sábado, fevereiro 16, 2008

Uma boca desarmada



Não é todos os dias que se tem a oportunidade de cometer o atrevimento de abrir uma garrafa com um vinho de 137 anos, sem se saber ao que se vai. Ao longo dos vários anos em que me dedico a este bichinho dos vinhos já tive ocasião de provar grandes vinhos que fariam a loucura de outros apredizes de feiticeiro como eu. Já passei os lábios por alguns Barcas Velhas, pelos Perâ Mancas quase todos, por um Vega Secilia, pelo Opus One, mas de todas essas vezes o fiz pelas mãos de alguns mestres que, pelo seu temperamento me prepararam para o que deveria estar á espera.
Os vinhos do Porto e os Licorosos em geral são matéria que por muito que goste, ainda estou a anos luz de poder apreciar e entender de forma consistente.
Tudo isto serve para explicar a nota de prova que escreverei de seguida, dividida em duas partes, com uma decalage de 24 horas.
Esperei muitos meses para abrir esta garrafa que me fora oferecida, na expectativa de encontrar o momento ideal, a circunstância, a companhia para celebrar este momento tão único. Contudo a verdade é que os momentos ideais são apenas um capricho de uma mente ociosa e assim, a decisão de ir em frente surgiu por ela própria. A companhia essa sim, não poderia ser mais ideal, quando as pessoas partilham as mesmas paixões.
Parecíamos dois putos a tentar vestir de responsabilidade de gente crescida todo o processo de abrir a garrafa e degustar o néctar aprisionado por tantos anos.
O lacre da garrafa já estava partido e a rolha aparentava não ter solidez suficiente para aguentar o ScrewPull, mas a necessidade faz o engenho e com muita persistência e cuidado lá conseguimos retirá-la, ainda que bastante danificada. A cortiça era de boa qualidade o que era por si só um bom augúrio.
Não fazia ideia do que esperar de um vinho que apesar de ser da colheita de 1871, poderá ter sido engarrafado anos mais tarde.
O Vinho em questão era uma produção particular de Joaquim Francisco dos Santos, com a designação autorizada de Vinho Velho do Douro.
O primeiro embate de nariz deixou-nos estarrecidos. Em vez do avinagrado que no fundo esperávamos encontramos um perfume marcado de frutos secos, com bastantes notas de nozes e alguns aromas a marmelo assado. O álcool quase não se sentia e á medida que foi abrindo o vinho foi libertando aromas mais subtis, limpos e bastante atraentes.
Na cor encontramos uma paleta a meio termo entre um o bronze e notas de cor de barro, numa limpidez e brilho surpreendentes para a idade e o estado de conservação da garrafa.
O primeiro gole desfez qualquer dúvida. Tratava-se de um excelente porto, com uma elegância do compromisso entre o álcool e a fruta. Um corpo elegante, ainda que com uma lágrima pouco marcada. Foi uma aposta ganha.

Romantically holpless como sou não consigo deixar de pensar na vida que este vinho viveu, nas mãos por que passou, das viagens que fez ao longo destes 137 anos. Gosto de pensar que foi feito com amor, porque foi assim que foi bebido, por quem ama o vinho e o próximo com a mesma lata, paixão e ingenuidade de criança. Sobreviveu á monarquia, á Instauração da Republica, á ditadura, a duas guerras mundiais, ao 25 de Abril, ao meu nascimento…para acabar aqui descansado ao meu lado enquanto escrevo estas pequeninas notas.
Assim vale a pena viver.

Um brinde a todos.

Esta é só uma noite para...


....provar um grande vinho com 137 anos!!!!

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

John Mayer: Say (music video from

Te desejo

DESEJOS

Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humo
rSábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

Carlos Drummond de Andrade

Definitivamente

"O álcool não faz as pessoas fazerem melhores as coisas; ele faz com que elas fiquem menos envergonhadas de fazê-las mal."


William Osler

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Quem sabe ...sabe!

"O Conhecimento e a educação sensorial apurada podem obter do vinho prazeres infinitos."

(Death in the Afternoon)


"O vinho é uma das substâncias mais civilizadas do mundo, uma das coisas materiais que foram levadas ao mais alto grau de perfeição e que oferece a maior variedade de prazeres e de satisfações que qualquer outra que se possa comprar com intenções puramente sensoriais."

Ernest Hemingway

Para que não restem dúvidas

"O enólogo é aquele que, diante do vinho, toma decisões e o enófilo é o homem que, diante das decisões, toma vinho!".

GROFF, LUIZ

No avesso das palavras

Confissões atrasadas são como aromas de um vinho envelhecido em garrafa por muitos anos estático na prateleira. Quando lhe abres a boca é cheirá-las rápido porque depressa se vão.
Mas apesar de tudo, o contéudo justifica a paciência do decantar dos silêncios que se abrem.
Obrigada taralhoco por esta carta.

Yes We Can - Barack Obama Music Video

Mas será que nunca teremos um destes?

Cuidado com os pedidos ao Valentim..

....talvez os velhinhos frigoríficos tenham mais utilidade.


DEFINIÇÕES DE MARIDO!...


Sabe o que é um marido DVD?> É aquele que se Deita, Vira e Dorme.

E um marido DVD + R?> - É aquele que se Deita, Vira, Dorme e Ressona.

E um marido CD?> - É aquele que só Come e Dorme.

Moral da história...

NÃO HÁ COMO OS ANTIGOS VHS...- Várias Horas de Sexo.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

E porque aprender ás vezes não custa nada...

Ultimamente tenho voltado ás origens e graças ao regresso do meu partner,aprendiz de feitiçeiro como eu, os vinhos têm sido o o grande despertar.(Não pensem já que é vê-la a cair grossa pelos cantos, porque infelizmente como sabem os meus amigos, não consigo chegar a esse brilhante estado de assimilação, embora de vez em quando tente!).
Depois de por circunstãncias várias ter deixado a um canto esquecida esta paixão da prova dos vinhos, outrora meio de sustento, constatei que isto de conhecer/reconhecer o fruto do suor dos outros em dias de inspiração, se complica com os períodos de longas ausências.
Olhando para a prateleira da garrafeira, percebo que me passaram a perna e agora há que desatar a correr para conseguir chegar ás novidades do momento, que vão muito além, graças a Deus e a uma boa memória e boca simpática, que os Pintas, os Chriseias ou Preta que desfilam por aí á boca cheia.

Munida de termômetro, disponibilidade mental, Moleskine e uma boa dose de água fresca é vê-la armada ao pingarelho a abanar copos a bocejar de cara á banda, pelas várias provas a que gentilmente me convidam.

E porque não sou uma miúda egoísta (nem sequer miúda, hoje em dia), e acho, convictamente que isto do vinho é para todos os que tenham uma mente aberta e não se importam, muito, de andar de transportes públicos, alerto os estimados eleitores e enófilos compulsivos para mais uma prova de vinhos promovida pela ViniPortugal, próximo fim de semana, nas Amoreiras, durante todo o horário de funcionamento do Centro.

Lá encontrarão, este fim-de-semana, os vinhos da Bairrada. Não são uma aposta fácil para iniciantes, mas para quem quiser aprender mais sobre a temàtica terei todo o gosto em dar uma mãozinha e partilhar os meus, ainda incipientes, conhecimentos.

Brevemente apresentarei aqui um pequeno programa dos cursos de Introdução à Prova de Vinhos, direcionados para iniciados e que são sempre uma maneira simpática e barata de animar um jantar de amigos em vossa casa, ao mesmo tempo que se descobrem uns títulos interessantes para impressionar qualquer belo jantar de familia.

Até lá...bebam um copito. A terra agradece e eu também.

P.s...meninas não se acanhem!

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

O amor num calendário

A propósito do Valentim tenho pensado muito no amor. O amor está na moda, definitivamente. Todos querem amar e ser retribuidos na medida que sonharam, ou então contentarem-se, em tempo de saldos, com a medida do possível.
Á laia de "As good as it gets", tive recentemente e por mais do que uma vez, ocasião de debater com alguns dos protagonistas das falhadas histórias de amor que vivi, umas longas e vividas em extremos outras que não passaram de simples enfatuations, as razões do fracasso de tais projectos. De onde menos esperava ouvi a melhor resposta, ou pelo menos aquela que me coube na carapuça, entre o espanto das suas palavras e o incrédulo do meu coração que ali a um canto ainda está a digerir.
Perguntei-lhe se alguma vez me amara.Riu-se alto e chamou-me tonta. Claro que sim. Primeiro apaixonara-se sem razão nenhuma, para além do facto de eu lhe assentar bem. Não eram preciso justificações para se estar bem. Estavamos ali, eramos jovens e fazia sentido. Bastava.
Meia envergonhada perguntei-lhe porque se afastára. Olhou-me com cara de poucos amigos e acusou-me de ser esquecida. Eu é que o mandára embora.Não uma, não duas, nem sequer três vezes. A partir de algum tempo cansara-se de me tentar mostrar que me queria. Eu não queria ver.
Ainda que as palavras dele me tivessem adulado o ego, anos depois de tantas outras palavras terem ficado por estas páginas penduradas á espera que ele as visse, a verdade é que fizeram mossa.
Pouco convencida procurei outra outra vítima do meu afecto, para fazer as mesmas perguntas. Nem precisei de muitas perguntas dissimuladas para que me atirasse á cara um chorrilho de ideias fundamentadas por quem passou muito tempo a pensar no assunto. Acusou-me de não querer ser feliz e boicotar constantemente qualque tentativa de me deixar amar. Que não sei confiar, que não acredito, que nada para mim é sagrado e essa é a verdadeira causa do meu desamor.Mas deu-me os parabéns, por tantos homens bons que tentaram.

