pessoa e de nós. Eu quero, logo existes. Eu quero-te, logo existo.
Em segundo lugar, ter também não é tão bom como se diz. Ter alguém ocupa um espaço vital que às vezes é mais bonito deixar vazio. (...)
Ter o que se quis não é tão bom como se diz, nem querer o que não se tem é assim tão mau. O segredo deve estar em conseguir continuar a querer, não deixando de ter. Ou, por outras palavras, o melhor é continuar a ser querido sem por isso deixar de ser tido. O que é que todos nós queremos, no fundo dos fundos? Queremos querer. Queremos ter. Queremos ser queridos. Queremos ser tidos. É o que nos vale: afinal queremos exactamente o que os outros querem. O problema é esse."

in OS MEUS PROBLEMAS, MIGUEL ESTEVES CARDOSO

Primeiro amor (re)visitado....

Ela voltou do passado dele e fez-se presente…ele anuiu e compriu o desejo, baixou as armas e deixou-se derrotar na batalha entre o amor e o orgulho. Não se lembrava o que tanto o atraia nela. Dela guardara, anos a fio, memórias soltas em palavras que lhe escrevia nos intervalos da raiva. Ela viu nele a sua juventude já um pouco gasta e, deitando por terra os sorrisos que o esperavam em casa pôs-se em fuga rumo a um caminho cheio de retratos, canções, suspiros e provocações.

Rejuvenesceu e fugiu pelo corpo dela. Embrulhados em lençóis novos saciou-se de cheiros e vontades, construíram planos, perspectivas e expectativas que se cumpriam tarde mas ainda a tempo. Ela adiava-lhe o tempo e evitava o frio do fim.

Lá fora a vida seguia em sessão contínua. Mas ali, os novos amantes revisitados invertiam os ponteiros e deixavam-se dormir.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Versos Perdidos

"Es justamente este momento en el que siento,
que tengo los labios secos y ello gracias a tu boca,
donde un dìa me besaste de noche con tu suave aliento,
no vi motivo para arruinar aquel hermoso encuentro,
esperè esperè y esperè como espera una roca,
pero ya hace surcos mi fatiga en la arena del desierto,
asì me quedarè aquì hasta que a la deriva lleguarè a tu puerto"

Jorge Martinez

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Cabo de Hornos Cabernet Sauvignon 2002- Vinã San Pedro



Graças a um operário em construção, está noite o jantar promete. A minha queda para a culinária, não me permite ir muito mais longe do que a conhecida Massinha com Bacon e Natas e com um pouco de sorte...uma saladinha da praxe. Mas hoje, o vinho é a refeição principal, porque este Cabernet Sauvignon, proveniente de vinhas com 60 anos e envelhecido em Carvalho Francês, ligeiramente tostado, com aromas a mirtilho e amora negra, café e fumos adocicados, enche toda uma mesa.Concentrado embora não demasiado encorpado, possui uns taninos elagantes e uma presença de adstringência bastante subtil.

Este vinho transporta-me a uma magnífica viagem ao Chile, onde o provei em primeira mão e tráz com ele uma palete de private jokes, memórias boas, muitas asneiras e o fim de tarde mais imponente que vi.
Como não sei fazer sobremesas escolhi para relaxar depois do repasto, uma companhia que também adora vinho...o mais famoso ugly sexy, Gerard Depardieu, aqui acompanhado por uma cota que já viu melhores dias ,Catherine Deneuve, no filme sugerido pelo Paulo Branco (ou não fosse ele o Produtor), "Os Tempos que Mudam".
Espera-se uma noite tranquila, ligeiramente enublada e com aguaceiros pontuais...

O Moleskine e eu

"Levo-te dentro da Algibeira
todas as manhãs ao sair de casa,
todas as tardes ao voltar.
Mesmo quando pareço despido,
quando pareço não ter algibeiras,
estás na algibeira do sonho,
no território da paz.
Levo-te onde couber o amor."

Ignacio Anzoátegui

terça-feira, janeiro 22, 2008

Landslide - Fleetwood mac

Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas

"Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltassesem busca desses antigos recados levados pelo tempo:

Vamos para casa?
O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa.
Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui,
mas poderei dizer que, pelo menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes."


Maria do Rosário Pedreira in «366 poemas que falam de amor»

Para quem gosta de nuvens




Agradecimentos sinceros pela contribuição indirecta do Mike, para que os nossos jantares sejam um pouco mais animados..

Passa ai o SG!

O que direi olhando para ti…

...dependerá sempre de cada olhar.


A vantagem de se ter tempo, subitamente livre, ainda qua não pelos melhores motivos, é que nos dá espaço para descobrirmos novas coisas. Para além de ter percebido que não passo duma SALT(Y), encontrei uma belíssima companhia.

Este filme apresentado por Rodrigo Garcia, abusa da poesia como as palavras do pai,um complemento perfeito para uma união, Gabriel Garcia Marques . Um filme sobre mulheres nos seus diferentes estados, à beira do sólido, do desiquilibrio, do confronto. Personagens densas e marcadas em interpretações naturais e bastante simples. Com um ritmo tranquilo e musicado. Com Glenn Close, Cameron Diaz , Calista Flockhart, Holly Hunter, Kathy Baker.

5 histórias ancoradas em detalhes e coincidências.

A ver, na minha opinião mainstream.