Numa altura em que a vida me dá a maior lição que se pode receber, questiono o meu passado e estas outras relações de forma quase obsessiva para confirmar uma teoria que há muito se vinha elaborando nos intervalos da dor. É doloroso perceber que em verdade eu fui e sou até, uma mulher muito amada. Talvez nem sempre da melhor maneira ou pelos melhores motivos, mas, de facto bastante querida por homens, que hoje me parecem realmente Principes Encantados.
Afinal,não sou apenas uma miúda com olhos "inclinados á remela", que sempre se apaixonou por homens inacessíveis ou de fracas convicções. Os homens eram bons, o amor é que tinha defeito, mas vinha de origem.
Aqui sentada enquanto escrevo um pouco mais de mim, nestas memórias virtuais que servirão brevemente de testemunho para os meus filhos, confesso:
- Eu não sei amar, pelo simples facto de que não sei, não consigo sentir-me amada. Mesmo em momentos em que o bem- estar era supremo, em que a plenitude me inundava, encontrei sempre um motivo para não acreditar na longevidade do afecto. Curiosamente retrospectivando, percebi que a todos os homens que amei acabei por lhes dar guia de marcha. Todos excepto o primeiro, aos meus treze anos. Creio, se as minhas básicas capacidades de psicalistas me permitem,a presunção, que o fiz pela antecipação da perda. Nunca os amei menos por os ter deixado. Antes pelo contrário. Insisti com cada um deles o tempo que me foi possível e a todos amei com a maior convicção do momento. Para todos quis ser a primeira e a última.
Estranhamente senti a dor da ausência, do frio cortante da saudade que embarga a voz e rebenta na alma. De todos fiz um luto longo e contagiante.

A triste verdade é que o amor não me convence. Não chega cá ao fundo. Acredito nele enquanto os olhos se enchem de cor e da ilusão da sedução, ou os ouvidos se derretem com palavras bonitas mais distantes da prática do que a terra do sol. Mas quando os olhos já se habituaram ao excesso de luzes e o silêncio se impõe, o amor choca com a barreira e vai, a cada investida perdendo as forças.
Nessa altura eu, convencida que o que se avizinha pode ser cruel, apanho os cacos, limpo-os e devolvo o amor á proveniência para que o ofereça a outra.
Vou para casa remendar o muro que aos poucos vai parecendo um mural retalhado de rostos e memórias de um amor que nunca chegou a ser.

Por isso Valentim não insistas por favor, que do meu lado ainda se empacota, por entre cartas perfumadas, e imagens coloridas, os restos do último amor.


"Para quem se vai embora é sempre mais fácil. Pelo menos, muda de ares. Quem fica tem de respirar os restos de epiderme polvilhados sobre os móveis da casa."

José Luís Peixoto

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Um beijo encharcado em gewurtztraminer!

Sonhando debaixo de Nuvens verdes

As coisas que imaginamos


"Quando nos deitamos no sofá, o peso precioso da tua cabeça
sobre o meu colo, não há limite para as coisas que imaginamos.
Imaginamos que atravessamos uma ponte sobre o rio.
Imaginamos que somos a chuva a cair sobre o jardim.
Imaginamos o tempo onde está o nosso filho.
Imaginamos o lugar onde adormece.
Deitados no sofá, sabemos que anoiteceu lá fora, e
sabemos que a pele do nosso filho nasce sob a tua pele.
Imaginamos cada pormenor do seu rosto.
Imaginamos os seus olhos grandes.
Imaginamos que somos três a imaginar.

José Luís Peixoto (poema inédito), emprestado por http://quintasdeleitura.blogspot.com/

Diz que sim...uma única vez

"Gosto de dizer que sim. Dizer que sim é querer resolver problemas, é seguir em frente, é lançar-se sem medo, rejeitar as amarras da auto-preservação. Sim, gosto de fazer planos e projectos, gosto de imaginá-los concretizados. Não gosto de dizer que não. As pessoas que dizem que não desagradam-me desde os primeiros instintos.
(...) Eu digo sempre que sim. E em cada uma dessas vezes, quero ser surpreendido. É isso que espero."
- Hoje Não (José Luís Peixoto)

sábado, janeiro 26, 2008

E em resposta...não. Não tenho nada melhor para fazer.

Avisos á navegação

1-Se procuram críticas de bons filmes...posso sugerir algum outro blog e desejar boas sessões.

2-Se procuram critícas literárias, bem fundamentadas por leitores compulsivos e cheios de frases espirituosas...a resposta é idêntica á primeira.

3-Se procuram informações sobre gatos persas...lamento, mas aqui para além de uma foto não existe mais nada. Eu até nem simpatizo com gatos.

4-Se procuram contos eróticos ou descrições de encontros clandestinos ao melhor estilo da porno-chachada-intelectual, sugiro que procurem blogs que comecem por pusssy ou trintona sexy ou algo do género. Eu até sou daquelas que acha que o sexo é sobrevalorizado.

5-Se procuram informações sobre o programa de filosofia do 11º ano, lamento mas trata-se apenas de uma coincidência de estilo, já que apesar de lá ter passado continuo a não entender nada da mesma.

6-Se procuram mensagens ou massagens ao ego, desculpem-me mas para esse peditório já dei o suficiente.

Então... e para que serve este blog? Para mim, para arrumar ideias, para me descobrir ao longo dos anos. Por isso e para os visitantes de passagem, não percam tempo e vão ler um livro que sempre aprendem um pouco mais. E leiam tudo...até a Margarida Rebelo Pinto, aqui não se tecem considerações sobre gostos alheios. E se depois quiserem opinar ou discutir o assunto, ai sim podem voltar.

A Closer Tribute

Finally Closer...

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Nem sempre é bom ter o que se deseja

"Querer alguém, ou alguma coisa, é muito fácil. Mesmo assim, olhar e sentirmo-nos querer, sem pensar no que estamos a fazer, é uma coisa mais bonita do que se diz.
Antes de vermos a pessoa, ou a coisa, não sabíamos que estávamos tão insatisfeitos. Porque não estávamos. Mas, de repente, vemo-la e assalta-nos a falta enorme que ela nos faz. Para não falar naquela que nos fez e para sempre há-de fazer. Como foi possível viver sem ela? Foi uma obscenidade.
Querer é descobrir faltas secretas, ou inventá-las na magia do momento. Não há surpresa maior.O que é bonito no querer é sentirmo-nos subitamente incompletos sem a coisa que queremos. Quanto mais bela ela nos parece, mais feios nos sentimos. Parte da força da nossa vontade vem da força com que se sente que ela nunca poderia querer-nos como nós a queremos. Querer é sempre a humilhação sublime de quem quer.
Por que razão não nos sentimos inteiros quando queremos? É porque a outra pessoa, sem querer, levou a parte melhor que havia em nós, aquela que nos faz mais falta. É a parte de nós que olha por nós e nos reconcilia connosco. Quanto mais queremos outra pessoa, menos nos queremos a nós...
Querer é mais forte que desejar, pelo menos na nossa língua. Querer é querer ter, é ter de ter. Querer tem mesmo de ser. Na frase felicíssima que os Portugueses usam, "o que tem de ser tem muita força". Desejar tem menos. É condicional. Quem deseja, desejaria. Quem deseja, gostaria.
Seria bom poder ter o que se deseja, mas o que se deseja não dá vontade de reter, se calhar porque são muitas as coisas que se desejam e não se pode ter todas ao mesmo tempo.Querer é querer ter e guardar, é uma vontade de propriedade; enquanto desejar é querer conhecer e gozar, é uma vontade de posse. O querer diminui-nos, mas o desejar não.
Sabemos que somos completos quando desejamos - desejamos alguém de igual para igual. Quando queremos é diferente - queremos alguém com a inferioridade de quem se sente incapacitado diante de quem parece omnipotente. O desejo é democrático, mas o querer é fascista.O que desejamos, dava-nos jeito; o que queremos fez-nos mesmo falta.
Mas tanto desejar como querer são muito fáceis. Ter, isto é, conseguir mesmo o que se quer é mais difícil. E reter o que se tem, guardando-o e continuando a querê-lo, tanto como se quis antes de se ter, é quase impossível.
Há qualquer coisa que se passa entre o momento em que se quer e o momento em que se tem. O que é?"Cada pessoa, - dizia Oscar Wilde, - acaba por matar a coisa que ama". Mata-a, se calhar, quando sente que a tem completamente. (...)
A verdade, triste, é que uma pessoa completa, a quem não falta nada, não é capaz de querer outra pessoa como deve ser. No momento em que se sente que tem o que quer, foi-lhe devolvida a parte que lhe fazia falta e passou a ter tudo em casa outra vez. Fica peneirenta, sente-se gente outra vez. É feliz, está satisfeita e deixou de ser inferior à sua maior necessidade. O ter destrói aquilo que o querer tinha de bonito. Uma necessidade ocupa mais o coração, durante mais tempo, que uma satisfação.
Querer concentra a alma no que se quer, mas ter distrai-a. Nomeadamente, para outras coisas e outras pessoas que não se têm. (...)É bom que se continue a julgar que aquilo de que se precisa é exterior a nós. Só quem está voltado sobre si, piscando o olho ao umbigo, pode achar que tem tudo o que precisa. (...)
Quando se quer realmente, dar-se-ia tudo por ter. A coisa ou a pessoa que se quer têm o valor imediato igual a todas as coisas e pessoas que já se têm. Trocavam-se todas as namoradas, ou todos os namorados, que já se namoraram, pelo namoro de uma única pessoa que se quer namorar. É esta a violência. É esta a injustiça. Mas é esta também a beleza.
Quem aceitaria que um novo amor significasse apenas parte de uma vida? Não sendo a vida inteira, não sendo tudo o que importa, numa dada altura, num dado estado do coração, porque nos havíamos de ralar? (...)
O querer é bonito porque, concentrando-se na coisa ou na pessoa que se quer, elimina o resto do mundo. O resto do mundo é uma entidade muito grande que tem graça e tem valor eliminar.Querer um homem em vez de todos os outros homens, uma mulher em vez de todas as outras mulheres é fazer a escolha mais impossível e bela. Acho que se pode ter tudo o que se quer de muitas pessoas ao mesmo tempo, mas que não se pode querer senão uma pessoa.Ter todas as pessoas não chega para nos satisfazer, mas basta querer só uma, e não a ter, para nos insatisfazer.
É por isso que se tem de dar valor à vontade. Poder-se-á querer ter alguém, sem querer também ser querido por essa pessoa? Eu não sei.Como raramente temos o que queremos ter ou queremos bem ao que temos, é boa ideia dar uma ideia da atitude que se pretende. Em primeiro lugar, convém mentalizarmo-nos que querer é desejável só por si, pelo que querer significa. Quem tem tudo e não quer nada é como quem é amado por todos sem ser capaz de amar ninguém. Dizer e sentir "eu quero" é reconhecer, da maneira mais forte que pode haver, a existência de outra pessoa e de nós. Eu quero, logo existes. Eu quero-te, logo existo.
Em segundo lugar, ter também não é tão bom como se diz. Ter alguém ocupa um espaço vital que às vezes é mais bonito deixar vazio. (...)
Ter o que se quis não é tão bom como se diz, nem querer o que não se tem é assim tão mau. O segredo deve estar em conseguir continuar a querer, não deixando de ter. Ou, por outras palavras, o melhor é continuar a ser querido sem por isso deixar de ser tido. O que é que todos nós queremos, no fundo dos fundos? Queremos querer. Queremos ter. Queremos ser queridos. Queremos ser tidos. É o que nos vale: afinal queremos exactamente o que os outros querem. O problema é esse."

in OS MEUS PROBLEMAS, MIGUEL ESTEVES CARDOSO

Primeiro amor (re)visitado....

Ela voltou do passado dele e fez-se presente…ele anuiu e compriu o desejo, baixou as armas e deixou-se derrotar na batalha entre o amor e o orgulho. Não se lembrava o que tanto o atraia nela. Dela guardara, anos a fio, memórias soltas em palavras que lhe escrevia nos intervalos da raiva. Ela viu nele a sua juventude já um pouco gasta e, deitando por terra os sorrisos que o esperavam em casa pôs-se em fuga rumo a um caminho cheio de retratos, canções, suspiros e provocações.

Rejuvenesceu e fugiu pelo corpo dela. Embrulhados em lençóis novos saciou-se de cheiros e vontades, construíram planos, perspectivas e expectativas que se cumpriam tarde mas ainda a tempo. Ela adiava-lhe o tempo e evitava o frio do fim.

Lá fora a vida seguia em sessão contínua. Mas ali, os novos amantes revisitados invertiam os ponteiros e deixavam-se dormir.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Versos Perdidos

"Es justamente este momento en el que siento,
que tengo los labios secos y ello gracias a tu boca,
donde un dìa me besaste de noche con tu suave aliento,
no vi motivo para arruinar aquel hermoso encuentro,
esperè esperè y esperè como espera una roca,
pero ya hace surcos mi fatiga en la arena del desierto,
asì me quedarè aquì hasta que a la deriva lleguarè a tu puerto"

Jorge Martinez

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Cabo de Hornos Cabernet Sauvignon 2002- Vinã San Pedro



Graças a um operário em construção, está noite o jantar promete. A minha queda para a culinária, não me permite ir muito mais longe do que a conhecida Massinha com Bacon e Natas e com um pouco de sorte...uma saladinha da praxe. Mas hoje, o vinho é a refeição principal, porque este Cabernet Sauvignon, proveniente de vinhas com 60 anos e envelhecido em Carvalho Francês, ligeiramente tostado, com aromas a mirtilho e amora negra, café e fumos adocicados, enche toda uma mesa.Concentrado embora não demasiado encorpado, possui uns taninos elagantes e uma presença de adstringência bastante subtil.

Este vinho transporta-me a uma magnífica viagem ao Chile, onde o provei em primeira mão e tráz com ele uma palete de private jokes, memórias boas, muitas asneiras e o fim de tarde mais imponente que vi.
Como não sei fazer sobremesas escolhi para relaxar depois do repasto, uma companhia que também adora vinho...o mais famoso ugly sexy, Gerard Depardieu, aqui acompanhado por uma cota que já viu melhores dias ,Catherine Deneuve, no filme sugerido pelo Paulo Branco (ou não fosse ele o Produtor), "Os Tempos que Mudam".
Espera-se uma noite tranquila, ligeiramente enublada e com aguaceiros pontuais...

O Moleskine e eu

"Levo-te dentro da Algibeira
todas as manhãs ao sair de casa,
todas as tardes ao voltar.
Mesmo quando pareço despido,
quando pareço não ter algibeiras,
estás na algibeira do sonho,
no território da paz.
Levo-te onde couber o amor."

Ignacio Anzoátegui

terça-feira, janeiro 22, 2008

Landslide - Fleetwood mac

Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas

"Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltassesem busca desses antigos recados levados pelo tempo:

Vamos para casa?
O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa.
Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui,
mas poderei dizer que, pelo menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes."


Maria do Rosário Pedreira in «366 poemas que falam de amor»

Para quem gosta de nuvens




Agradecimentos sinceros pela contribuição indirecta do Mike, para que os nossos jantares sejam um pouco mais animados..

Passa ai o SG!

O que direi olhando para ti…

...dependerá sempre de cada olhar.


A vantagem de se ter tempo, subitamente livre, ainda qua não pelos melhores motivos, é que nos dá espaço para descobrirmos novas coisas. Para além de ter percebido que não passo duma SALT(Y), encontrei uma belíssima companhia.

Este filme apresentado por Rodrigo Garcia, abusa da poesia como as palavras do pai,um complemento perfeito para uma união, Gabriel Garcia Marques . Um filme sobre mulheres nos seus diferentes estados, à beira do sólido, do desiquilibrio, do confronto. Personagens densas e marcadas em interpretações naturais e bastante simples. Com um ritmo tranquilo e musicado. Com Glenn Close, Cameron Diaz , Calista Flockhart, Holly Hunter, Kathy Baker.

5 histórias ancoradas em detalhes e coincidências.

A ver, na minha opinião mainstream.

sábado, janeiro 19, 2008

New Order -Everytime I see you falling

Dou a mão à palmatória..
Soudtrack de sábado

sexta-feira, janeiro 18, 2008

A menina?...dança

Há alturas na vida que percebemos que os nossos amigos, por muito que o sejam e gostem de nós, não nos conhecem, ou melhor, não nos conhecem como gostaríamos. Não o fazem por maldade. Tão pouco o fazem. Ás vezes, só, não nos percebem. Vêem aquilo que gostariam de ver. Aquilo que querem acreditar ser verdade.
Também não adivinham aquilo que não mostramos.

É por isso que entendo a melhor atenção no gesto, aquilo que fazem por nós, na tentativa de nos verem um pouco mais felizes. Mas não entendo, quando não aceitam de bem, que queremos viver diferente, ser diferente, estar diferente.
Quando me convidam para um programa animado, que inclui por vezes, a apresentação de um amigo (sempre simpático, inteligente, giro, fabuloso, engraçado, carinhoso, atencioso, orgulhoso, trabalhador, imprevisto, paternal, animal…os amigos dos nossos amigos, são sempre o melhor partido, apenas porque como a nós, também os querem ver felizes, ou pelo menos... bem!) agradeço e fico contente, faz diferença, mas hoje, agora, neste momento, aos 32, prefiro ser eu a procurar o meu momento. A ficar só. Melhor, pior, á maré dos dias. A cavar a terra. A esgravatar. A descobrir. A reencontrar.

Nestes dias, já longos, em que se tenta perceber, conhecer, aprender a nossa cartilha tenho encontrado muitas pequenas grandes coisas. Coisas de somenos importância, talvez, mas bocadinhos de vida que parecem bombons. São EPÁ’s de formas, cores e sonoridades diferentes…um filme que revemos e nos enche o peito de cócegas, a última tablete de chocolate escondida no fundo do armário, o desespero do último cigarro, o livro que nos emociona, o velho amigo que se reencontra atrás da tela, a voz da rádio que nos transporta a outros tempos, a passados bons.

É por isso imprescindível que dance sozinha. Longe das luzes e dos cheiros de outros corpos. Da sensualidade profunda que cada um tem atrás da sua dança. Que fascina, encanta, preenche tantas vezes. Há poucos prazeres como ver alguém a conversar com a música com as mãos.

O vinho ajuda a soltar a língua presa na dor, e reverte-lhe os ponteiros e canta-se, alto e bom som, só para nós. Grita-se, ouvem-se risos, admira-se, encanta-se, chora, ri, canta.

Uma parte da vida em pause. Desligam-se os telemóveis. Escondem-se os relógios e vive-se. Sem plano, sem direcção. Deixamo-nos escorregar no vinho sossegado no copo e todo um caminho novo cresce.
A dor está lá. O vazio ri-se á ausência. Tenta-se evitar a lembrança ainda que ela seja como a garrafa perdida no meio do oceano, a surpresa do encanto da descoberta.
Equaciona-se o amor nas suas 323 formas, nos seus jeitos e gestos grotescos. Aceita-se, perdoa-se, desculpa-se. Tudo e todos. Por minutos ou para todo o sempre.

Por isso, meus amigos aceitem. Aceitem que estou triste e que isso é mesmo assim. Não é dramático, não mata, não me fará mal. Aceitem que também estou contente. Que me emociono comigo mesma, que assumo saudades de mim.
Aceitem que por hoje, tenho despedidas a fazer. Gavetas para arrumar.
Hoje espero. Só por hoje, espero.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

"Serás sempre uma árvore apaixonada pelos barcos"

El otro lado de la cama

Para Sebastien:
Porque ela é uma brasa...e o filme é mesmo giro...

Olha o que me havia de sair na Rifa

"Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peças no seu usuário.

Rifa-se um coração que na realidade está um
pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...

Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.

Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posiçõe
sarrependido de palavras e gestos.
este coração tantas vezes incompreendido.
tantas vezes provocado.
tantas vezes impulsivo.

Rifa-se este desequilibrado emocional que abre
sorrisos tão largos que quase dá pra engolir
as orelhas, mas que também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.


Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração,

ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.

Rifa-se um coração cego,
surdo e mudo,mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente, por se recusara cultivar ares selvagens
ou racionais,
por não querer perder o estilo.

Oferece-se um coração vadio,sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta."


Clarice Lispector

terça-feira, janeiro 15, 2008

a amizade que se esfuma...

Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma? Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?..."]--

[Inês Pedrosa, in "Fazes-me falta"]

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Ryan Adams and The Cardinals -

Obrigada David...mais uma vez.

-filho…é feio mentir. Já te expliquei que mentir nos pode magoar muito. E pior que isso, pode magoar quem gosta de nós.
- Mas os crescidos fazem-no. E eles são crescidos e já foram ensinados e fazem-no na mesma. E como são crescidos e mandam na vida, ninguém se pode zangar com eles.
- Claro que se pode.
- Eu acho que quando se começa a ficar velhinho, como tu se mente mais, diferente mas mais.
- Eu não estou a ficar velhinha…não digas isso.
- Estás. Por isso já é que tu mentes.
- Que te menti eu? Diz lá.
- Mentes quando fazes de conta que sorris. Que estás contente quando estás triste. Tens um sorriso faz-de-conta. E isso é enganar, por isso também é mentira.

Tenho o peito estremunhado. O silêncio encobriu o que não lhe podia dizer. É feio mentir…não só aos outros. Mas a nós próprios e a uma pequena extensão do nós.

Arquivos de cabeceira...

"É mesmo verdade que pensas atirar-te de uma janela?
- Oh, sim.
- Muitas vezes?
- Frequentemente.
- E o que é que te impede?
- Não é que eu queira morrer, é que quero viver... viver melhor. Quero que a vida seja melhor e assim compenetro-me que é melhor ficar viva por um pouco mais de tempo.

-Não morres.
-Isso foi também o que disseste no sonho.
-Então não posso enganar-me duas vezes em vinte e quatro horas.
-Diz isso outra vez.
-Não me posso enganar.
-Outra vez.-Não vais morrer.
-Uma última vez.
-Não vais morrer. Vais viver.
-Está bem. Obrigada. Adeus.

O que é?
- Estou a pensar que ainda te amo.
- A sério?
Apesar de?
- Apesar de."

Philip Roth, Traições

domingo, janeiro 13, 2008

Alguém sabe...

...qual a cor do ecoponto onde por os restos do amor???

Matar o vício...

Os amores com defeito guardam-se durante muito tempo. Escondem-se na poeira das páginas dos livros emprestados, numa esperança secreta que um dia se possam compor.
Ainda que muito escangalhado o amor incompleto, que não se viveu até á exaustão fica pendurado atrás das portas e não se esquece. Não o podemos mandar dar uma volta ao bilhar grande. Ele regressa de cara cheia.
Ele é que se liberta de nós.
Primeiro parte o sabor. Vai-se embora o doce, num carreiro de formigas que vai do coração á barriga embrulhada de nós. O amargo ainda fica num longo final de boca.
Sorrateiramente o tacto sacode-nos e parte-se em cacos no vazio.
Depois, foge-lhe o cheiro e nem as gotas guardadas numa velha camisa nos valem.
Os nossos olhos zangam-se com a ausência e a memória teima em brincar ás escondidas. Como miúda de feitio ranhoso, esconde-se, e faz-nos aflitos a procurá-la por todos os cantos e debaixo dos colchões.
Desistimos de lembrar. Acalmamos e até ficamos contentes, mas como a ausência sustêm em nós as palavras ditas e reditas na nossa cabeça caímos de quatro ao ouvir a musica que nos deixa o amor em repeat.
Até que ele se canse. Se canse da nossa figura patética suspensa por um fio de esperança. E um dia parte e só deixa um recado:
Fui matar o vício, volto já.

Radiohead - No Surprises

Ils se mariérent et aurent beaucoup d'enfants...

sábado, janeiro 12, 2008

Descobertas

O orgulho é o amigo imbecil e o amante cobarde.

Um conselho

Chateau Morange 2001 (white)
Appelattion Saint-Croix du Mont.

18 de Maio...de um ano qualquer


As palavras de Ian Curtis fizeram parte de um pequeno período da minha existência como punk rural nos idos finais dos 80. Ver CONTROL trouxe-me á memória longas noites de silêncio em pacto com uma profunda procura do significado das palavras e a descoberta da vida através dela.

A ausência de um sorriso em todas as imagens que lembro ter visto dele, sempre me suscitou um brutal respeito pela sua angústia que tão bem retrata este filme. Uma bela interpretação de Sam Riley, mais que explicar quem era este rapaz calado por fora, abre um sem número de perguntas que justificam novas incursões pela sua escrita.

No dia 18 de Maio de 1980 decidiu que a vida, a carreira e o amor não lhe davam combústivel suficiente para aguentar uma doença incapacitante e a tremenda dificuldade de fugir aquilo que queria acreditar.

18 de Maio é um dia tão bom como qualquer outro para morrer. Que o digam as minhas avós, que decidiram partir, ambas, no mesmo dia, aproximadamente à mesma hora, no ano 2007, em paises diferentes. Um bom dia, também, para cair da cama antes mesmo de se deitar nela.

Se calhar foi isto mesmo que pensou este miúdo perdido...


IN A LONELY PLACE


"Caressing the marble and stone

Love that was special for one

The waste in the fever I heat

How I wish you were here with me now


Body that curls in and hides

Arches that often delight

Warm like a dog round your feet

How I wish you with me now


Hangman looks round as he waits

Cord stretches tight then it breaks

Someday we will die in your dreams

How I wish were here with you now"

quarta-feira, janeiro 09, 2008

mafalda veiga cada lugar teu ao vivo

"Amor " de António Mega Ferreira

«Algum dia eu haveria de entrar na normalidade dos que te amam. Amo-te. E dói escrevê-lo (que é pior, meu amor, do que dizê-lo). Amo-te, absoluta, impossível e fatalmente. E ouço, adolescente, uma música adolescente, para me lembrar de ti, porque lembrar-me de ti é lembrar-me que não consigo esquecer-te. E ouço música porque ouvimos música quando amamos, e tudo, no amor, é música, acústica da alma que se quer ser devorada, e, neste caso, dor (tão deliciosamente insuportável) de amar sem sequência nem expectativa de contrapartida, amar unicamente o puro objecto que desgraçadamente amamos. Isto é uma carta de amor, e é possivelmente ridícula (prova maior de que é, realmente uma carta de amor), ou porque perdi o hábito de as escrever, ou porque nunca tive a coragem de as enviar.
«Não percebes porque é que não te falo? Ainda não percebes que, na personagem que de mim eu enceno, não cabe a ameaça de uma derrota, a antecipação do desencanto, a sombra de um vexame? Não te falo, para não saber que o que eu te digo é apenas a forma contida de te dizer outra coisa, mas que essa coisa não é do teu mundo, nem do mundo que eu construí, nem do precário mundo que a nossa fragilíssima ternura mútua arquitectou. E tudo isto é literário, eu sei, mas – que queres? -, a literatura é o melhor de mim e é o melhor de mim que vive dentro da minha cabeça quando estou contigo.
«E depois, afastamo-nos. Beijo-te a correr, não sei se já reparaste, e quase fujo, porque sair do pé de ti é regressar ao que não és tu, o teu olhar e as tuas mãos, a tua alma e a tua voz, e isso, meu amor, transformou-se no insuportável intervalo entre dois encontros.
«Esta carta de amor é um excesso (e isso prova superiormente que é uma carta de amor): eu amo não a ideia de amar-te (durante muito tempo, eu julguei que era apenas isso), mas a ideia de perder-me no meu amor por ti. E mesmo amar-te é um excesso, porque tudo aconselharia que eu me limitasse a mitificar-te, que é a melhor forma de evitarmos enfrentar a realidade.
«Porque a realidade, aqui, é como uma dor difusa, tu sabes como é, um incómodo ainda não localizado, que progressivamente se vai definindo e acertando, até que, insuportavelmente nítida, a sua imagem se nos impõe como uma evidência. A minha dor é que eu comecei a amar-te, sem o saber, durante aquele breve período de tempo em que sair de casa era a promessa reconfortante de ver-te e falar contigo. Eu não sabia, repito, mas o tempo ajudou-me a definir essa pequena dor, tão secretamente pavorosa: cada vez que estou contigo (cada vez mais, meu amor, cada vez mais) é como se a minha vida se virasse do avesso. E é verdade, é cada vez mais verdade, que, quando penso nas coisas que ainda me falta fazer na vida, é em ti que penso. E tenho medo, como um animal que instintivamente foge do que sabe não poder atingir.
«Eu penso em ti, ainda mais do que te digo, e tu estás em tudo, mesmo quando não te penso, tu és a grande razão, o horizonte sem nome que constantemente se desenha na minha imaginação de mim.
«Há uns anos, este seria o momento de desmontar o discurso desta carta, de te mostrar os subtis mecanismos da alma e da máscara, de desdizer ironicamente o que já disse, de insinuar que, afinal, as-coisas-talvez-não-sejam-exactamente-assim. Mas as coisas são exactamente assim, e a carta, que poderia transformar-se num confortável exercício paródico, é, inevitavelmente, uma agonia e um embaraço. Esta carta é um acto de puro egoísmo, que eu até talvez nem tivesse o direito de praticar. É-te incómoda, necessariamente, e isso bastaria para que eu me abstivesse de a enviar, dentro de um envelope azul. Mas o azul fica-te tão bem, e as cores todas ficam em ti como tu ficas no mundo: exactamente.
«Mas, repito: esta carta é um acto de puro egoísmo, é como se não tivesse destinatário. E, no entanto, é preciso enviá-la, para que seja uma carta de amor, para que faça sentido como carta. Para que seja amor. Mas podemos imaginar uma saída elegante: para que possas conservá-la como pura carta de amor, quero eu dizer, sem o embaraço de saberes que ela te foi escrita por alguém que não amas, não a assino. Dou-te tudo: até a hipótese de esta carta não ter sido escrita por mim.
«(E não, esta carta não pode ter sido escrita por mim. És tu – em mim – que me faz escrever o que eu não escrevo. E isso é – de novo – o melhor de mim.)»

A morte saiu á rua num dia assim....

No início de um ano que que trouxe tantas mortes e perdas para tantos nós, que se ressente injusto pela natureza da vida e nos deixa quase sem folêgo para inspirar tudo o que ainda há para vir, deixo aqui umas palavras de conforto, escritas pela Luisa Castel-Branco e que encontrei, por puro acaso (ou talvez não) num banco de Jardim onde sentei a alma para deixar a dor descansar.

"Dizer adeus"

Dizer adeus naquele momento parece ser o mais doloroso. A missa, as pessoas em lágrimas, nós em lágrimas, os rituais, os abraços e uma vez mais as lágrimas. Mas afinal, a morte não é isso, nem a partida do corpo nem as despedidas sentidas é tudo o resto, todos os dias que sobram.
Segue-se um vazio tremendo, de vez em quando até esquecemos que a pessoa já cá não está, entre nós, e introduzimo-la na conversa, nos momentos do dia-a-dia. Até que nos damos conta que não é assim. Resta então essa imensa capacidade que temos de sobreviver, de tomar fôlego e andar em frente, mas não estamos sós, porque ao nosso lado, bem ao nosso lado, vai uma sombra a par.
A morte nunca é justa, tal como a vida não o é. E é nessa depuração das tristezas e dos ressentimentos, que vamos fazendo o caminho. Mas amar, das mais diferentes formas que o amor toma, é sempre um bálsamo para a alma. Mesmo que naquele momento só signifique mais dor, a verdade é que ninguém morre enquanto houver uma única pessoa que o relembro com saudade. A memória é uma bênção dos deuses. É aí que vamos buscar o alimento para a vida, e é aí que guardamos o que foi e já não é.
A amizade é a outra forma do amor, e dá-la e recebê-la torna-nos seres humanos muito melhores. É isso que significa envelhecer. É ver partir, chorar e depois sorrir com as lembranças e sempre que possível, dizer a alguém o quanto gostamos, o quanto essa pessoa é importante para nós. O que podemos ambicionar é que a idade nos leve o pudor das palavras e nos dê maior dimensão à alma."

in Destak 4.12.07

terça-feira, janeiro 08, 2008

Presente de dia de reis....

Como quem sai aos seus...não é de Genebra... a minha Pilarência também terá que usar óculos. Ontem fomos as duas num programa altamente feminino, que incluiu cabeleireira, compra de sapatos e escolha dos óculos, era vê-la feliz a saltitar pelo centro comercial e a desejar a todos os que passavam um Ano Novo muito feliz. Mas feliz, feliz, mesmo feliz fiquei eu com um presente sem laço que me deu no meio do nada:

- Mãe, estou tão feliz por usar óculos. Sempre quis usar óculos.
- Ainda bem, mas porque motivo sempre quiseste usar óculos?
- Para ficar igual a ti.
- igual a mim, porque?
- Dah...porque mãe, tu és a pessoa mais bonita do mundo e quando crescer quero ser como tu!!!

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Rua do Quelhas

"Morre-se devagar neste país
onde é depressa a mágoa e a saudade
oh meu amor de longe quem me diz
Como é a tua sombra na cidade

Morre-se devagar em frente ao Tejo
repetindo o teu nome lentamente
cintura com cintura, beijo a beijo
e gritá-lo, abraçado, a toda a gente

Morre-se devagar e de morrer
fica a cinza de um corpo no olhar
oh meu amor a noite se vier
é seara de nós ao pé do mar."

António Lobo Antunes

sábado, janeiro 05, 2008

Suzanne Vega-Marlene On The Wall

Acordei com este tamborilhar na minha mente...

Conselho de amigo

Recomeçar

Não importa onde você parou...
em que momento da vida você cansou...
o que importa é que sempre é possível e
necessário "Recomeçar".

Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo...
é renovar as esperanças na vida e o mais importante...
acreditar em você de novo.

Sofreu muito nesse período?
foi aprendizado...

Chorou muito?
foi limpeza da alma...

Ficou com raiva das pessoas?
foi para perdoá-las um dia...

Sentiu-se só por diversas vezes?
é porque fechaste a porta até para os anjos...

Acreditou que tudo estava perdido?
era o início da tua melhora...

Pois é...
agora é hora de reiniciar...
de pensar na luz...
de encontrar prazer nas coisas simples de novo.

Que tal
Um corte de cabelo arrojado...
diferente?
Um novo curso...ou aquele velho desejo de aprender a
pintar...
desenhar...
dominar o computador...
ou qualquer outra coisa...

Olha quanto desafio...
quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus te
esperando.

Tá se sentindo sozinho?besteira...
tem tanta gente que você afastou com o
seu "período de isolamento"...
tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu
para "chegar" perto de você.

Quando nos trancamos na tristeza...
nem nós mesmos nos suportamos...
ficamos horríveis...
o mal humor vai comendo nosso fígado...
até a boca fica amarga.

Recomeçar...
hoje é um bom dia para começar novos
desafios.

Onde você quer chegar?ir alto...
sonhe alto...
queira o
melhor do melhor...
queira coisas boas para a vida...
pensando assim trazemos prá nós aquilo que desejamos...
se pensamos pequeno...
coisas pequenas teremos...
já se desejarmos fortemente o melhor e principalmente
lutarmos pelo melhor...o melhor vai se instalar na nossa vida.

E é hoje o dia da faxina mental...
joga fora tudo que te prende ao passado...
ao mundinho de coisas tristes...
fotos...
peças de roupa, papel de bala...
ingressos de cinema,
bilhetes de viagens...
e toda aquela tranqueira que guardamos
quando nos julgamos apaixonados...
jogue tudo fora...
mas principalmente...
esvazie seu coração...
fique pronto para a vida...
para um novo amor...
Lembre-se somos apaixonáveis...
somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes...
afinal de contas...
Nós somos o "Amor"...

Paulo Roberto Gaefke

sexta-feira, janeiro 04, 2008

E aprendemos...

"Após um tempo,
Aprendemos a diferença subtil
Entre segurar uma mão
E acorrentar uma alma,
E aprendemos
Que o amor não significa deitar-se
E uma companhia não significa segurança
E começamos a aprender...
Que os beijos não são contratos
E os presentes não são promessas
E começamos a aceitar as derrotas
De cabeça levantada e os olhos abertos
Aprendemos a construir
Todos os seus caminhos de hoje,
Porque a terra amanhã
É demasiado incerta para planos...
E os futuros têm uma forma de ficarem
Pela metade.
E depois de um tempo
Aprendemos que se for demasiado,
Até um calorzinho do sol queima.
Assim plantamos nosso próprio jardim
E decoramos nossa própria alma,
Em vez de esperarmos que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
Que somos realmente fortes,
Que valemos realmente a pena,
E aprendemos e aprendemos...
E em cada dia aprendemos."

Jorge Luís Borges (Poeta Argentino, 1890-1986)

Quando se quer

"Quando se quer
da distância fazer
perto

Quando se inventa
do outro
a melhor parte

Quando se toma a lonjura
e por certo se tem do incerto
aquilo que não sabe

Quando se inventa na espera
o que adivinha
ser pelo excesso a linha do baraço

Quando a ausência vacila
no silêncio e traz de volta
o fogo no regaço."

Maria Teresa Horta

quarta-feira, janeiro 02, 2008

terça-feira, janeiro 01, 2008

Um momento Dourat


O ano velho já se foi, o ano novo já se cheira e o silêncio torna-se a companhia desejável. As crianças dormem, satisfeitas, quentes, sorridentes e expectantes destes novos dias ainda embrulhados. Lá fora, celebrantes compulsivos disparam para o ar, não sei se para matar o ano velho ou assustar o novo. No rosto daqueles que no frio se embalam e impulsionam á base de alcool, numa tentativa obrigatória de acreditar, ou numa expectativa idêntica a que se sente após a primeira relação sexual, reflecte-se um olhar vazio, efémero, sem cor.

Sento-me no sofã e olho para o meu presente de 2008, uma bela garrafa de Dourat. O meu presente. Abro-a devagar. Deixo-a respirar. Admiro-a e ao primeiro golo percebo porque me fascina sempre, de cada vez, mais uma vez.

Quando se chega ao fim, começa-se a pensar no início. Isso mesmo nos dá, também um bom vinho.

Eu penso em tantas coisas que 2007 me trouxe:


O vinho do ano: FLP Branco 2006 (Filipa e Luís Pato)

A surpresa do ano: Bairro Alto, um bar sem nome; e os Cure

O melhor momento: todos os dias quando senti um abraço e o beijo quente dos meus filhos;

O momento mais difícil: a escolha de uma vida

O Jantar do ano: Vírgula

O melhor presente: Uma caixa
Livro que mais gostei: Ultimato em Lisboa, Robert Wilson
Filme que mais me tocou: A vida dos Outros

O momento mais marcante: dia 1 de Janeiro de 2007

Desejo concretizado: deixar de roer as unhas

Melhor fim-de-semana: Vila Viçosa

Melhor Paisagem: Provença


Assim, de desejos para 2008 tenho:


Que me traga tantos momentos como estes, que me dê disponibilidade e serenidade para apreciar as pequeninas coisas boas da vida, que mê saúde e força, para trabalhar e aprender e ser uma boa mãe, que me continue a surpreender e que , no fundo...seja um pouco melhor.

domingo, dezembro 30, 2007

Caderno de filosofia 11º ano

"É terrível o destino das cartas. Mandámo-las assim, soltas de nós, como se fossem asas vivas e jamais as vemos regressar: perdemo-las para sempre. O acto de escrever representa o desepero, a impotência atroz de não podermos acompanhar a ponte que as palavras tecem."

Autor desconhecido, caderno de filosofia 11º ano

Não lembro a circunstância em que li estas palavras, tãopouco a razão pela qual as registei na capa de um caderno, contudo, hoje, talvez como então continuam a fazer sentido para mim. Soltar palavras pelo mundo em forma de carta ou de simples post-its amarelos que forram estórias passadas como as folhas de um outono brilhante, rosado e ainda quente, é um exercício de vida que nada tem de artístico ou memorável. É apenas um libertar de excessos de uma mente que corre, corre, na esperança de alcançar o derradeiro descanso.
As palavras que dei, foram muitas vezes as linhas onde me cosi, o cabo guia que me trás de volta. E, por vezes, quando anos depois voltam ás minhas mãos enrugadas, rasgatas, esbatidas pelo passar do tempo, trazem com elas outras palavras, novas memórias, sentimentos diferentes que me permitem reconhecer.

Enquanto se vai enterrando o ano que finda, e cada pá de terra se contabiliza os sucessos, as derrotas, as conquistas, as pessoas que entraram, os rostos que partiram, vem-me á boca o sabor bom de ter vivido, de ter sobrevivido, de ter crescido em mim.
Para o novo ano ambiciono reencontrar palavras e mãos que as escrevam e que me façam ao final de outro ano, saborear uma fatia mais deste bolo de gosto duvidoso que é a minha vida.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Lisboa 3:49

Queria saber o que te dizer, mas nem sei se me virás visitar e incomóda-me este desejo que tenho que o faças, quando tudo em ti se deve centrar naquilo que mais amas e em ti mesmo. Queria dar-te palavras cheias de coragem que te arrancassem um sorriso e servissem para descansares o peito que te dói.
Não as sei escrever. Falta-me a coragem para as pronunciar e em verdade, penso que talvez nem façam sentido. Mas hoje, nos últimos dias frios vestidos de um vento que sopra detrás dos montes, apazigua-me a ideia que a lua que vês ser a mesma , que as estrelas que te acompanham são aquelas que aos meus ollhos te trazem um pouco mais perto.
Queria dar-te um abraço. Um daqueles que não se esgotam na materialidade do corpo, que te aquecesse e te ajudasse a dormir.Queria ter a cura dessa dor. Queria poder trocar contigo de vida por instantes que fosse.
Talvez seja puro egoísmo da minha parte desejar que saibas que o meu coração e as minhas orações estão convosco, mas gostaria que o soubesses e que ao menos a certeza de que longe alguém te quer muito e pensa em ti neste momento difícil, te fizessem sentir um pouco melhor.

Que a paz esteja convosco os 3, meu doce e querido amigo.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Katie Melua - Have yourself a merry little Christmas

Do fundo de um coração que abarrata de sentimentos, desejo a todos os que de algum modo fazem parte daquilo que sou hoje (no qual se incluem todos vocês amigos incorpóreos), aos presentes e aos que embora presentes em mim se tornaram ausentes, desejo um Feliz Natal, com paz, tranquilidade, amor, abraços, carinho, calor e clarividência.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Simply Red - So Not Over You

Banda sonora do dia de hoje...

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Aniversário

Esta garrafa faz hoje 4 anos!!!
E isso é muito bom. Mesmo!!!

domingo, dezembro 16, 2007

Mat Kearney - Breathe In Breathe Out (ABC Grey Anatomy)

Banda Sonora do dia de hoje...

sexta-feira, dezembro 14, 2007

May the colour be with you...


Fim do stress hidríco

Hoje senti que todas as palavras que proferi, escrevi, ou publiquei formam uma espécie de cabo que vai prendendo outras vidas e histórias em mim. Umas passaram por momentos fugazes outras que passaram a fazer parte daquilo que constitui o meu colectivo eu. . Algumas que se perderam sem sentido.
Como qualquer cabo carregado em excesso parte, e os “penduras” se espalham pelo chão vejo-me agora sentada, tranquila e serena, no meu silêncio, a escolher as histórias e personagens que devem ficar para além de mim.
Assim, o silêncio consciente assemelha-se a uma tesoura de poda, que tem que executar uma monda em verde, para que , pela diminuição do excesso de palavras e pessoas, fique um sumo mais concentrado e uma película mais rosada que se possa produzir outros vinhos tão diferentes.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Apeadeiro do sono...

A vida deve construir-se sobre definições e significados e não sobre exercícios de figuras de estilo.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Lar

Finalmente o coração vai ficando sem palavras gastas e tristes ,de coisas que ficaram por dizer. Os olhos estão a limpar a casa e ganharam espaço para novos sorrisos. A cabeça vai-se arrumado por ordem cronológica e de relevância, e no meio desta reabilitação urbana vai-se relativizando todo um conjunto de situações futuras. É um processo demorado e lento de reconstrução da casa, desde o revolver das terras inundadas, ao fundear de novos pilares de um novo lar.
De vez em quando a empreitada sofre um revés. Uma brisa mais zangada, uma chuva mais intensa abala as estruturas.
Em vez de ficar ali a torcer de medo que a obra desabe antes mesmo de estar concluída, procuram-se outras mãos que ajudem a trabalhar. Uns a troco de nada, outros a troco de uma refeição quente e de uma bebida doce. Alguns porque é suposto. Alguns por excesso de voluntarismo.
A casa vai ficando cada vez mais bonita, mais improvisada, mas mais colorida. Ainda não tem cadeiras para descansar as pernas. Ainda não tem cama para limpar a poeira dos detalhes dos dias. Não tem tapetes para esconder o que não se quer aceitar.
Mas tem um quadro. Uma bela pintura que se refaz todos os dias para nos surpreender.
Devagar, devagarinho vai crescendo em nós, nos rabiscos do projecto que vou escrevendo, nos retalhos de tecidos iluminados que vou colando.
A vista da janela grande da pequena sala tem o Chiado, o Castelo, o Rio, o Bairro, a música, os carros, os turistas, os pedintes, a luz…e tudo o que os nossos olhos desimpedidos conseguirem abarcar.

Um dia depois do amanhã....

Tens o meu abraço. Sabes que sim. Sabes que ainda que longe pelos muros que a vida impõe. Eu conheço-te. Eu reconheço-te. Eu descubro-te todos os dias um pouquinho mais.
No silêncio dás-me prendas. Aqueces-me as mãos frias. Envolves-me o peito que corre a passos curtos pela cidade á procura do lugar mudo.
Sabes que choro, que rio, que desafino, que faço o pino, que ralho, que me zango, que não entendo, que não quero entender. Que não sou boazinha. Que sou feia. Que sou linda.
Podes ser mau, ofegante, prepotente, distante, falso, comunista, bloquista, benfiquista, extremista, sedutor, amante, amigo, professor, estranho. Podes nem aparecer só para dares um ar da tua graça.
Já me viste de todos os ângulos mas não viste os ângulos todos.
Sabes que tricóto a minha manta com fios de paciência e perseverança todos os dias antes de dormir.
Um dia essa manta vai aquecer-nos numa noite fria mas inundada de luz e estrelas.
Tu sabes que eu sei.

Jerry Maguire - Secret Garden

Serendipity over...and over...

O meu Natal




A minha decoração de Natal é feita de imaginação, mimo desmesurado, e muita capacidade de desenrasque. Apesar de não ser particularmente fã desta altura do ano, tenho que admitir que o espírito do Natal presente e dos Natais futuros me tem apanhado na curva...deve ser deste estado de graça...

terça-feira, dezembro 11, 2007

A melhor mensagem dos ultimos tempos...

"...sabes, as dores que nos revoltam ensinam-nos a encarar a serenidade como um bem necessário mesmo q por dentro ardas violentamente.Não anseies pelo q foste deseja o que és e vais ser.Dá um sorriso à tua vida e vais receber uma gargalhada.Leva-te ao extremo se precisares mas sem nunca te extremares."

Explica-me como se tivesse 5 anos e fosse uma pirosa....

TER OU NÃO TER NAMORADO? EIS A QUESTÃO

"Quem não tem namorado é alguém que tirou férias de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrimas, nuvens, quindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabiru, flerte, transa, envolvimento, até paixão, é fácil. Mas namorado, namorado mesmo, é muito difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida, ou bandoleira; basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado não é quem não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim não tem nenhum namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria e drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pactos com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinicius de Moares ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada; da ânsia enorme de viajar para a Escócia de avião ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer sesta abraçado, fazer compra junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não descobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d'água, show de Milton Nascimento, bosques, ruas de sonho ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu amado ser paquerado.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com as margaridas ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo da sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. "

Carlos Drummond de Andrade

Risos e sorrisos

"Não há cosmético mais eficiente para manter a beleza feminina do que a felicidade."


MILLÔR FERNANDES
"Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da

vida nos aperfeiçoa e enriquece, não tanto pelo

que nos dá, mas pelo que nos revela de nós

mesmos"



(Miguel de Unamuno)

sábado, dezembro 08, 2007

Serendipity...again


Entra-se numa casa nova, que faz parte de uma vida limpinha em folha e a bagagem visual repete-se. Ali escancarada no meio do espanto!Guarda-se o sorriso cúmplice no bolso e disfarça-se o que não se quer saber. Aceita-se um novo discurso, reescreve-se uma velha história.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Midge Ure - Breathe

ganas

Drummond de Andrade

"O que se passa na cama
é segredo de quem ama.

É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo,
encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo:
paz de morto,
nirvana, sono do pênis.

Ai, cama canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme onça suçuarana,
dorme cândida vagina,
dorme a última sirena~
a penúltima… O pênis
dorme,
puma, americana
fera exausta.
Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.

E silenciem os que amam,
entre lençol e cortina
ainda úmidos de sêmen,
estes segredos de cama.

Valeu o sorriso

"Escrevo um poema no teu corpo
Escrevo-o com palavras mãos
Soletrando as palavras
Desejo lascívia
Carícia e prazer
Não vou pontuar o meu poema
Nada de virgulas
Pontos finais
Mudanças de parágrafo
Não quero pausas
No meu poema corpo
Escrevo-o sem parar
Sem respirar
De cima para baixo
Subvertendo a palavra crescendo
Risco cravo o poema
No teu corpo página
Até ficares preenchida
Coberta repleta
De traços riscos e letras
Até só haver espaço
Para a palavra orgasmo
E não faltar escrever
Senão a palavra
Fim"

Nuno Júdice

é isso ai...

Alguns de vós poderão achar que esta miuda não sabe o que quer...tanto parte, como regressa...não dá para contar com ela. Outros rirão e reclamaram "eu bem te avisei que não conseguirias deixar o blog."
A verdade, pura e dura é que neste rascunho de personalidade virtual, está muito daquilo que sou, do que vivi, das ilusões, das desilusões, dos acordares difíceis e sem energia, dos olhos rasos de tempo, das mãos cheias de vida, dos abraços cegos e justos...
Amo com a desfaçatez com que rio e choro, tantas vezes por ai...Juro sempre que será a ultima vez...ainda bem que não consigo cumprir...
Assim, vou gastando vida por aqui e aprendendo...
Aceitam-se lições...

TPC

"...necessidade de deixar partir para ter tempo e disponibilidade para com os que ficam..."

Make It Go Away or Make It Better

Sonoridades emocionais...

Sempre gostei de Waterboys e "The whole of the moon" sempre me transmitiu uma vibração única que me levava a rodopiar sobre mim, entre risos solitários e olhares trancados numa sensação só minha.
Lembro de dançar essa música em tantos momentos únicos e marcantes, onde talvez o nº1 do top pertença a uma noite quente de verão na pista do Seagull, em que toda eu, por fora e por dentro me senti a rainha da noite, braço dado com um poeta desbocado que arrancava as estrelas em forma de palavra para as depositar ao colo do meu ouvido.
Quis a tão curiosa e corriqueira ironia do destino que essa letra fosse pintada de outras cores e mais estrelas que anos depois me foram sussorradas a título de confidência e gargalhada privada.
Ontem, na pista onde me possuo e liberto, onde me acabo e começo em mim, só para mim, onde me dou em tudo o que de mais perfeito possuo, essa música encetou um desafio comigo.
Paralisou-me as pernas, assaltou-me a memória e feriu-me de saudade.
Tomada de surpresa, demorei a reagir, num diálogo intenso, cruel e brutal comigo mesma, mas ganho numa batalha justa.
A alma lutou com o coração e ganhou. Não deixarei que a lembrança de um ser muito especial se transforme em fusil e me atinja ao soar de cada nota desta toada.
O buraco da lua dele, não será cova da minha dança.
Fechei os olhos, sorvi a dor, convidei o orgulho e de sorriso rasgado dancei, rodopiei , saltei e devolvi o olhar com esperança e tranquilidade, a cada rosto que se cruzou.
I saw the whole of the moon, e dancei na sua luz.E um novo motivo para dançar essa musica cheia de forças nasceu: EU

sexta-feira, outubro 19, 2007

Uma mão lava a outra....


O cromo da semana

O cromo da semana

Apesar do habitual sentido atribuido à expressão, na realidade ela para mim tem um outro significado. Rotula um conjunto de personagens que de algum modo me passam pela vida e em pequenos lapsos de tempo participam daquilo que sou ou do que me tento tornar, brilhando pelas suas diferenças, pelas palavras mordazes ou pelo simples facto de me fazerem rir...
O cromo desta semana é o G.P, que ganha este título pela sua capacidade de me ajudar a relativar e me roubar, a custo, alguns sorrisos sinceros.
Cruzamos-nos por motivos pouco simpáticos há cerca de 1 ano e meio e a contragosto de ambas as partes ficamos profundamente ligados. De vítima da minha ironia e pouca capacidade de confiar tornou-se de início o mais ingrato confidente de um rol de segredos que não raras vezes o fazem corar de vergonha, outras rir e em algumas alturas ficar á beira de verter uma lágrima. Devagarinho, muito devagarinho foi aprendendo a aceitar as minhas características pouco comuns, os meus gostos incorrectos e a minha mania de absorver realidades que tantas vezes não passam de distorções do meu sentir.
Partilhamos por motivos distintos uma fixação por motos que nos coloca em vias opostas da estrada mas que sempre nos conduz a algumas gargalhadas valentes.

O GP mecânico diz ao contrário dos comuns toda a verdade, não aldraba no preço das coisas e, meio sem querer acaba a dar umas borlas...que se agradecem mas não se aceitam, porque se a esmola é grande o santo desconfia..

Gosto dos nossos encontros imediatos de terceiro grau, separados pelo espaço que não nos deixa abraçar e nem a medo encostar.
Esta semana descobri que ao contrário do que lhe é permitido, gosta de mim. Genuinamente conhece-me, não me entende, perde-se pela minha vida, questiona-se, mas sempre, mas sempre aceita...

Um dia, fica combinado estaremos ambos do mesmo lado da estrada, num passeio de puro prazer partilhado. Iremos fazer uma corrida sem batota e no fim, sentaremos os dois a beber um belo copo de vinho ao final de uma conversa, com mãos, private jokes, e muitos abraços por cobrar.

Hoje, pela tentativa esforçada de devolver algum humor deixo-lhe algo mais que, sem saber, partilhamos...e pela boca...morre o PEIXE.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Eu


"Não sei fingir que amo pouco quando em mim ama tudo."


Virgilio Ferreira

MEC in love

" Podia ser o fim de qualquer amor. É sempre nos mesmos sítios. Diz que sim. Na alma bate a mesma chuva pesada. o tempo levanta-se contra quem o tem.O riso não separa os dias uns dos outros. Está o coração entreaberto. A vida nota-se em demasia.
A vida nota-se em demasia numa sala escura. O amor chama muito. As pessoas deixam-se prender pela luz. Fazem fogo fácil. Param. E não fica nada.
E não fica nada daquele dia branco. Um dia olhou para as mãos de quem amou e já não se viu dentro delas.
Agora lembra-se do dia em que quis ser igual a ela. E do que nunca lhe disse."Se te visses uma única vez, se te sentasses á tua frente e te ouvisses a falar, se te pudesses segurar, percebias porque é que as pessoas se apaixonam por ti". Ás vezes a verdade é a última coisa que se pode dizer. Ele não disse, ela não ouviu e nada ficou. Nem sequer para lembrar. Quando a paixão é tão grande nenhuma memória presta. Fica só muito tempo.
Fica só muito tempo do tempo todo que não se soube como passou. O amor é um trabalho de atenção. Diz que sim. Basta um abrir e fechar de olhos e perdeu-se. E o coração lançado à rua, desempregado de repente. Num dia de sol. O amor é uma força que não presta para mais nada. O que é que se pode fazer?
O que se pode fazer quando o amor nos larga? De repente há tempo para ler, tempo para os amigos, tempo para o trabalho, tempo para o olhar. Diz que sim. Há tempo para tudo, mas é tudo sem querer. E depois um dia acorda-se, vai-se á mesa, lê-se a última página do último livro que se tinha para ler, abre-se a agenda, e verifica-se que tudo está em ordem e que se está finalmente em dia. Em Dia.
Em dia de inverno, no fim de uma história. Sentado num banco de Hotel quase vazio, com um livro ao lado. O amor é uma forma de organização. Ocupa, arruma, decide por nós. Telefona-se antes de dormir, almoça-se de costas para o mar, discute-se tudo o que acontece. O amor. O amor tem os dias contados. Não se pode contar com a força dele.
Não se pode contar uma verdadeira história de amor. Quem é que a queria ouvir? Só uma história passada com outras pessoas. Só uma história parada antes de chegar ao fim.
Os sítios sabem mais que as palavras. Diz que sim. A coisas acontecem mais em elas do que em nós. As janelas altas estão todas a falar.
As janelas altas estão todas a falar durante o tempo inteiro que lá está. QUem sabe o que aconteceu? A luz entra a matar. Diz que sim. Diz que vai. É um dia de semana.Não há problemas. Não há atrasos. É um dia novo. Diz que sim. Pensando bem. Com a vida inteira á frente como se nunca tivesse amado. Não.Não como se nunca tivesse amado. Na verdade como se nunca tivesse sido amado. Porque afinal, à coisa mais pequena da vida morre a coisa maior."
Independente, 1989

quarta-feira, outubro 17, 2007

ao longe

Down that dream
I dream each night
You say you love me
and you hold me tight
But when I'm awake
I found you out of sight
oh
down that dream...

Down that dream
and bless it should
cause without that dream
I could never had you
But it hurts me cause it won't come true
Oh down that dream...

Down your lips
and down your eyes
they lift me high above
to the moonlight sky
but then I trunble
out of paradise
oh down that dream!

Desabafos mentais

Tanta coisa para dizer. Tanta coisa por dizer. Tantas palavras que rodopiam dentro de mim. Pensamentos que se atrapalham. Ideias que se agridem. Memórias que se matam. Silêncios que fogem. Bocados de mim que se colam á pele e escorrem por pernas que se prendem a custo ao chão.
Sentimentos que pedem para nascer. Sentimentos que se tentam matar.
Lava-se o rosto ao desespero. Tricota-se uma falsa manta de tranquilidade, que nos aqueça quando o frio do tempo, das ausências entra entreaberto em nós.
Os rostos aparecem desfocados, envoltos numa névoa escura que pesa quilos sobre um corpo cansado. Tudo o que ficou por dizer ficou entreaberto num espaço, tempo que acumula e não corre...
Recortam-se os afectos tentando aproveitar o máximo que ainda presta. Colam-se a cuspe na esperança que pegue. Mas são frágéis. O sonho já não os sustenta.
Tenta-se comprar a esperança a crédito, conscientes que a factura que se pagará poderá ser grande demais.
Mente-se aqueles que gostam de nós, que nos distribuem pérolas de sabedoria popular qual prozac barato que custa menos que um abraço.Ensinam-nos que a dor não se partilha. Que a temos que viver, que a vida é assim, uma corrida de obstáculos em que se tem de cair para aprender a contornar, na esperança de que algo ou alguém um dia desvie a barraeira que nós próprios erguemos.
Ficamos...eu, tu, ele, presos no limbo da falta de vontade á mistura com um esforço por fazer tudo bem. Somos crescidos, não podemos faz birra, não podemos mudar de vontade, nem de ideias como se muda a camisola. Não desfazemos a construção do lego que somos, com medo de provocar a derrocada da sala onde nos pavoneamos a tentar convencer os outros da nossa solidez.
Não pedimos abraços, não admitimos a falta, não nos deixamos escorregar pelas paredes, não gritamos, não fazemos cenas, não nos zangamos com o mundo,não corremos riscos, não nos lançamos nos braços de estranhos para assumir a familiaridade da dor, do medo, das dúvidas.
Contentamo-nos com pouco, com o possível e não o desejável.Queremos tanto ser como os outros que abortamos o nós.

terça-feira, outubro 16, 2007

Para nós...

"You were between walls .I've opened a hole. Now ... use it! "

Mas ao menos sei...

O que é:

  • Bicondilomeniscotrocliartrose ( dá muito jeito para aquele jogo do "Telegrama")
  • Parastesias (apesar de incómodas fazem rir!)
  • Dolicocéfalo ( só existe em versão Iscspiana)
  • Fenaquistiscópio (Obrigada João Cruz pelos 18)
  • Isopor ( nem dá para chegar perto)

Resposta à dúvida da noite....


"Se eu gosto de ti, se tu gostas de mim...se isso não chega tens o mundo ao contrário!!!"


Afinal o problema é ser canhota e não saber fazer o pino!!!

Spirou secret....


"....não pude deixar de sorrir

não pude deixar de chorar,

eu só queria era fugir....

e Voar

e voar

livremente sem parar

e voar

e viver

ao som deste cantar!...."

Welcome back....


quinta-feira, outubro 11, 2007

Amarelo!!!!!!!!!!!!!!




Como alguns sabem eu sou um pouco parola...Eu gosto da cor e do kitsh, e apesar de não conseguir ser uma mãe mais pirosa, como diz a minha Goma Gigante, lá vou desenvolvendo o meu estilo entre o semi-teen-hippy-sexy (dirão alguns...) e a Maria Papoila com uma costela Brit.Pois bem...neste universo de cafésinho de esquina sempre á mão de semear, encontrei este objecto giríssimo sobre o qual nada mais sei dizer, para além do óbvio: é amarelo e é giro! E eu que pensava que nem todos gostavamos do amarelo.


Roubei a imagem duma realidade que não é tão mainstream, mas não deixa de ser bastante apelativa.